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Uma cidade sem inocência

16 de outubro de 2020

O romance O Chapadão do Bugre, de Mário Palmério, bem poderia fazer parte do currículo de História do ensino médio nas escolas de Passos. Lançado originalmente pela Editora José Olympio em 1965, foi reeditado em 2019 pela Editora Autêntica e está disponível nas livrarias. Nascido em Monte Carmelo, Palmério construiu um romance poderoso, tendo como matéria-prima fatos acontecidos em Passos no início do século passado, que culminaram no episódio que ficou conhecido como “a matança do Fórum”.

O evento está na memória da cidade, pela sua dimensão e enorme repercussão que alcançou na época, quando a truculenta polícia mineira decidiu acabar de vez com a estrutura de poder dos coronéis passenses e promoveu um banho de sangue na área central. O romance já foi até mesmo adaptado para uma série de TV, com boa parte filmada em Passos, e professores como Antônio Theodoro Grilo e Alvimar Costa desenvolveram estudos sobre os fatos que lhe deram origem.

Além de educador, Mário Palmério foi deputado federal por Minas entre 1950 e 1962, e embaixador do Brasil no Paraguai. Em 1964, recolheu-se a uma fazenda no Mato Grosso, onde escreveu O Chapadão do Bugre, com base em farto material que lhe forneceu o professor Breno Soares Maia, seu amigo pessoal. Além da história narrada com riqueza de detalhes, ele levara de Passos uma série de folhetins apócrifos impressos entre 1916 e 1917 por gráficas de Guaxupé e Guaranésia. Sob o título de Os contratadores da morte, eram narrados em primeira pessoa pelo jagunço Dente de Ouro, que havia prestado serviços a uma família poderosa da cidade.

Os folhetins, raros e pouco lidos, serviram de fonte para o romance, que culmina no episódio da chacina promovida pela força policial do estado de Minas dentro do fórum de Passos, contado no livro exatamente como ocorreu. Ali, os principais políticos da situação, proprietários rurais que, como em todo o Brasil, construíram seu poder às custas de violência, foram emboscados e mortos, no dia 26 de setembro de 1909. A movimentação policial no Largo da Matriz, onde se localizava o fórum, atraiu muita gente ao local, centro comercial da cidade. Lá estava também meu avô, então um rapazinho de 19 anos, curioso e bisbilhoteiro, que acompanhou de perto os trágicos acontecimentos. Meu avô testemunhou esses fatos e muitas das histórias narradas com fidelidade no romance. Mário Palmério teve o cuidado apenas de trocar os nomes de personagens e cenários. Passos, por exemplo, virou Santana do Boqueirão. Os cenários rurais descritos no livro são extremamente parecidos com a região de Passos.

Li o livro pela primeira vez em 1975, espantado por já conhecer a história. Eu tinha 19 anos, mesma idade de meu avô no dia da tragédia, e me lembrava com nitidez das noites em que ele se sentava à mesa da sala do sobrado, à rua Deputado Lourenço de Andrade, e contava com riqueza de detalhes as atrocidades cometidas pelos jagunços e os conflitos entre os poderosos locais. Nas noites de chuva, quando frequentemente caía a energia elétrica, o rosto de meu avô, iluminado pela luz da vela, ficava ainda mais expressivo e suas histórias mais impressionantes.

No início do século 20, Passos era um centro urbano movimentado, com sua bela praça e ruas calçadas, imponentes sobrados e palacetes, pertencentes a famílias abastadas, comércio dinâmico e noites agitadas pelas casas de jogos e zonas de prostituição. As classes rurais enriqueceram graças à criação de gado, mas se fecharam numa redoma de corrupção e violência. Os personagens de Chapadão do Bugre são como os personagens de outros recantos profundos de um Brasil selvagem e sem lei, ou com leis próprias, quase sempre injustas. Brutalizados pelo enfrentamento às forças da natureza e à irracionalidade dos homens, convivem cotidianamente com o crime e a injustiça.

A construção desses personagens exigiu um conhecimento que Mário Palmério acumulou em incansáveis andanças pelo interior, como deputado federal e educador. O leitor afeiçoa-se aos personagens, rudes porém profundamente humanos, vítimas de um ambiente adverso, algozes de si mesmos. Esta é a magia da literatura. Por meio da invenção, revela corpo, alma e espírito de um tempo, um país, uma comunidade, e fornece elementos que nos ajudam a compreender a história.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.