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Tributo a Gabriel Garcia Márquez

12 de junho de 2020

Sim. Um tributo tardio a Gabriel Garcia Márquez, chamado popularmente de Gabo, este monstro da literatura. Em especial, um orgulho aos colombianos. Minha relação com suas obras é longa. Infelizmente, por um desses acasos, jamais escrevi a seu respeito e, por isso, não pude incluir algum texto sobre ele em meu livro de opiniões literárias publicado em 2017.

Senti necessidade de voltar aos romances, após a leitura de um ensaio de registros históricos, o primeiro volume de “Escravidão”, de Laurentino Gomes, cujo texto aqui publiquei há um mês. Escolhi. O título não poderia ser mais emblemático a respeito do momento que vivemos, “O amor nos tempos do cólera”, um dos grandes clássicos de Gabo, publicado originalmente em 1985. Relembre-se que, décadas depois, acabou adaptado para o cinema.

Caso me deixasse levar, eu precisaria de inúmeras páginas para tecer comentários sobre Garcia Márquez, mas tentarei transmitir o possível. Nascido em Aracataca, Colômbia, em 1927 e vindo a falecer em 17 de abril de 2014, na Cidade do México, foi, sem dúvidas, um dos autores mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. Não se pode esquecer de que, em 1982, recebeu o Nobel de Literatura.

Minha primeira grande experiência com ele foi no excepcional “Cem anos de solidão”. Na primeira página de meu volume, lá está registrado a lápis: leitura iniciada em 26.07.96 e concluída em 26.09.96. Tal obra representa o marco, na América Latina, do estilo a que se denomina realismo fantástico. Em suas quase 400 páginas, Gabo empreende narrativa sobre as muitas gerações da família Buendia na cidade fictícia de Macondo, tudo sob autêntico surto de imaginação e criatividade.

Anos depois, experimentei outras três de seus livros. Nenhum tão extraordinário quanto “100 anos de solidão”, mas todos de alto nível: “Do amor e outros demônios”, em 2000, “Memórias de minhas putas tristes”, em 2008, e “Notícia de um sequestro”, entre maio e julho de 1999. Neste, ele relata casos de sequestros que ocorriam na Colômbia dos anos 90. Tal livro surgiu em razão de sua vertente jornalística, pois também exercera tal ofício.

Na realidade, sua carreira de jornalista foi vasta. Após estudar Direito, trabalhou em redações em Cartagena, Barranquilla e Bogotá. Em meados da década de 50, trabalhou em Caracas e, no início dos anos 60, foi enviado a Nova York como representante da ‘Prensa Latina” perante as Nações Unidas.

Embora consagrado como escritor de ficções, preferia enaltecer sua veia jornalística. “Não quero ser lembrado pelo romance ‘Cem anos de solidão’, nem pelo Nobel, mas pelo jornalismo”, dizia. A propósito, virá logo ao mercado a republicação de “O escândalo do século”, uma coletânea de 50 de seus artigos já publicados nos jornais entre 1950 e 1984. Dominava-o, acima de tudo, a paixão por escrever. Assim, aliou os dois instintos, o de jornalista e o de escritor.

O jornalista, em busca dos fatos e das análises. O escritor, em sua característica suprema de criar histórias. Eis uma aliança sempre possível e de inúmeros exemplos, dentre os quais Gabo preserva posto de relevo.

Bom, seu “Amor nos tempos do cólera”, além do brilhante enredo de um amor que perdurou por mais de meio século no íntimo do protagonista, Florentino Ariza, cujo sentido de existência sempre fora o de conquistar o coração de Fermina Daza, nos demonstra todo o inegável talento de Gabriel Garcia Márquez. Vale dizer que a todo instante e em todas as frases.

Independentemente da curiosidade que desperta pela longuíssima saga que viveu Florentino em sua obsessão por conquistar Fermina, cada um dos momentos da obra parece um livro próprio sobre os episódios e personagens que compõem o relato.

Basta uma mera circunstância para Gabo explorá-la ao máximo e oferecer o universo de detalhes que a envolve. Cada um dos personagens possui uma história densa e peculiar. Cada um dos fatos apresenta seu panorama de valores culturais e o invólucro em circunstâncias políticas e econômicas. O leitor que se entrega não cansa. Ao contrário, viaja nas riquezas da construção do enredo.

Não faltam os aspectos da medicina e, assim, da biologia, dos medicamentos, das doenças e da pandemia do cólera. Sobram detalhes do reino animal, da botânica, dos aspectos urbanos, da pobreza e das já marcantes diferenças sociais na Colômbia entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, intervalo de tempo em que a narrativa se baseia. Imprescindível fazer menção às frases bem escritas e a seu extenso arsenal linguístico, já que português e espanhol são línguas afins e resultantes da mesma estrutura neolatina.

Penetrar as páginas de “O amor nos tempos do cólera” significa, pois, assimilar toda a imensidão da criatividade do autor, além da natural ânsia pelo desenlace de um amor que perdurou por toda uma vida. Um amor que, apesar de sua aura romântica de momentos da juventude, não pôde jamais se desvincular dos mistérios, da aridez e das dificuldades que a vida sempre impõe aos amores.

Talvez eu possa me arriscar a sintetizá-la como um tratado do amor como ele é, não sob o campo dos estudos, e sim sob a estética literária. Não apenas seus impulsos iniciais, mas sua condição de ultrapassar os fluxos da paixão e da sensualidade, para existir até o final da vida, com todo o incremento da imaginação de um escritor fenomenal.

Gabriel Garcia Márquez consegue aliar profundidade e leveza, dores e risos, mas tudo de modo a capturar a admiração do leitor que ama a verdadeira literatura.

Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.” (sentimentos de Florentino Ariza e Fermina Daza, pág.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna