Destaques Opinião

Sobre literatura e Sérgio Sant’Anna

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

20 de agosto de 2020

O avanço dos anos e, assim, das experiências múltiplas tendem a nos fazer valorizar as coisas de que de que realmente gostamos e cuja importância vai adquirindo sempre maior intensidade. Difícil precisar a ordem das preferências, mas a literatura integra, cada vez mais, o núcleo das que me são imprescindíveis. A literatura, hoje, mais do que nunca, me representa o movimento mental e, sobretudo, linguístico de que necessito para o dia a dia, tanto quanto o seu descanso, que reside no próprio movimento físico.

Nesses tempos em que fomos atingidos pela maior crise de nossa história, a literatura veio em meu socorro como uma forma de imersão num mundo mais profundo e de marcas eternas, ao contrário da algaravia (tagarelice) de vozes e polêmicas que se alteram ao sabor dos ventos e das nuvens políticas. A literatura, arte da escrita, da criação, da liberdade e da reflexão, possui a característica da permanência num mundo repleto de fugacidades. Em suma, a literatura é atemporal e cultura na mais alta acepção.

Foi justo por isso que me vali de uma obra de Sérgio Sant’Anna, cujo exemplar pedi que me trouxesse da editora o Antônio, da “Mar de Minas”, que, mesmo perante todas as dificuldades, consegue manter uma livraria em Passos. Costumo dizer que o Antônio é um desses persistentes heróis do cotidiano que temos aos montes por aí. Eu conhecia algo sobre Sérgio Sant’Anna ao ler elogiosas páginas jornalísticas a seu respeito, mas decidi me entregar a um de seus livros, por ironia do destino, ao saber que a Covid 19 o contabilizara entre os milhares de suas vítimas alguns meses atrás. Sim, a Covid trouxe suas baixas também no mundo da literatura.

Era, pois, a hora de pagar a dívida com Sérgio Sant’Anna, não sem antes trocar umas ideias sobre ele com meu amigo e escritor Alexandre Brandão, o Xandão, que o leu e também mora no Rio. Sérgio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1941 e, anos depois, se mudou para Belo Horizonte a fim de cursar Direito na Universidade Federal de Minas Gerais, onde se formou em 1966. No ano seguinte, debandou-se para Paris, onde se pós-graduou na mesma área das ciências jurídicas pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris. O vírus o levou em 10 de maio recente, aos 78 anos.

Sua obra é vasta e o reconhecimento que se lhe devota no meio literário é grande. Escreveu contos, romances, novelas, poesia e peças de teatro. Foi traduzido para várias línguas e recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, fatos por si próprios reveladores de sua alta qualidade. Pude constatar ainda que, resguardadas as imensuráveis proporções de talento e conhecimento entre mim e ele, temos em comum o curso de Direito e a paixão pela escrita em jornais, pois Sérgio as realizou em grandes órgãos da imprensa brasileira, durante anos, nos cadernos literários.

Meu experimento se deu em “Um crime delicado”, que talvez transite entre novela e romance. As diferenças são relativamente sutis, já que a novela apresenta estrutura narrativa bem mais enxuta, o que é o caso desta obra em suas 132 páginas apenas. Creio que o transcurso do enredo possa ser dividido em um começo muito intrigante, por seus mistérios implícitos; um meio bastante difícil e pouco acessível, por envolver minúcias da crítica teatral e artística, e um final espetacular, que revela toda a inteligência e criatividade da proposta do autor.

O próprio título o diz: há destaque para um crime, mas este crime, por suas características e, caso tivesse mesmo ocorrido, só poderia mesmo ser bastante delicado. Inusitado, incomum, eu acrescentaria. Incomum porque o que importa mesmo é que estamos diante da voz do personagem e protagonista, o renomado crítico de teatro Antônio Martins, que se envolve com uma mulher chamada Inês logo no início. Inês apresentava um problema em uma de suas pernas, era manca, porém este detalhe em nada prejudica o seu encanto. Desde o momento em que se encontram casualmente, Antônio a descreve sob aspectos sempre atrativos.

O que importa, em essência, é o desvendar dos meandros entre o que significa para o protagonista Antônio Martins ser um crítico, no caso, de teatro, e os níveis de seus envolvimentos profissionais e pessoais com as pessoas que transitam neste ambiente tão complexo e cheio de vaidades, com o potencial de conduzir até a níveis patológicos aqueles que o integram. Algo como um vale tudo em razão da vaidade. O tal crime serve, pois, apenas como pano de fundo para esmiuçar essas relações, ou seja, os conflitos entre o crítico de ofício, que precisa ser bastante racional em suas análises, e o próprio homem, este em suas mais amplas e profundas emoções, que podem também levá-lo da intelectualidade intensa às fragilidades comuns.

Desta forma, Antônio Martins, o crítico reconhecido nos círculos teatrais, intelectuais e artísticos, mas também o homem que possui seu lado vulnerável, se apaixona perdidamente por Inês e, em virtude dessa paixão, acaba conduzido por ela a uma trama sórdida e louca, que deságua nas barras da Justiça e em escândalo na imprensa.
Após as árduas páginas do meio, o final se reveste de extraordinária criatividade, de modo a manter a atenção do leitor até as últimas linhas. Além do deslinde dos mistérios que resultaram na denúncia de Antônio como réu, o autor nos brinda com excepcionais análises sobre as linguagens jurídicas e literárias, tudo com base no que vivera aquele crítico teatral com Inês.

Onde estaria a verdade, se é que existe alguma, é o que resta indagar. Houve crime? Não houve? Quais os pontos de vista? Questionamentos dessa natureza são típicos das genuínas criações literárias e dos grandes escritores. Esta obra os traz. Eu diria mesmo que as páginas derradeiras me empolgaram justo por penetrar no universo das diferentes linguagens e nos comportamentos que tais diversidades acarretam. Prazer estético. Vale encerrar com o período abaixo, quando Antônio, sintetiza os fatos que lhe ocorreram:

Na verdade, lá como aqui – na obra de Brancatti (um quadro) e neste relato (o livro) – encontra-se o absurdo, a loucura da arte, essa tentativa ansiosa, desesperada e, às vezes, vã, que nos alucina de, à parte toda a vaidade, registrarmos, no breve tempo em que estamos na vida os momentos em que realmente estivemos vivos e merecem ser perpetuados.” (pág. 132)

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna