Destaques Opinião

Sobre literatura e Carlos Fuentes

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

6 de agosto de 2020

O escritor mexicano Carlos Fuentes, nascido em 11 de novembro de 1928 e falecido em 15 de maio de 2012, é considerado um dos pilares da literatura latino-americana. Formado em Direito pela Universidade Autônoma do México, suas obras o guindaram à condição de uma das principais referências das letras hispânicas contemporâneas, segundo a crítica.

Além de romances, Fuentes escreveu contos, ensaios, peças teatrais e roteiros cinematográficos. Considerado também um marco da cultura mexicana, sempre demonstrou forte compromisso político e social, o que o levou a lecionar em universidades de prestígio e a auferir importantes prêmios na área das letras.

Pois bem, o transcorrer dos anos na abordagem de obras literárias tem-me feito refletir cada vez mais quanto a meus propósitos de escrever sobre livros e autores. Significa buscar uma forma de tornar sempre mais acessível aos leitores o que penso.

Em conversas com alguns amigos que amam a literatura, aqui no sentido mais estrito de grandes autores de ficção, entre clássicos e revelações, muitas vezes concluímos que esse terreno, de fato, é menos amplo, caso comparado, por exemplo, à grande aceitação das obras de autoajuda, que costumam abranger um público muito maior.

Que bom seria se a literatura viesse a englobar mais pessoas e que pudéssemos compreender melhor sua importância na evolução do pensamento, da capacidade linguística e da cultura. Que bom seria se tivéssemos mais público em Passos para falarmos sobre Dostoiévski, Machado, Eça, Garcia Márquez, Saramago, Cervantes, Lobo Antunes, Graciliano, Kafka, Nabokov, Guimarães, Vargas Llosa, Patrícia Melo, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e tantos outros, apenas para ficarmos no terreno da prosa.

Eis, então, o objetivo que me fustiga: tornar ao máximo evidente o meu louvor por esta literatura que, de fato, é a verdadeira, a de recriar a realidade por meio de personagens e enredos. Expandi-la, enfim, no âmbito de minhas possibilidades.

Há dez anos, escrevi aqui um texto chamado ‘Na esteira de Carlos Fuentes’, que, quando fiz a revisão para publicar meu livro, preferi deixar de fora, não sei por que motivos. Em tal texto, eu abordava aquele que fora um de seus derradeiros livros, “A vontade e a fortuna”.

Quando, em 2010, entrei em uma livraria fora de Passos e li algumas de suas páginas, fiquei logo impressionado com seu prelúdio, ‘Cabeça cortada’. Neste início, Josué Nadal, o protagonista, jaz em uma região litorânea do México, mas relata o estado em que se encontrava logo após ter sido decapitado. Narrar a própria morte ou o próprio estado momentos antes e depois de consumado o fim requer talento e criatividade.

Em “A Vontade e a Fortuna”, Fuentes usa, a princípio, os recursos da narrativa em primeira pessoa na voz de Josué, que descreve os detalhes da inusitada situação de uma cabeça sem corpo e nos conduz, capítulos após, ao repasse de sua história.

Agora, dez anos depois, resolvo me arriscar novamente em Carlos Fuentes em um de seus maiores clássicos, “A morte de Artemio Cruz”, publicado em 1962. Desta vez, não fui a nenhuma livraria, mas aproveitei uma daquelas obras de coleções de capa dura que eu comprava sempre aos domingos nas bancas de jornal. Todas de grandes nomes.

Assim como “A vontade e a fortuna”, “A morte de Artemio Cruz” não é fácil de ler, justo por uma característica que Fuentes costuma usar em ambas e, provável, em outras, ou seja, a polifonia de vozes. Muitos autores a utilizam.

Em suma, polifonia de vozes ou polifonia narrativa representa a variação de narradores. Neste romance, a primeira pessoa, Artemio, fala de si mesmo; a terceira, um narrador externo, fala sobre a trajetória dele, Artemio, e até uma rara segunda acontece, momento em que Artemio dialoga consigo mesmo. Diga-se que o enredo também varia na intercalação de tempos presentes, passados e futuros, cada qual com sua voz narrativa.

Nos tempos futuros, Artemio, aos 71 anos e acometido de uma grave doença, imagina outros planos de existência: ’…ante sua convulsão interna, um alfinete na memória, outro no porvir…liberto da fatalidade de um nascimento e de um lugar, escravizado a outro destino, o novo, o desconhecido, o que se esconde atrás da serra iluminada pelas estrelas…” (pág. 233).

m todo caso, ao longo de suas 238 páginas, o protagonista, sob as diferentes vozes arquitetadas por Carlos Fuentes, nos expõe, à beira do fim, a sua história, que vai da infância aos episódios de suas lutas revolucionárias, dores, derrotas, vitórias, amores, frustrações e poder político, num lapso de 1889 a 1960, nascimento e morte.

Assim, por meio da saga de Cruz, Fuentes exibe um panorama histórico e cultural do México, com seus índios, etnias, relevo, os anos de revolução, com a luta pela terra, a violência das expropriações e a corrupção no entorno dos poderes que já avançava pelo século XX.

Uma vez ultrapassadas as dificuldades dos diferentes momentos de tempo e espaço que circundam a vida de Artemio Cruz, o leitor acaba fisgado pelo difícil estilo da obra e pelas tensões narrativas de cada um dos capítulos, que não possuem nomes, porém datas. Fuentes consegue nos aprisionar nos labirintos da existência de Artemio.

E uma vez refém, o leitor quer saber mais sobre o protagonista, quer penetrar mais nos detalhes de sua origem pobre, batalhas, amantes do passado e, anos depois, sua carreira política e empresarial no México, inclusive as negociatas escusas entre as esferas pública e privada. Nessa trilha, almejamos conhecer suas complexas relações familiares, sobretudo com o filho Lorenzo, que é levado aos campos de batalha por ele, Artemio, já em circunstâncias de guerra, com fim trágico.
Vamos além. Queremos compreender e degustar as tensões, na expectativa de algum desfecho, na imersão das palavras que transmitem a força, o sangue, o sexo, a glória, o poder, o sofrimento e a redenção consumada na sua morte.

Como literatura genuína que é, não temos respostas definitivas para nenhum dilema. Tão somente penetramos em mais uma viagem nos meandros da existência humana e ao molde do obsessivo impulso narrativo que acomete grandes escritores como Carlos Fuentes.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.