Destaques Opinião

Sub valorização do trabalho intelectual

POR GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA

5 de novembro de 2020

“Mesmo desacreditado e ignorado por todos, não posso desistir, pois para mim, vencer é nunca desistir.” – Albert Einstein. Vou lançar mão de uma pequena alegoria que encontrei no site:

https://pensamentoslucena.blogs.sapo.pt/82990.html para assim fazer minhas considerações acerca da valorização do trabalho intelectual:

“Era uma vez um especialista que foi chamado para solucionar um problema com um computador de grande porte e altamente complexo… Um computador caríssimo. Sentado em frente ao monitor, pressionou algumas teclas, balançou a cabeça, murmurou algo para si mesmo e desligou o computador. Tirou uma chave de fenda de seu bolso e deu volta e meia em um minúsculo parafuso. Então, ligou o computador e verificou que tudo estava funcionando perfeitamente. O presidente da empresa se mostrou surpreendido e ofereceu pagar a conta no mesmo instante:

Quanto lhe devo? – perguntou. R$ 1 mil, por favor. R$ 1 mil? Por alguns minutos de trabalho? Por apertar um parafuso? Eu sei que meu computador é muito caro, mas R$ 1 mil é um valor absurdo! Pagarei somente se receber uma nota fiscal com todos os detalhes que justifique tal valor. O especialista balançou a cabeça e saiu. Na manhã seguinte, o presidente recebeu a nota fiscal, leu com cuidado, balançou a cabeça e saiu para pagá-la no mesmo instante sem reclamar. A nota fiscal dizia:

Serviços prestados:

Apertar um parafuso……………….. R$ 1,00

Saber qual parafuso apertar………R$ 999,00”.

Assim é o que acontece na sociedade de hoje. Pessoas cuja contribuição muitas vezes invisível ao seu ambiente profissional e que são imprescindíveis para organizar, controlar e obter os resultados esperados, nem sempre conseguem ter a justa valorização de sua obra, de seu trabalho, tanto no que se refere á remuneração por seu trabalho quanto pelo reconhecimento de sua importância no resultado.

As questões operacionais representam o parafuso sendo apertado, mas nunca ninguém imaginava que se forem inadvertidamente apertados diversos parafusos inadvertidamente, o problema poderia se agravar ai invés de ser solucionado. O grande valor de uma vitória, por exemplo no automobilismo é inteiramente creditado ao magnífico piloto que realmente deve merecer o reconhecimento. Mas poucos valorizam os técnicos que projetam anos a fio para que a máquina oferecida seja a cada dia melhor.

Como engenheiro eletricista, senti na pele a desvalorização do trabalho na área. É comum construções imponentes e bonitas serem altamente deficientes n em suas instalações elétricas, iluminação e localização de pontos de energia entre outros. Certa vez fui chamado a analisar o problema de uma grande indústria de pagar severas multas em razão do fator de potência inadequado que dá o direto à concessionaria de praticá-las.

Fiz um ante projeto e verifiquei a solução correta necessitaria de um investimento que representaria a economia de 5 meses que a empresa teria. Quando discutimos o valor que seriam meus honorários, indiquei que seria o equivalente a 2 meses da economia o que foi prontamente rechaçado pelo diretor da indústria como muito caro. Recentemente, após décadas, visitei a mesma empresa e o problema ainda persiste: pagam a multa, mas foram incapazes de remunerar o profissional que tem o conhecimento para resolver o problema dando-lhes economia.

Outro grande erro e que a humanidade muitas vezes não conseguiu perceber, é que a automação, a excelência tecnológica jamais substituirá o trabalho intelectual do homem. A ficção dos robôs substituindo todos será sempre uma história contada em obras de literatura e filmes hollywoodianos. Mas resta um consolo a quem trabalha com o conhecimento, com a estratégia e com o pensamento: o encanto de perceber que exerceu sua função, que sonhou, que construiu, que o conforto íntimo pode ser suficiente para recompensar a injustiça que mereceu e que o verbo desistir não existe na alma de quem se alimenta do conhecimento e dos ideais.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna