Destaques Dia a Dia

Um caso de espionagem industrial

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

28 de setembro de 2020

Este caso de espionagem industrial, aqui, foi narrado na 2ª edição do livro “Espionagem Industrial – O Roubo de Segredos nas Empresas Modernas”, de Jean Barral e George Langelaan, da Editora Expressão e Cultura, em fevereiro de 1971. O título original é “Les Nouveaux Parasites” – Copyright, 1969, Éditions Denoel. A 1ª edição em língua portuguesa foi em maio de 1970. O Japão sempre teve um povo valoroso, ordeiro e trabalhador. Respeitados no mundo por todos os povos, os japoneses estão também espalhados por muitos e muitos países. Sempre estudaram, pesquisaram e conquistaram excelentes progressos. Arrasados pela Segunda Guerra Mundial, depois conseguiram recuperar-se.

Dizem também que tiveram uma grande ajuda dos Estados Unidos da América do Norte para saírem da destruição causada pela guerra. Mas, além dos progressos, tiveram alguns aborrecimentos também. Até o fim do século dezenove, eles não possuíam um estaleiro sequer no país. Seus navios, tanto para cargas como para passageiros, eram encomendados e fabricados na Inglaterra e Alemanha, que detinham excelentes estaleiros. Estudavam criteriosamente cada navio adquirido e chegaram a enviar engenheiros aos estaleiros fornecedores, para aprender todos os segredos da construção de navios. Conseguiram, então, construir seus próprios navios. Mesmo assim, continuaram a fazer encomendas aos países fabricantes e passaram a ser mais exigentes ainda. As plantas e estudos apresentados a eles, geralmente, eram rejeitados com desculpas de que queriam algo diferente, pois haviam mudado de ideia. Os estrangeiros não conseguiam mais contentá-los, sempre mudavam a encomenda por outra.

Foi convidado, pela P. & O. Steamship Company, um engenheiro naval escocês, aposentado, para fazer a volta ao mundo num transatlântico desenhado por ele. Ao chegar num porto da Austrália, o engenheiro reconheceu um cargueiro japonês, projetado por ele, mas, que nunca fora encomendado aos estaleiros da Clyde, nunca tinha sido construído. Os japoneses copiaram todo o projeto, desistiram da encomenda e construíram o navio nos seus próprios estaleiros. Uma autêntica atitude de espionagem industrial! Voltando à Escócia, conversou secretamente com os diretores dos estaleiros. Assim, resolveram manter segredo da descoberta do cargueiro japonês e do plano que traçaram, idealizado por ele.

Não levou muito tempo, um armador japonês veio encomendar um navio cargueiro. Era para transportar certas mercadorias em algumas partes do mundo. Foi recebido com a maior boa vontade pelos diretores dos estaleiros. Meses depois, as plantas e as especificidades foram enviadas ao Japão. Seis meses depois, o armador japonês comunicou que eles haviam desistido da encomenda, mudaram de ideia. No lugar do cargueiro, preferiram trocar pela construção de uma barca tipo ferry, para transportar gado e passageiros num braço de mar em algumas ilhas do sul do Japão. Os escoceses prometeram fazer o projeto. O engenheiro aposentado voltou ao serviço ativo para trabalhar no projeto do cargueiro que havia sido cancelado pelos japoneses, cuja construção fora suspensa.

Sugeriram a ele, depois, que fosse para o Japão e ficasse lá por seis meses. Ele foi e não se deixou ser reconhecido. Um certo dia, presenciando uma agitação festiva na cidade, descobriu que haveria o lançamento de um novo cargueiro japonês. Foi presenciar o lançamento do navio. Reconheceu o desenho do navio e todos os detalhes que havia incluído. Ouviu um longo discurso de um senhor japonês, usando roupas europeias e cartola, e sem entender uma palavra sequer.

Outro japonês, também com roupas europeias e cartola, quebrou a garrafa de champanhe para inaugurar o navio, como era ou ainda é a tradição. Com aplausos efusivos, ao som de tambores e címbalos, o navio cargueiro deslizou mansamente sobre os trilhos engraxados e foi ao mar. Já na água, lentamente o navio virou de borco. O engenheiro, satisfeito, voltou para a Europa no dia seguinte. Ficou chateado ao saber, mais tarde, que o engenheiro japonês, responsável pela construção, praticou o hara-kiri (suicídio). Era costume, por uma grave vergonha sofrida por um japonês. Mesmo assim, apesar do vexame, o Japão tornou-se o quinto maior exportador de navios para o mundo todo, na época.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO é professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG. Ex-professor do ensino técnico comercial – formado no curso Normal Superior pela Unipac.