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Sobre as desigualdades sociais no Brasil

25 de julho de 2020

Para Henrique Bredda, gestor da Alaska, uma das maiores administradoras de investimento do país, “a discussão a longo prazo para o Brasil não deve ser a desigualdade social mas como gerar riqueza”. Jornal Folha de SP de 18/07/2020. Gente rica é outra coisa, isto é, tem sempre uma boa receita de como ficar mais rico. Vamos ver se esta conversa de que gerar riqueza simplesmente foi ou tem sido uma boa para o povo brasileiro.

Desde que os portugueses colocaram os pés no que eles chamaram de Ilha de Vera Cruz, hoje Brasil, que gerar riquezas sempre foi vantajoso para poucos. Pouquíssimos! Não vou historiar aqui este infame fenômeno social brasileiro desde as suas origens, basta apenas lembrar que durante os primeiros quatro séculos, em 388 anos, os trabalhadores que produziram riquezas neste país eram escravizados. Este foi o primeiro projeto de criação de riqueza no Brasil, a economia centrada no tripé latifúndio, monocultura e escravidão. Portanto o primeiro modelo de gerar riqueza para poucos e pobreza para a esmagadora maioria da população.

E desde então, por mais que o Brasil foi progredindo na economia mesmo depois da introdução da industrialização, o modelo perverso da exploração do trabalhador mudou muito pouco e não foi para o melhor esperado. Ou seja, abolida a escravidão, começou outro ciclo de exploração do trabalhador livre através de uma política salarial do ter sempre o mínimo para a sobrevivência.

E nesta “nova” ordem econômica gerou-se no país o modelo mais perverso ainda de concentração de riqueza ou de renda do mundo, em benefício de restrita minoria da população. Nada mais que 2% da população concentram em suas mãos mais de 60% da renda nacional. Algo em torno de 70% dos trabalhadores brasileiros têm renda salarial de até dois salários mínimos mensais. E aí vem o senhor Bredda e diz mais esta pérola de cunho social, do alto de sua grandeza empresarial:

Eu fico com um pé atrás quando escuto a palavra desigualdade. Eu não me importo se a camada mais sofrida do Brasil melhorar quatro vezes de qualidade de vida e a família Moreira Salles subir dez vezes de qualidade de vida. A desigualdade aumenta, mas você melhora a qualidade de vida da base. A discussão não deveria ser desigualdade, deveria ser criação de riqueza”.

Como é fácil ficar com um pé atrás na questão da desigualdade. Principalmente para quem nasceu num ambiente com rede de esgoto, teve nutrição necessária para se desenvolver, frequentar colégios decentes e outras tantas dignidades que transformam pessoas em plenos cidadãos. Até porque o tal discurso parte sempre do pressuposto de que existe igualdade de oportunidades para todos e só não aproveita quem não quer. Daí é que vem o discurso da meritocracia liberal que também é lindo, mas para uma sociedade de tantas desigualdades e que não oferece a todos as condições de competição, não passa de engodo e conversa fiada para tentar escamotear as injustiças sociais.

O problema da desigualdade é real e, no Brasil, chega a ser escancarada. Não há lugar para eufemismos do tipo “melhorar a qualidade de vida da base”. A base da pirâmide social brasileira apresenta disparates tão profundos, pois evidencia o quanto ela é expropriada dos direitos mais comezinhos. Portanto, tal tese antes de ser celebrada deve ser veementemente combatida. Já atingimos os parâmetros da pobreza extrema e as suas condicionantes que não permitem que as pessoas rompam o ciclo da pobreza. Por estas e por outras que os discursos neoliberais como os do senhor Bredda não procede. E é desumano por princípios. Temos que falar sim sobre desigualdades enquanto elas persistirem no país.

Discurso como o do senhor Bredda vem para reforçar o discurso bolsonaroguedista cuja política econômica liberal, na verdade um arremedo de política econômica, cuja meta foi aparelhar um sistema de garantia de mais privilégios aos já privilegiados. Pois quem está ganhando com esta política econômica são os banqueiros, os grandes financistas do mercado de capitais, investidores e rentistas.

E não há no horizonte a mínima expectativa de que a camada sofrida vai melhorar quatro vezes de vida, enquanto os ricos melhoram dez, cem ou mil vezes mais. Enfim, mutatis mutandis, as desigualdades sociais gritantes continuam no país da 7ª ou 8ª maior economia do mundo e infelizmente, coube então a pandemia em curso explicitá-las arregaladamente aos olhos dos que não quiseram ou não querem enxergá-las.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História