Destaques Dia a Dia

Tá morto sim!

POR ADELMO SOARES LEONEL

19 de dezembro de 2020

O papel de médico do interior se constitui num dos parâmetros de referência da população como uma figura de suma importância, pois é o salvador de vidas e minimizador das dores e doenças. O homem de branco ocupa um patamar logo abaixo do Criador e de alguns poucos santos milagreiros; esperança final, às vezes, conselheiro e ombro macio às queixas dos afetivamente carentes, outras.

Nos dias atuais, pelo elevado número destes profissionais e sua socialização, a admiração cega cedeu espaço à uma convivência mais aberta, apeando- os do Olimpo à condição de simples mortais. Antigamente, não. Pobre coitado daquele que se arvorasse em brigas com juiz, padre e doutor! Ninguém se atrevia a um disparate desses, mesmo porque ao último sempre se devia alguma obrigação e os demais brandiam a espada do rigor vingativo da lei ou da danação dos infernos.

Nos bons tempos da pataca e da virgindade, existia na região um clínico respeitadíssimo, ainda lembrado com carinho e saudade, por nome de Doutor Fortunato Borsário. Típico italiano, sotaque carregado, gestos espalhafatosos, olhos azuis teimando em piscar num sestro contumaz de contrativas caretas, eterno conjunto de brim caqui, ornado por gravata borboleta branca, o doutor Borsário ignorava a indolência e nos seus lábios morava o sorriso da compreensão e do conforto, quando de suas visitas domiciliares aos pacientes.

Prá tudo tinha uma solução, um lenitivo, em comportamento exalando bondade e competência, o que lhe granjeou a amizade e veneração do povo. Suas receitas surtiam o efeito desejado tanto pelo medicamento aviado quanto pela fé depositada no seu conhecimento. Certa vez, na submersa São José da Barra, mandaram- no chamar às pressas para socorrer um filho de Deus, cujos sinais vitais estavam se extinguindo. Chegou a tempo de vê-lo estertorar- se num aparente derradeiro suspiro e descair o pescoço amolecido, imóvel.

O irmão, conhecido dono de boteco no desembarcadouro da balsa, assistiu a cena desolado e, quando o doutor ali mesmo preencheu o atestado de óbito, finalizando de vez o assunto, tratou imediatamente dos preparativos do velório. E velório na Barra tinha suas peculiaridades! O caixão surgiu, como por encanto, vindo de Passos (ou vocês acham que agente funerário brinca em serviço?!!) e a vítima foi devidamente encaixotada, permanecendo em exposição na sala simples, com os pés unidos pelos dedões, num laço de fita roxa e religiosamente apontados para a porta da rua.

Quatro velas acesas e uma estola preta com um coração vermelho em destaque (símbolo da Congregação da qual participara) o resguardavam de qualquer aproximação funesta de coisa-ruim, rememorando a vida transcorrida dentro dos preceitos cristãos, passaporte seguro de um lugar lá em cima.

Os participantes da vigília defuntória, transcorridos os primeiros instantes de contrição e pesar, saíam à cata dos indefectíveis quitutes e quitandas na cozinha, empurrados goela adentro pelo não m e n o s onipresente”alicore” (mistura de cachaça e açúcar, coloridos por papel de seda que soltava a tinta). O clima pesado ia, aos poucos, se descontraindo, chegando mesmo a formar- se um rodinha de truco no barracão dos fundos, à luz de lamparinas fumegantes.

Tudo dentro dos conformes: as visitas se divertindo e a família velando solenemente o pranteado. Foi quando – surpresa – um “ooohhh!” nervoso e assustado rompe das gargantas dos parentes em volta: o falecido dá uma fungada profunda, fantasmagórica e ergue a cabeça, acordando de profundo estado de catalepsia:

– Uai, gente! Quem morreu?

O irmão acudiu:

– Você, ora.
– Tá doido, mano? Num tá veno qui tô vivo?
– Num tá, não sinhô! Cê tá mortinho da silva! Tá aqui seu testado de obe, sinado pelo dotô Borsari. Qué sabê mais do qui ele? Agora trate de deitá aí de novo e ficá queto pro mode nóis continuá o terço!

E mandou, convicto e peremptório, tocar o velório adiante…