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Tolstói em duas marcantes novelas

25 de junho de 2020

Ano passado abordei aqui uma obra espetacular de Tolstói, “Ressurreição”, um longo romance. Vale lembrar que Leon Nicolaievitch Tolstói, contemporâneo de outro gigante russo, Fiódor Dostoiévski, viveu também na Rússia entre os anos de 1828 e 1910, quando então faleceu já aos 82 anos.

Nascido das camadas mais elevadas da sociedade e saturado das frivolidades do meio em que vivia, Tolstói foi-se transformando, ao longo da existência, em busca de ações para minimizar as profundas injustiças sociais que sofriam as classes mais desprovidas de recursos e estudos.
Tal característica deságua em suas obras, nas quais se torna possível perceber os conflitos entre a superficialidade dos atos comuns e a busca profunda de uma essência, que, talvez, somente as situações-limite possam nos oferecer.

Se, em “Ressureição”, temos o obsessivo desejo de reparar um erro do passado por parte do protagonista a fim de aliviar as dores de quem fora a vítima dessa falha, em enredo plenamente arquitetado pelo sentimento de culpa, nessas duas rápidas novelas que acabo de concluir temos a morte como a situação-limite.

A morte, porém, não como fim absoluto, mas como fruto de uma luz final e redenção de um mundo de ganâncias e hipocrisias. Claro que ambas são criações literárias, não estudos doutrinários, mas há de se perceber que refletem as próprias dúvidas e circunstâncias que tomaram a vida de Tolstói.

Manifesto-me, pois, sobre “A morte de Ivan Ilicht” (1886) e “Senhores e Servos” (1889). Na primeira, uma doença momentânea acomete o juiz Ilicht, que, detentor de uma vida de tranquilidade financeira e sucesso profissional, passa a sofrer horrores em razão de uma doença nos rins que só a morte pode aliviar. Na segunda, Tolstói nos oferece as mazelas das enormes disparidades sociais da Rússia no século XIX, então sob o regime dos czares.

Enquanto Ivan Ilicht, embora, visto, aos olhos da sociedade, como homem bem-sucedido, passa a enxergar, durante seu sofrimento, as infelicidades que o cercavam, inclusive as da família, em “Senhores e Servos”, um proprietário ganancioso e drástico se arrisca, ao lado de um serviçal, em uma perigosa viagem num trenó conduzido por um cavalo em meio a uma nevasca, cujo objetivo era somente chegar a uma vila distante para a realização de mais um negócio. Durante o trajeto, o fantasma da morte e as dificuldades fazem o negociante voraz tomar uma atitude altruísta, algo de que não costumava ser capaz.

São enredos aparentemente comuns, mas que, sob a pena de um grande escritor, adquirem contornos excepcionais. Eis sempre o poder da literatura: criar e aprofundar-se ao máximo na essência humana, em seus aspectos bons, ruins e misteriosos. Conduzidos por Tolstói, nas duas narrativas, sentimos as angústias, as dores e a própria redenção final de personagens intensas.
Ainda que curtas, por ostentarem a estrutura de novelas e não de romances, mais uma vez, nos é dado usufruir a densidade que os russos costumam expor aos leitores, mestres que o são na engenharia de enredos e personagens.

Minha primeira experiência com Tostói ocorreu há muitos anos, com o consagrado “Ana Karenina”, cuja leitura se deu nos primeiros meses de 2001. Tal obra integra meu texto ‘Clássicos do adultério’, juntamente com “O primo Basílio”, de Eça Queiroz, e “Madame Bovary”, de Flaubert, texto este que está publicado em meu livro.

Algum tempo após “Ana Karenina”, adquiri os dos volumes da obra mais reconhecida de Tolstói, “Guerra e Paz”, mas até hoje não me entreguei a suas páginas, por uma dessas lacunas inevitáveis no universo da leitura. Ainda cumprirei o desígnio.

Há muito a se dizer de situações-limite. Os campos da filosofia, da moral, da ética e da fé são repletos de exemplos. Numa definição mais sucinta, seriam situações extremamente dramáticas e que exigem a nossa resposta, a nossa superação, mesmo diante de obstáculos que talvez considerássemos intransponíveis.

A obra de Tolstói esbanja situações-limite, superações e redenções, nem que o fim da existência terrena represente a luz que traga a paz para as tormentas íntimas. O mesmo grau de culpa e redenções já apontei em Dostoiévski em textos já aqui publicados, embora ambos, que estão entre os maiores escritores da literatura universal, difiram no estilo.

Bom, na realidade, nem me proponho tanto a análises tão próprias às esferas da crítica literária. Desejo antes propagar meu amor aos livros, inclusive aos russos. Se o consigo, já me dou por feliz. Se transmito Tolstói e tantos outros, mais ainda.  Minha redenção consiste em ler e escrever.