Destaques Opinião

Sobre mitos, política e crises

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

17 de outubro de 2020

Mito fazia parte das narrativas muito utilizadas pelos povos gregos antigos para explicar e ao mesmo tempo misturar fatos reais com fenômenos da natureza. Foram as primeiras formas de entender as origens do mundo e dos seres humanos, que não eram compreendidos por eles. Daí porque os mitos se utilizam de muita simbologia, personagens sobrenaturais, deuses e heróis. Todos estes componentes são misturados a fatos reais, características humanas e pessoas que realmente existiram. Atualmente é assim também, basta observar com acuidade os acontecimentos.

Hoje em dia existe uma banalização do termo mito que é diferente de lenda, porque uma lenda pode ser uma pessoa real que concretizou feitos fantásticos tais como Pelé, Maradona, Elvis Presley, etc. Um mito é uma personagem criada ou inventada, como os deuses gregos Zeus, Hércules, Hidra, Afrodite, Fênix, etc. No Brasil a nossa mitologia é de origem indígena, é bem variada. Provavelmente você já ouviu ou leu contos sobre a Iara, saci pererê, caipora, curupira, boto cor de rosa, negrinho do pastoreiro, cuca, boitatá, vitória régia, cumadre fulozinha, lobisomem, a mula sem cabeça.

E agora tem também o Jair Bolsonaro. Não tenho registro de quem incorporou o Bolsonaro na lista da mitologia brasileira, mas tudo indica que foi o filho 02 dele, também conhecido por Carluxo, que foi o principal marqueteiro via fake news da campanha eleitoral do pai em 2018. Bom, mas isto não tem a menor relevância, aliás, nunca teve, até porque a pecha de mito pegou e o Bolsonaro o incorporou se sentindo realmente um ser acima dos demais pobres mortais. E assim é visto pelos seus fiéis seguidores.

Da mitologia para o mundo real da política brasileira a distância é tênue. Enfim, Bolsonaro perto de completar o segundo ano de mandato resolveu governar. Isto é bom ou ruim? Como diziam José Sarney e o Collor de Mello “o futuro a Deus pertence”! Não podemos nos esquecer de que os dois, Sarney e Collor são mitômanos, assim como a maioria dos políticos brasileiros. Mitômano é o adjetivo que expressa mitomania, hábito patológico de mentir, mitomaníaco que mente em excesso.

É também da natureza do mitômano acreditar piamente na mentira que espalha. Ou seja, não existe nenhuma tese científica que comprove que a hidroxicloroquina cura a Covid/19, aliás, até pelo contrário, está provado que não tem eficácia, mas para um mitômano isto é balela. Enfim, o Bolsonaro resolveu assumir o governo! Huê, mas ele não assumiu a presidência em 2019? Óbvio que assumiu, colocou até a faixa presidencial e até dois meses atrás só governou, isto é, só se dirigiu aos bolsonaristas de carteirinha, a exemplo daqueles que são usados como claques na porta do palácio do Planalto, para aplaudir suas bravatas contra tudo e todos que o Bolsonaro decide que deve ser insultados e vilipendiados como inimigos.

Nestes quase dois anos de poder, Jair Bolsonaro usou a velha tática de criar inimigos para detonar e assim insuflou os seus seguidores em várias manifestações agressivas contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Nas três ou quatro últimas semanas ele mudou, ainda que não radicalmente, de tática ou de estratégia. Passou de agressor a um adulador carinhoso ao abraçar o ex presidente ministro do STF, o terrível ex petista Dias Toffoli, depois foi visitar o atual ministro Luís Fux e até marcou almoço com o presidente da Câmara o deputado Rodrigo Maia (Dem-RJ). Fatos este que tem provocado um nó na cabeça dos fieis bolsonaristas, uma vez que pouco tempo atrás eram insuflados a odiar tais instituições e seus ocupantes. Pois é, a “nova política” bolsonarista realmente começou ao buscar apoio no Centrão.

E para demonstrar suas intenções de mudança, mais uma vez Bolsonaro conseguiu desagradar aos seus radicais seguidores, com a indicação de um “terrivelmente” católico, o desembargador Kassio Nunes para ocupar a vaga no STF, deixada pelo Celso de Melo. Agora só resta passar o que resta da pandemia para o país retornar ao seu tradicional normal, ou seja, o povo ficar perguntando quando a crise vai passar? As nossas crises acontecem em séries. Nem bem termina uma série já começa a outra. E não adianta desligar a tevê ou mudar de canal, as séries continuarão com as mesmas sérias crises. Mas, que fique claro, a crise atinge somente o povão. Sempre!

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História