Destaques Dia a Dia

Tudo Tem Seu Fim

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

23 de setembro de 2020

Carrego sempre na memória um fato simples acontecido lá em minha infância, e lá se vão mais de 60 anos. Foi numa época em que pela manhã via-se várias mulheres com as trouxas de roupas, latas e baldes se equilibrando sobre rodilhas de pano no alto da cabeça, indo para o batente, lavar roupa em algum córrego, com suas saias compridas até os pés. Não existia óleo, comida se fazia com gordura de porco, me lembro da fritura do toucinho e que colocava-se as postas de carne na gordura. E nesse mundo em que vivi minha infância não se conhecia tanto luxo como se vê nos dias atuais.

Tinha eu lá meus oito anos, sempre como todos os meninos de meu tempo, cabelo cortado americano ou de topete, descalço e procurando sempre uma aventura de moleque. Lá numa certa manhã, não recordo o dia da semana, chega ao Salão de Barbeiro de Papai, seu Mané (Manoel) que tinha um sítio um pouco distante da cidade. Bigode todo branco cobrindo a boca, revirado nas pontas, faca na cintura e botinas gomeiras surradas. Apeia, amarra o cavalo no toco de fora do Salão, com o dedo levanta a aba do chapéu caído na testa, cumprimenta Papai e demais fregueses: “Como estão os amigos?” “Com as graças de Deus a gente vai indo, e o amigo, e a família, como vão?” “Com Deus adiante, e a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a Virgem Maria a gente vai vivendo!”

Seu Mané sempre trazia para Papai alguns litros de leite, ovos empalhados em palha seca de milho, algum frango ou queijo em sinal de agradecimento pois Papai sempre o levava para almoçar em nossa casa após cortar seu cabelo e fazer sua barba. Após o almoço, ele deixava em casa alguns de seus pertences, dava água e trato ao seu cavalo amarrado no toco na porta do Salão, e descia (como se dizia) para a cidade para suas compras.

E neste referido dia seu Mané, almoçando, comentou estar pesaroso:

Juca, minha filha chorando me pediu que tava com muita vontade de chupar um picolé, mas como vou levar pra ela um picolé para matar essa sua vontade, se para chegar lá em casa, gasto mais de duas horas a cavalo? Se eu levar vou chegar lá em casa só com o palito do picolé!

Assim que sô Manoel desceu para a cidade, Papai me pediu que eu fosse até uma serraria ali perto com uma lata de 9 litros vazia, e a enchesse de serragem. Conversou na sorveteria do Nardo, na esquina de frente o Salão, e ele, sabendo do fato, numa forma, deixou alguns picolés gelar mais. Quando seu Mané retornou da cidade, Papai falou e mostrou como ele ia levar alguns picolés para sua filha. Com a lata cheia de serragem, colocou no meio muito gelo, fez o embrulho num papel com vários picolés, colocou o embrulho no meio da lata, apertou bem a serragem para conservar o gelo e:

Agora Mané” falou Papai, aperta a espora, não conversa no caminho que sua filha vai matar a vontade de chupar um picolé. Vai com Deus e que Nossa Senhora te acompanhe!”

Seu Mané ficou meio sem saber como agradecer, já montado no cavalo, pegou a lata, e num sorriso e um Deus lhes pague, mostrou sua gratidão a todos e, na cabeça do arreio segurando, colocou a lata com todo cuidado porque ali dentro estava um grande tesouro para sua filha! São fatos simples guardados na memória de um menino que andava com os bolsos cheio de bolinhas de gude, criando seu próprio brinquedo, vivendo em liberdade para brincar. E como é bom relembrar algum fato acontecido nessa fase boa de nossa infância, vivendo sem responsabilidade e preocupação, brincar e divertir a vontade como se não houvesse o amanhã!

E assim foi-se a época em que quase todas as casas tinham um tacho para fazer um gostoso doce, o mingau de milho verde, e a pamonha enchia as peneiras, deixando subir o vapor com cheirinho de palha verde, e a molecada, numa disputa esfomeada, raspava o tacho. E assim, voando, o tempo passou, e como tudo tem seu fim, quem viveu aquela época, hoje, cheio de nostalgia, traz essas gostosas lembranças no coração e na memória!
É o tempo passando e a gente “Memoriando!”