Destaques Dia a Dia

Valores Atuais

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

26 de janeiro de 2021

Cada dia mais, estamos aprendendo que tudo o que acontece conosco deve ser medido, comparado e planejado, no sentido de buscarmos os resultados que desejamos. Não há situação, mesmo as que dizem respeito aos sentimentos, na qual não sejamos levados a analisar as consequências de nossas decisões.

É bem possível, pela força do hábito ou das circunstâncias, que sempre queiramos ter referenciais para análise, que procuremos conhecer previamente os riscos a que estamos nos expondo, analisar o “custo – benefício” de nossas escolhas, enfim, buscar ter em mãos todas as informações possíveis a respeito daquilo que possamos estar nos submetendo.

Com relação à juventude, muito se tem falado do ‘vazio’ experimentado por ela, em especial, pela que faz parte da atual cultura ocidental. Chegamos ao chamado ‘fim das utopias’, que implica priorizar tudo o que é ‘necessário’ para viver e sobreviver no dia a dia, ou então, tudo o que é ‘possível’ de se conseguir, a médio e longo prazo, como por exemplo, a realização dos projetos de vida, pessoal e social.

Isso parece ser um fato de decorrências sensíveis na vida de cada um, com destaque aos jovens, que estão em idade de projetarem-se no futuro, tomarem decisões sobre que ‘vida boa’ vão eleger, sobre o que vão fazer, e sobre quem vão ser.

Dados, como o aumento da violência e da falta de civilidade, o consumo crescente de drogas, a grande frequência de suicídios (que matam, no mundo, tantas pessoas quanto as guerras e os crimes somados), a tendência ao ‘isolamento comunitário’ nas grandes cidades, ao consumismo, a busca incessante de diversão, que contribui para o aumento da força da indústria do entretenimento, a falta de interesse pelo saber e pela atividade intelectual, as crescentes queixas sobre a qualidade da educação, entre outras, parecem ser os indícios de um mal-estar ético. “Comprovar a presença de tal mal-estar e procurar entender suas causas, parece-nos essencial, notadamente para guiar políticas públicas à educação de crianças e jovens”, comenta artigo da revista Ideia.

A partir de entrevistas com mais de cinco mil alunos de escolas públicas e particulares, o pesquisador Yves de La Taille, um dos mais renomados autores dos estudos sobre ética no Brasil, conseguiu levantar dados relevantes a respeito do assunto.

Sua investigação abrange aspectos pouco focados nas pesquisas sobre adolescentes. Permite ver, por exemplo, o grau de influência da mídia, da religião, da escola, da família e do grupo de amigos na formação de valores dos jovens. Ao mesmo tempo, possibilita compreender como eles se veem inseridos no mundo, na sociedade e em seu círculo de convivência.

A respeito da pesquisa, comenta-se que: “É uma pesquisa muito interessante, na qual percebemos que os jovens são muito mais lúcidos que pensamos. Eles revelam um diagnóstico bastante exato da realidade. Esses são dados que estimulam muitas perguntas aos educadores, pois as respostas que a juventude dá, coloca-a diante de desafios que fazem pensar a respeito de como lhe ensinamos determinados valores. Estes não se ensinam lendo livros sobre o assunto. Não se pode ensinar honestidade ou solidariedade dando uma matéria específica sobre esses atributos, por isso, é preciso criar na escola ‘experiências de vida’ que os promovam”.

A pesquisa mostra-nos, enfim, que o jovem de hoje é otimista em relação ao progresso da sociedade, e também razoavelmente otimista quanto às chances de se realizar na vida. Que atribui grande confiança às pessoas de seu círculo privado (pais, amigos), e se sente bem mais influenciado por eles do que pela escola, pela mídia e pela religião.

Coerentemente, ele elege a moral como essencial para a sociedade, com particular destaque para a justiça, a honestidade e a humildade. Ainda bem. Nem tudo está perdido. O que aumenta, e muito, em face desses resultados, é a responsabilidade dos pais na formação do caráter de seus filhos. É um trabalho árduo e incessante, mas a família precisa buscar forças para exercer seu papel educador, que é inalienável.