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Temporada de “fake news”

16 de julho de 2020

Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem“. – Bertold Brecht. Já passou da hora do debate eleitoral se intensificar e eu me pergunto: em que resultará uma campanha eleitoral totalmente inusitada, possivelmente utilizando somente os recursos da mídia e das redes sociais?

O período quando é permitida a realização de campanha, com todos os métodos tradicionais utilizados para convencer o eleitor a votar em um candidato, foi imensamente reduzido para minúsculos 45 dias, com a motivação declarada de reduzir os gastos com as campanhas eleitorais.

Apenas, nos esquecemos que reduzir gastos apenas esconde os reais e verdadeiros motivos que os ocupantes de cargos legislativos tiveram para reduzir este período: inquestionavelmente, se uma campanha curta reduz gastos, ela também é um sério dificultador para que os candidatos novos e pouco conhecidos do grande público possam disputar com equilíbrio com as velhas raposas, titulares de cargos parlamentares e executivos.

Os representantes da velha política e seu conhecido “modus operandi” na certa comemoraram muito a aprovação dessa mini reforma eleitoral que abortou o debate de temas muito mais importantes como o voto distrital, as regras de uso da mídia informal e diversos outros temas.

Com sinceridade, não vejo perspectivas reais de grandes mudanças na representação política, que hoje se mostrou completamente dissociada da população brasileira e que vem criando, a cada dia, maior musculatura para prosseguir dominando a política nacional e o mais grave, barrando as grandes reformas que são necessárias e urgentes a começar pela reforma política, que até hoje obteve poucas iniciativas transformadoras, a não ser retoques de autoproteção da choldra de deputados que hoje nos representam.

Outro ponto foi a indefinição do que é pré-campanha e se tornou uma hipocrisia, na qual apenas não é permitido alguém se apresentar como candidato e pedir votos, mas disfarçadamente fazem tudo que farão na campanha, exceto os comícios hoje fora do contexto: pré-campanha pode ser definida pela antiga citação popular: “tem focinho de tomada, mora no chiqueiro, mas não é porco”.

Inicia-se aí a grande encenação que são os atos de campanha formal ou informal, patrocinada por candidatos dispostos a tudo para engrupir seus incautos eleitores. Para ilustrar com mais brilhantismo o embuste eleitoral, recorro ao amigo ilustre, Alberto Calixto Mattar Filho, em admirável coluna de quinta-feira passada, quando ao falar de fake news, definiu, com primor, como se portam os políticos em campanha:

Na verdade, como definir bem o conceito de fake news? Vejam que, em uma interpretação mais ampla, poderíamos até entender que inúmeros políticos as praticam ao vender suas imagens como grandes benfeitores em campanhas eleitorais. Há vários pais de obras por aí cuja paternidade poderia ser contestada.

De fato, as maiores e mais gritantes fake news, que passarão eternamente impunes, serão os discursos dos candidatos, inflados pela imodéstia extrema e promessas trapaceiras. A campanha eleitoral, que está próxima, pode se revelar um festival de mentiras e fake news, capaz de distorcer a vontade popular, novamente “vendendo gato por lebre”.

O exemplo do Rio de Janeiro evidencia o engodo eleitoral ocorrido nas últimas eleições, quando o eleitorado carioca, farto das lambanças dos últimos governadores, suspeitos e alguns severamente condenados pela prática de corrupção, escolheu para dirigir o Estado um ex magistrado acima de qualquer suspeita e com discurso fácil, representando uma esperança de reverter os recorrentes escândalos que tanto deixaram o Brasil inteiro indignado.

Pois bem, ledo engano dos eleitores porque ao que tudo indica o governador Witzel se mostrou a maior de todas a fake news, porque foi capaz, com requinte de crueldade, em pleno sofrimento da pandemia do covid19, de supostamente comandar desvios repugnantes para combater a doença. Esta sim seria uma fake news que deveria, como tantas outras, ser punida de forma exemplar pelo Judiciário, que parece se preocupar com as verrinas políticas nas mídias sociais.

Para ilustrar outro aspecto do debate eleitoral, cito o ex-candidato a prefeito de Belo Horizonte, o folclórico e saudoso Nelson Thibau, que solenemente prometeu construir o Thibauduto para trazer águas do mar construindo praias na capital mineira. O palhaço tiririca – pior que está não fica – e um célebre candidato a vereador que foi eleito com o slogan, “bosta por bosta, vote no Zé Costa”, pelo visto, foram muito mais honestos em suas “propostas”.

Para encerrar quero demonstrar aqui minha preocupação com os dados que pude ver nas pesquisas eleitorais em nossa região e pelo país a fora: a mesma população que demonstra tanta aversão aos políticos atuais, declara o total desinteresse pela política ou mesmo a intenção de votar em quem que seja. Repulsas à parte, falta aos brasileiros descobrir simplesmente que a desejada mudança somente ocorrerá se o cidadão movido pela consciência e após analisar detidamente os candidatos, compreender o quadro político e fazer a melhor escolha pelo voto.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político