Destaques Dia a Dia

Tudo vale a pena

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

19 de janeiro de 2021

No poema de rara beleza, nostalgia e profunda reflexão, “Mar português”, o poeta Fernando Pessoa brinda-nos com a afirmação: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, da qual retiro a reflexão de hoje. Tenho recebido, de forma espontânea, nesses anos que ocupo este espaço, inúmeras manifestações de carinho, congratulações e incentivo para que não esmoreça e persista nessa caminhada, escrevendo semanalmente às terças, como colaborador deste jornal, meus despretensiosos artigos que a tantas pessoas têm trazido alento, conhecimentos e alegria.

Um jornal subsiste porque é bastante eclético e agrada às mais diferentes pessoas e aos mais variados gostos e interesses. Há os que iniciam sua leitura pela página de esportes, enquanto alguns buscam, primeiramente, as notícias policiais; os que preferem as colunas sociais e outros, as notícias sobre política; Há os que leem para se manterem bem informados sobre o que acontece na cidade, na região, no Brasil ou no mundo. É como ensina o dito popular: “Que seria do azul, se todos gostassem do amarelo!”.

Cada um busca em sua vida fazer aquilo que julga ser agradável, interessante ou necessário. Não há fórmulas prontas nem rumos predefinidos. O caminho se faz, caminhando, como nos mostra o poeta espanhol Antônio Machado nos versos a seguir:

Tudo passa e tudo fica, porém o nosso passar, é passar fazendo caminhos, caminhos sobre o mar. Nunca persegui a glória, nem quis deixar na memória dos homens minha canção; eu amo os mundos sutis, leves e gentis, como bolhas de sabão. Gosto de vê-las a pintar-se de sol e voar, abaixo o céu azul, tremer subitamente e quebrar-se… Nunca persegui a glória. Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar. Ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás, se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar”.

Tudo vale a pena se a alma não é pequena” – embasados em um texto de Armando Sá Ravagnani, constatamos a riqueza destas palavras que encerram uma verdade incontestável e que podem abranger inúmeros aspectos da vida, inclusive no que diz respeito às relações interpessoais.

Como não nascemos para viver isolados, é da natureza humana buscar por um convívio harmonioso com o próximo e, é nessa convivência, que podemos aprender muito com os outros e também termos a oportunidade de ensinar. Devo reconhecer, todavia, que determinadas pessoas comprometem a saúde dos seus relacionamentos por terem uma instabilidade emocional muito intensa.

Sabemos que na sociedade existem vários tipos de pessoas. Há aqueles que se julgam superiores aos outros, mas também os que se consideram inferiores a tudo e a todos. Se no mundo houvesse apenas esses dois grupos, com certeza, teríamos que amargar a triste condição da insuportabilidade da convivência.

Felizmente, porém, existem muitos que têm a mutualidade como uma das principais características. Independentemente das circunstâncias, preferem partilhar dores, alegrias, conhecimento e sucesso, entre outras coisas. Para definir esse estilo de vida em apenas uma palavra, penso que “felicidade” seja bastante apropriada.

Em termos comportamentais, os seres humanos têm diferenças e semelhanças, o que é normal e próprio da humanidade. No entanto, o que me impressiona é o fato de alguns pensarem que sempre estão com a razão em tudo. É claro que não me refiro à defesa salutar e necessária de pontos de vistas. Falo daqueles que dificilmente reconhecem seus erros, quase nunca aceitam as ideias dos outros e são inflexíveis em tudo.

Realmente, ceder não é fácil para ninguém, mas é uma condição imprescindível para vivermos em sociedade. Admito que este seja um dos maiores desafios que tenho enfrentado nestes últimos anos. Enquanto algumas pessoas são de fácil convívio, outras são extremamente difíceis de lidar. Neste caso, há que se ter uma dose elevada de paciência e tolerância para permanecer perto delas”.