Destaques Opinião

“Só a terra permanece”

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

24 de agosto de 2020

Mexendo e remexendo estantes da biblioteca – longe de ser organizada – esbarro-me num livro fascinante. Aliás, mais que isso: provocador. Obra ficcional, portanto nada a ver com a realidade, o tema sugere possibilidade do que pode um dia acontecer, a começar pelo título: “Só a Terra Permanece” (Edições GRD, São Paulo, 1983). Inicia-se com um questionamento sombrio: “a civilização, algum dia, poderá morrer?”

George R. Stewa1rt, o autor, sugere que “não é o complexo bélico que põe fim à humanidade, mas, tão somente um vírus”. Isso mesmo. Um vírus mutante que destrói quase todos os seres humanos. E aqueles que sobram, partem para uma nova etapa de vida civilizatória, ou seja, deixa para trás um velho mundo e põe-se a buscar novos tempos, belos dias – paráfrase à Roberto Carlos – sem as marcas e mazelas do passado, como o ódio, os crimes, os horrores que não valem e jamais valeram a pena viver. A luta constante entre o bem e o mal que sempre perseguiram o homem na face da terra.

Percebe-se, de imediato, a criação literária vem ao encontro do que estamos passando e atravessando com o Coronavírus, através da doença infecciosa da Covid-19, que assola o mundo de maneira perversa. Está certo que o livro, simbolicamente, retrata o fim da civilização, deixando poucos na face da terra, arrasando outros seres que não o homem. No que eu, advogado, chamaria de inciso I num manual de direito, nada a ver, temos que, no ‘mundo sem fim’, existe uma citação datada de 22 de dezembro de 1947, portanto pouco mais de três anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, bem distante dos tempos atuais. No crédito, a assinatura de W. M. Stanley, em Chemical and Engineering News, com os dizeres: “Se um tipo de vírus fatal surgisse de repente por mutação… ele poderia, devido aos rápidos meios de transporte de que dispomos hoje, ser levado aos confins do mundo e causar a morte de milhões de pessoas”.

O importante na história, narrada por George Rippey Stewart, no romper do gênero ficção científica, é que foi escrita em 1949, e marcou a trajetória do autor, como sendo a mais importante de suas obras. E veio a influenciar outros escritores, como Stephen King, hoje fenômeno de vendas, tendo se notabilizado com A Dança da Morte, saga apocalíptica, clássico da literatura contemporânea, elo na temática de Stewart.

Em A Dança da Morte, por exemplo, Stephen King expõe de modo eloquente sua literatura voltada igualmente para um vírus, liberado após um erro de computação no Departamento de Defesa, o que ocasiona um milhão de contatos, gera uma cadeia de mortes e culmina com o fim do mundo. Logo após, dá-se lugar a um ambiente inóspito, estranho, seco, cujo enredo versa sobre o fim da civilização, como no caso de Stewart, a eterna batalha entre o bem e o mal – o início da catástrofe.

No decorrer da trama, sobreviventes em pânico fazem escolhas, cada qual escolhendo seus lados, ou são escolhidos. Enfim, uma narrativa despachada, ágil, muitos os personagens, conferindo o inevitável: a dança da morte. Não tão diferente do que trata os clássicos da literatura contemporânea do gênero ficcional, e se agrega à atual conjuntura, incluindo, em termos, a tragédia do Coronavírus, a terrível Covid-19. Para os simpatizantes da ficção científica, uma enormidade, o gênero – também conhecido por sci-fi (Science Fiction) – surgiu no século XIX, com o aparecimento de A Máquina do Tempo (1895), do britânico H. G. Wells. Mais pelo avanço da tecnologia e da ciência (astronomia, física, química e biologia).

Entretanto, rende-se tributo ao precursor da moderna literatura de ficção científica e seus deliciosos romances, o escritor Júlio Verne, ele nascido francês, em Nantes. Deste autor extraímos, em suma, o sumo de exuberante riqueza profética: “O que um homem pode imaginar outros homens poderão realizar”. Dele isso.

Para o bem de outra realidade, a pandemia que assola o mundo, por ironia da sorte, quiçá pela ajuda de astros e estrelas, sob o manto do firmamento e de tudo que da natureza emana, os humanos hão de sofrer baixas, passarão por sofrimento, todavia o sentido da palavra há de permanecer conforme as escrituras, como consta do livro Só a Terra Permanece, do poder criador do estadunidense George R. Stewart: “Os homens vêm e vão, só a terra permanece” – Eclesiastes 1:4. No prenúncio de boas-novas, como nos meios editoriais livreiros, quando um livro está prestes acontecer, vir a lume, ou, perto de dar à luz, vacinas contra o mal da pandemia ‘estão no prelo’, na iminência de acontecer, para a alegria e conforto de toda a humanidade.

Assim sendo – previsões e profecias aviadas ou não – louvadas e abençoadas [por seres] venham. No conceito viagem no tempo, que o prezado leitor acione a cadeira, aperte o botão e voe, são e salvo, para onde o espirito liberto o permitir, com as honras e graças derivadas e concedidas do alto. E seja feliz!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna