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‘Vamos profissionalizar o turismo de Capitólio’

Por Adriana Dias Da Redação

11 de janeiro de 2021

Foto: Divulgação

Cristiano Geraldo da Silva, o Gerardão, tem 32 anos, é natural de Capitólio e se formou em Sistemas de Informação, tendo cursado dois anos na Fundação de Ensino Superior de Passos (Fesp), atual Universidade do Estado de Minas Gerias (Uemg) – Unidade Passos, e concluído na Unip, em São Paulo.

Filho do agricultor e ex-vereador Vitor Leite da Silva e da doceira Luzia de Fátima Silva Leite, casou-se com Andressa Aparecida Galvão Ávila, com quem tem o filho Vitor Antônio Silva Ávila. Esta é a primeira vez que se candidatou a cargo público e obteve 61,23% dos votos, conferindo a vitória nas urnas. Seu primeiro estágio foi na secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agropecuária e Abastecimento (Seapa), em Passos. Aos 19 anos, fez um intercâmbio nos Estados Unidos para aperfeiçoamento no idioma inglês, com sua namorada, a atual esposa.

Passou por várias grandes empresas, tais como General Motors, HP, P&G, Ypê e Suzano, sempre na sua área de Tecnologia de Informação. Os rumos políticos entraram em sua vida ao decidir sair de São Paulo e montar uma empresa de turismo em Capitólio. Para contar sobre este novo desafio, a Folha recebeu nesta sexta-feira, 8, um dos mais jovens prefeitos da região.


Folha da Manhã – A que o senhor atribui a sua vitória sendo que as várias pesquisas apontavam a preferência dos eleitores pelo seu adversário?

Gerardão – O ex-prefeito José Eduardo Valory tinha 85% de aprovação de sua gestão, assim o seu vice e candidato Toninho Massareco esteve à frente nas pesquisas até nas últimas semanas, porém, no dia 6 de novembro fizemos uma pesquisa registrada e já aparecíamos na dianteira com o resultado de 42,5% para mim e 38,2% para o Massareco. A virada, porém, foi atribuída a ter colocado um propósito ao que eu queria para, primeiramente entrar na política, e fazer aquilo que acreditamos. Entramos sem dinheiro, sem grupos políticos do nosso lado, somente com a sola do sapato e a saliva. E, o propósito era de fazer a renovação política. Do outro lado foi a política tradicional, tendo juntado todos os caciques, o que causou revolta na população. Foi regada a muito dinheiro e nós seguimos na humildade. E, entendemos que cometeram alguns grandes erros, tais como prometer que deixariam de receber o subsídio como prefeito de R$16 mil, valor que acrescido de 1% da arrecadação do município construiriam 300 casas populares. Isso pegou mal frente à população. Também erraram ao antecipar que o então prefeito José Eduardo Valory seria o secretário de Saúde.


FM – Os pequenos empresários do setor de turismo enxergaram potencial na sua proposta?

Gerardão – Com certeza. Por eu também ser empresário de turismo. Quando voltei para Capitólio abri uma agência de turismo e uma pousada. Já atuo há 3 anos e conseguimos agregar estas pessoas com o propósito que apresentamos.


FM – Como iniciou o seu mandato?

Gerardão – Algo que me chama atenção na administração pública é a gestão de processos. Para isso, logo que assumi tive esta visão de que seria necessário, primeiramente, fazer esta administração com metodologias para mudar processos. Viemos fazendo este trabalho com as pessoas, com as equipes, engajando as pessoas, fazendo com que compreendam seus propósitos e tenham a mesma visão que eu estou tendo do outro lado da colina. Para que todos andem no mesmo sentido na melhoria dos processos. Então, basicamente é isso que estamos fazendo nestes primeiros dias, cada servidor mapeando os seus processos e documentar para analisarmos as falhas, erros e aplicar melhorias.


FM – Um dos grandes avanços nos últimos 8 anos na profissionalização do turismo de Capitólio se deveu às parcerias, como a do Sebrae e outras entidades estaduais e federais. Essas parcerias vão continuar sendo incentivadas? Já existem tratativas nesse sentindo?

Gerardão – São importantes, serão aperfeiçoadas, não só com o Sebrae e os institutos, mas também parceria com as associações. Por ter ajudado a fundar a Associação de Passeios Turísticos de Capitólio (Apatur), vejo com muita força a necessidade de composição com o associativismo e com o cooperativismo.


FM – Capitólio já foi considerado como um dos 8 destinos turísticos do Brasil. O senhor vê que o município tem recebido o devido reconhecimento das autoridades estaduais e federais do setor?

Gerardão – Não vejo este reconhecimento. E, nem é pelo fato apenas de não entenderem esta necessidade, mas talvez por nós mesmos. Capitólio não buscou este reconhecimento. Sou pela meritocracia e se trabalharmos de forma qualificada, profissional, isso vai crescer que de certa forma será reconhecido, naturalmente. Todos vão passar a reconhecer Capitólio como um destino muito bem vindo. O município tem que fazer valer e fazer por merecer, e, vários empresários vêm fazendo um excelente trabalho, investindo em obras de infraestrutura e investindo na qualificação de seus profissionais.


FM – O que poderá ser feito para se evitar que esse grande fluxo de turismo não se transforme em algo predatório?

Gerardão – Na verdade, hoje já considero que o turismo em Capitólio seja predatório. Precisamos fazer o trabalho de profissionalização e qualificação para começar a mudar esta imagem. Mesmo a questão da exploração dos locais turísticos, como os pontos ecoturísticos. Já temos em Capitólio uma movimentação grande para esta profissionalização dentro dos atrativos, vamos que alguns têm salva-vidas, acompanhantes para as trilhas. Então, todas as demais estão partindo para a profissionalização. Ainda faltam avisos, graus de dificuldades das trilhas. Vemos que estão investindo em capital humano, mas ainda falta a parte da comunicação com o turista. Esse é um passo para que deem este pontapé para a profissionalização. Vamos profissionalizar o turismo de Capitólio!


FM – O município de Capitólio é o que tem mais recebido investimentos na área de turismo em todo o Lago de Furnas. A administração pública vai continuar buscando esses investimentos?

Gerardão – O grande apoio que a administração pública pode dar, não só para os grandes empresários, mas, principalmente para os pequenos, é a desburocratização e o auxílio na questão da profissionalização. Estas parcerias com o sistema S pode ter o incentivo desta questão. Volto ao começo com o mapeamento dos processos. Precisamos de forma consciente e legal trazer todos para a legalização. O que dá chances a todos.


FM – Existe algum projeto para a formação de mão de obra para o setor de turismo?

Gerardão – Queremos trazer cursos técnicos da área de turismo e atendimento para Capitólio. Temos salas de aulas em escolas públicas que estão ociosas no período como noturno. Podemos e vamos firmar estas parcerias.


FM – A cota mínima do Lago de Furnas é uma luta que ganhou fôlego nacional nos últimos meses. É algo em que o senhor pretende focar?

Gerardão – Tive a chance de participar da posse de Romeu Zema, em 2019, e a oportunidade de cumprimentar o governador. Confesso que ali foi o ponto e o local que decidi, em 1º de janeiro de 2019, que seria realmente político. Que podemos fazer mais. E, ao cumprimentá-lo, pela quantidade de pessoas, vi que não adiantava ficar tentando dizer quem eu era. Então, me veio à mente dizer o nome da minha cidade: Capitólio. E, para minha surpresa, ele ficou olhando nos meus olhos e disse: ‘vamos recuperar o Lago de Furnas’. Posteriormente nos encontramos recentemente em São José da Barra, fui praticamente o primeiro prefeito a me manifestar e fiz a colocação de que atualmente o Lago não pode ser olhado apenas pela questão de geração de energia, mas além dela, a sua importância é essencial para os multiusos. Geração de renda para todas as famílias de seu entorno. Eu, tendo nascido e crescido em Capitólio, pude assistir ao longo destas 3 décadas as altas e baixas da represa. Esperamos que tenha uma regularização e que o governo auxilie pequenos empresários para que possam produzir suas próprias energias. Existem outras tecnologias para não sobrecarregar o sistema energético nacional.


FM – Quando aconteceu o start para a política e para ser prefeito?

Gerardão – Sempre gostei de política, é algo que convivi de forma muito particular, pelo fato de meu pai ter sido vereador, mesmo antes de eu ter nascido. Ele foi parlamentar de 1977 a 1983. Estes assuntos sempre foram muito comuns em casa. Na comunidade do Grotão, onde vivemos, meu pai sempre foi muito atuante, seja na capela, na quadra, em festas, batalhava e tomava frente pela comunidade. Cresci vendo isso e me instigou o lado político. Sou mais comunicativo que meus outros dois irmãos, Renato Leite e Eduardo Leite, ambos também da área de Tecnologia da Informação, residentes em São Paulo. E, sempre me diziam que eu era gerencial. A forma como fui criado me moldou. Minha mãe sempre trabalhou também, produzia doces, queijos e quitandas maravilhosas. Em 2018, nas eleições para presidente, eu acompanhei muito de perto as mudanças políticas, depois a grande mudança em Minas Gerais, com Romeu Zema. Tudo isso me instigou a ingressar. Voltei para Capitólio em 2018, mudei com a família ainda prestando serviços em São Paulo e a política me instigando. A princípio, eu sairia candidato a vereador e, para tanto, fiz o curso do RenovaBR.


FM – E o curso foi interessante para lhe despertar ainda mais o desejo pela candidatura?

