Destaques Opinião

“Suicidas”, de Rafhael Montes

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

17 de setembro de 2020

Há tempos essa obra já povoava minha imaginação. O próprio título é atraente. Títulos são também aspectos muito importantes para despertar o desejo. Neste caso, refere-se a tema do interesse geral, e o suicídio, sem dúvida, possui lugar cativo em nossa ânsia de desvendar tragédias e vidas. O que conteria, pois, um livro que possui, como núcleo, este ato que nos choca a todos? A propósito, estamos no “setembro amarelo”, o mês votado às campanhas de prevenção ao suicídio, cujos índices vêm crescendo nos últimos anos.

Há décadas, li uma obra que contém profundas reflexões sobre os suicidas, “O lobo da estepe”, de Hermann Hesse. Ao abordar o protagonista, Hesse expõe quão específico era seu temperamento, o que o conduzia à predisposição para dar cabo da vida. E de tal maneira, que eu até destacava a lápis as passagens. Meu texto sobre aquela obra também foi publicado aqui na Folha, numa época em que o envio se dava por folhas datilografadas dentro de um envelope. Que bom que mantenho a página da edição. Qualquer dia, o reviso e sinto se vale a pena republicá-lo.

Assim como em “O lobo da estepe”, “Suicidas” não significa nenhum ensaio a respeito desse ato tão bombástico e que sempre há de despertar estudos nos campos da psicanálise e da psiquiatria. “Suicidas” é pura e simplesmente literatura. E como tal, utiliza personagens e respectivo enredo, com base nas múltiplas faces do comportamento humano, para transmitir ao leitor a sua narrativa.

Nunca é demais enfatizar certas características da autêntica literatura: fazer-nos imersos na história e, claro, na construção do texto, em seu estilo, palavras, frases e circunstâncias, com o poder de nos transpor para o lugar das personagens. São puros exercícios de linguagem e imaginação, aspectos essenciais para o ato literário. Pois foi o que, de forma brilhante, conseguiu Raphael Montes, neste longo romance de 430 páginas, mas que nos capta a atenção do início ao fim. Almejamos, ansiosamente, compreender o que se passou, nem que tenhamos que atravessar momentos cruéis e até absurdos.

A leitura direta e de vocabulário fácil, já que repleta de fatos que somente servem para deslindar a catástrofe, auxilia o leitor na entrega ao transcurso. Sob diferentes focos narrativos, o autor empreende um enredo que, a cada instante, só faz despertar a curiosidade, que já começa em razão de um célebre capítulo inicial. Os focos narrativos se distribuem, por um lado, entre oito jovens em idade universitária, cujo relato é feito por um deles, o protagonista, inclusive nas reflexões que realiza a respeito do comportamento de todos, e, por outro, nas investigações por meio da delegada do caso, que convoca as mães dos jovens para compreender o que se passara.

Cada uma das páginas vai revelando uma tensão crescente, que persiste até o fim. São tensões impulsionadas também pelas referidas reflexões do protagonista, que se direcionam às circunstâncias de poder, amor e questionamentos próprios da busca de identidade durante a juventude. Trata-se de pensamentos peculiares que se inserem em meio aos fatos e se tornam aptos a esclarecer a tragédia.

Estamos, afinal, perante a arquitetura de um refinado suspense, que só poderia mesmo conduzir os leitores a um constante desejo de revelações. Justo que tenha recebido vastos elogios da crítica, o que o levou a integrar algumas listas em disputa de reconhecidos prêmios literários. Raphael Montes é um escritor ainda novo. Nascido em 1990, no Rio de Janeiro, possui outros romances com o mesmo sucesso de crítica e público. Atualmente, assina colunas em “O Globo” e “Veja”, nas quais revela sua clareza ao escrever. Escrever bem é escrever simples e claro, características presentes, da mesma forma, em seus textos jornalísticos.

O incrível é que “Suicidas”, seu primeiro livro, foi escrito quando ele tinha somente 19 anos, o que ressalta todo o seu talento e vocação para a literatura. Um adolescente de 19 anos criar tão extraordinária narrativa não é algo nada comum, convenhamos. No desfecho da obra, mais precisamente nas últimas páginas, Raphael Montes deixa explícito, para além da revelação dos fatos e sob a voz do protagonista, alguns pensamentos sobre a entrega absoluta que se exige daqueles que pretendem se tornar escritores.

Estas páginas finais demonstram que foi o que veio a ocorrer com ele próprio. Percebe-se que, aos 19 anos, Raphael fez tudo que pôde pela literatura, por isso não poupou esforços no encalço da imaginação que lhe permitiria o nascer de um livro tão marcante. Surpresa, ousadia e criatividade nos momentos derradeiros. Admirável.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna