Destaques Dia a Dia

Um Causo de Pescador

10 de junho de 2020

Durante meus quase sessenta anos trabalhando e atendendo o balcão, ouvi de fregueses diversos causos sobre pescaria. E o Zé Pescador era um deles, que mesmo sabendo que seus causos eram exagerados, pelo impossível, todos se divertiam. E um de seus causos que me lembro bem, foi mais ou menos assim:

Num domingo como tantos outros, depois de vários dias de chuva, amanheceu um dia claro de céu limpo sem nenhuma nuvem, resolvi fazer minha costumeira pescaria no desvio do rio situado na região do meu sítio à meia légua de casa.

Tratei mais cedo dos porcos, apartei os bezerros das vacas e fui preparar minha traia de pesca. Enchi um canecão de minhocas, conferi as varas, linhadas, anzóis e chumbadas, amolei o canivete, peguei o alicate para cortar os ferrões de mandis, peguei um pouco de gordura coloquei numa latinha e uma frigideira para uma fritada de lambaris.

Ajeitei tudo no embornal e a mulher no meu ouvido:

Zé, tu não tá esquecendo nada? Cuidado Zé, na beirada do corgo há muita taboa e lodo, lá é um perigo, se ocê escorregá e cair na água ocê morre Zé, tenha cuidado! Não bera as moitas, lá tem muita cobra, lembra da cascaver que picou e quase matou o compade Tunico! Olha o mosquito da maleita, se viu como ficou o compade Aparecido”.

Com tudo no ouvido despedi da Chiquinha, abençoei a filharada prometendo trazer pra eles uma boa pescada. Cheguei lá pouco mais de meio dia. Ajeitei a traia debaixo de uma velha árvore de óleo, e era só iscá, mergulhar o anzor e os grandes lambaris do rabo amarelo, aqueles de parmo e meio, saíam no anzor iguar praga.

Já com meio embornal de lambaris e alguns mandis, ajeitei a gordura na frigideira, com o canivete afiado escamei e limpei uns maiorzinhos, acendi com uns gravetos um fogo, e enquanto a gordura esquentava, tomei um trago da branquinha, acendi um pito para espantar os borrachudos e os mosquitinhos pólvora. Sentei, tirei as botinas, e encostado na árvore olhei pra cima e vi duas cobras lá no último gaio da árvore. E olhando as duas cobras que passeavam pelo gaio, peguei no sono. Passado algum tempo acordei sentindo um gostoso cheiro de alguma coisa fritando.

Desconfiado, olhei pros lados e não vi ninguém, olhei na frigideira parecia que estava fritando uma enorme linguiça no meio da gordura fervendo. Aproximei, e examinando bem de perto vi que estava dentro da frigideira era uma cobra toda tostadinha! Nesse momento lembrei das duas cobras que estavam passeando no último gaio da árvore.

Levantei bem os olhos e vi o que tinha acontecido. Lá no alto, me espiano, tava só uma
cobra, com uma tristeza danada, não sei se era o macho ou a fêmea, o certo é que uma caiu lá de cima dentro da frigideira e com a gordura pelando não deu tempo dela escapá, ficando todinha frita na frigideira!

Nessa mesma pescaria gente, já escurecendo e, quase na hora de vortar pra casa, eu ouvindo umas pancadas de um monjolo, a batida de uma porteira no pau do esteio, o canto da juriti procurando a moita de bambu, e ali bem perto, o sapo boi, comedor de inseto, coaxando sem parar. Com o cricrilar dos grilos e os vagalumes já aparecendo com suas lanternas verdes fazendo um vai e vem colorindo o espaço, eu já com o embornal cheio de peixes, resolvi voltar pra casa.

Ajeitando as traias senti os intestinos apertar, a barriga começou a ronear e a doer, vi que não dava tempo de chegar em casa, corri pra trás da primeira moita, e foi só o tempo de afrouxar a correia, desabotoar a ceroula, juntar as mãos na cintura e sentir aliviado. Quando estava já tranquilo ali, agachado, escutei um barulho atrás de mim. Aí que me veio em mente a recomendação da Chiquinha: “Zé cuidado com as cobras, lá tem muito cascavér.” Aí virei bem devagar, e com a lua cheia clareando, vi um tamanho de uma cascavér dando um balanceado na cabeça, tentando limpar a cara da minha sujeira! Eh pescaria!

É o tempo passando e a gente “Memoriando”!