Gerardão – Certamente, foi sensacional e um marco em minha vida. Fiz antes da campanha e agora fiz outro específico para prefeitos eleitos. O RenovaBR é uma iniciativa de renovação política idealizada pelo empreendedor e investidor Eduardo Mufarej. O Renova apoia o surgimento de novas lideranças políticas no Brasil através da qualificação e formação de quadros. O programa foi criado no dia 6 de outubro de 2017. Fui filiado ao Novo e, como em Capitólio não tinha diretório do partido, eu me desfiliei e ingressei no Progressistas. Então, que desde agosto de 2019 nós conversávamos com os grupos políticos para uma aliança. Em junho todas as tentativas romperam. O candidato a prefeito que eu apoiava desistiu, que era o Floriano Vandinho. E, por conta dos grupos existentes estarem muito rejeitados, o meu grupo decidiu e indicou meu nome, o que causou surpresa. Acabou que aceitei e mesmo assim houve várias tentativas de desarticulação, mas, bati o pé e, tanto eu, quanto a Angela Leite, a vice, somos novos na política.


FM – Quais os desafios e os grandes gargalos para administrar Capitólio?

Gerardão – Fazer a virada de chave que vai possibilitar a profissionalização dos serviços turísticos de Capitólio. Os gargalos em Capitólio são a burocratização existente. Tratamento de lixo. Energia elétrica. Sistema de águas, o que chega a ser irônico, pois Capitólio é cercado por água e temos um problema com a Copasa no fornecimento de água, temos que rever este contrato, que foi renovado pelo prefeito por mais 6 meses, mas que se encerra em maio. Vamos abrir licitação, ver qual será o melhor negócio, se renovar com a Copasa – não nos mesmos moldes -, se com autarquia Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae). Precisamos encontrar uma solução e estamos indo a algumas cidades para buscar os resultados. Já com relação ao lixo, estamos incentivando a coleta e reciclagem e trabalhar o lixo orgânico para transformar em energia. Para isso, um consórcio com municípios vizinhos para viabilizar a criação da usina. Em agosto, a Codevasf termina o levantamento para o tratamento de esgoto e recisamos buscar uma empresa para o trabalho. Com relação à energia elétrica, não pode mais acontecer queda em momentos como os festivos. Já estou buscando reunião na Cemig em Belo Horizonte para solicitar a criação de uma subestação em Capitólio. Este feriado só não caiu por conta da pandemia. Mas, em 2019 o feriado da Virada foi sem energia.


FM – A pandemia para todas as cidades da região tem sido um grande problema, mas, para Capitólio é ainda maior por conta do turismo. Como estão lidando com isso?

Gerardão – Por incrível que possa parecer, com base nos relatórios que temos, a maior incidência não vem das pessoas diretamente ligadas ao turismo, mas sim, de festas particulares. Entendo que é um problema do Brasil. Nos serviços prestados pelo turismo, todos os cuidados estão sendo tomados, tanto pelos profissionais, quanto pelos usuários. Mas nestas festas não existe qualquer critério. Capitólio tem não só Escarpas que atrai muitos jovens e pessoas de fora, mas têm outros. A coibição é difícil, mas não é impossível. Vamos trabalhar esta coibição sim, vamos fiscalizar, vamos usar os mecanismos que temos e que são legais, tais como coibir o barulho. Podemos inclusive aplicar multas pesadas.


FM – Em dois anos, as eleições para cargos estaduais e federais chegam. Tem pretensões para disputar outros cargos eletivos?

Gerardão – A única pretensão é fazer um bom trabalho, pensando no hoje. O resultado dirá se poderemos ir além ou não.


FM – O secretariado já está montado? Foi aproveitado algum quadro da gestão passada?

Gerardão – O secretariado já está nomeado, são todas pessoas novas no governo e ainda pretendo fazer algumas alterações na estrutura das secretarias. Temos seis secretarias municipais, que são de Planejamento, Gestão e Finanças, com o administrador João Elias dos Reis; de Saúde é a enfermeira Nerilaine Camila S. Cerri Casso; de Educação, Esporte e Lazer assumiu a pedagoga Silvana Teixeira Gazottt Simões; de Infraestrutura o nomeado é o engenheiro civil Alécio César de Castro; de Desenvolvimento Social foi nomeada a professora Márcia de Fátima Gomes Leonel; e, a de Desenvolvimento Econômico Sustentável – Turismo, Cultura, Agricultura e Meio Ambiente, assume o turismólogo Gustavo Paiva Resende Toledo. Além das secretarias, temos as Procuradorias, para as quais foram nomeadas as advogadas Michele Ribeiro dos Passos Souza e Thais Aparecida Silva Lima; a Assessoria Jurídica ficou com o também advogado Marcos Henrique Rodrigues.