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Situação de Bolsonaro

29 de junho de 2020

O brasileiro que se preze não torce para o Brasil dar errado. De jeito algum. Estamos vivendo sob o mesmo firmamento existencial, irmanados em função de um baita problema nunca antes visto na história deste país – a Pandemia de Coronavírus (Covid-19).

Peste que, de forma trágica e medonha, vem ceifando vidas direta e indiretamente. No tabuleiro da sorte e do palpite – cálculos me fazem projetar números tão frios quanto corpo “senz’anima”, porquanto acredito, daqui a quatro meses, teremos contabilizado mais de 200 mil mortes no Brasil por Covid. Timidamente, especialistas falam em pouco mais de 160 mil.

Em sendo assim, não vejo como alguém de bom senso enfileirar-se na torcida do quanto pior melhor. Para o mal que se difundem progressão geométrica, o pior está na colateralidade. Nos efeitos que permeiam os ares virais de toda uma gente que sofre e tende a sofrer muito mais com o caos político, econômico, social etc. Na área de insensatas ideologias de botequim, ainda se ouve que a doença infecciosa é invenção dos chineses para dominar o mundo.

Na filosofia pés no chão, há de se perguntar: por acaso temos o melhor governante, o sonho dourado de todo aquele que precisa continuar acreditando que estamos vivendo o melhor dos mundos, e pela força da fé e prática da justiça, estamos no rumo certo? Absolutamente, não. Nem de longe.

A autoridade máxima do poder executivo só abre a boca para falar o que não deve. Age como se estivesse brincando de pique. E o calamitoso: carrega consigo gente que nele acredita e vê a caricata de um animal inofensivo, que não mete medo em ninguém, não oferece perigo, no máximo trava queda de braço consigo próprio – já que nem sombra de oposição lhe faz frente. Enfim, seu mais forte oponente é a ideologia centrada nas maluquices de Olavo de Carvalho, na tradução, um despropósito na insanidade de ideias.

Aí vem o cidadão e diz. Mas queiram ou não, gostem ou não – tenham nele votado ou não – é o presidente de todos os brasileiros. Assim que se toca, assim se deve dançar. Quanto a isso é inegável. Bolsonaro foi eleito pelas vias diretas da democracia, embora nem de longe saiba o que é isso, mesmo porque não vive sob os seus ditames.

Mas como dançar num arraial cujo presidente está mais para brincadeira de mau gosto do que para um estilo diferente de governar e fazer política? É nisso que se pega. Por exemplo, com a prisão de Fabrício Queiroz – este até então não passava de um arremedo na história da política brasileira – por incrível que pareça, podemos dar ao personagem o devido valor. Ainda que mero peão de troça, pode ser de alguma valia.

Mas como assim? Fácil de entender. A justiça brasileira vai descobrir tramas praticadas a partir de 6 de dezembro de 2018, data em que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras divulgou relatório apontando movimentações atípicas no valor de R$1.236.838,00 entre janeiro de 2016 a janeiro de 2017, em uma conta bancária da titularidade do próprio Fabrício Queiroz.

Policial militar aposentado, ex-assessor parlamentar do então deputado estadual Flavio Bolsonaro, hoje Senador pelo estado do Rio – na escala de valor nenhum – o “zero um” da família do presidente Bolsonaro. Entre tantas e diversificadas mexidas no campo das irregularidades, suspeito de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro, em novembro de 2018, demonstradas e provadas ligações estreitas com a milícia carioca, Queiroz exercia funções de motorista e segurança de Flávio e tinha um papel importante não só na vida de Flávio como também na família Bolsonaro.

Em síntese é isso. A prisão de Fabrício Queiroz vem colocar uma pá de cal numa questão até então levada a sério por alguns que é a possibilidade de um golpe militar por parte do governo Bolsonaro, notadamente pelos militares que o cercam, o que, mais do que nunca, fica mais distante quanto impraticável. E sabem por quê? Simples. As Forças Armadas têm mais o que fazer. No campo da hierarquia jamais vão se mancomunar com bandidos de quinta categoria, como Fabrício Queiroz, milicianos do Rio e um advogado da categoria de um Frederick Wassef – tendo esse atuado em defesa do presidente Jair Bolsonaro no caso Adélio Bispo e de Flávio Bolsonaro no esquema das “rachadinhas”.

Então acham que os militares vão se misturar com essa gentalha e estragar sua biografia, tão valorosamente conquistada ao longo de grandes esforços, ainda mais considerando a derrocada do Golpe de 64? A resposta é óbvia: não. Aos idiotas – em pequeno número – mas existem – os louros virão em forma de coroas de espinhos. E os valores históricos irão cobrar tão caro como dois e dois são quatro. E no jogo do xadrez se aprende a ganhar e a perder. Alguém cuidou de dizer sobre isso: “é importante aprender que, mesmo o menor e mais fraco peão tem seu valor, apesar de não parecer”. Qualquer semelhança com Fabrício Queiroz não é mera coincidência.

Quanto ao xeque-mate, não se sabe para quando e se ocorrerá. Na inclemência atmosférica do tempo, nuvens tempestuosas apresentam contornos de assustadoras imagens nos céus do Brasil. Cúmulo-nimbos? E vêm revelar a força da natureza. E a esta se deve tributar atenção, já que no campo magnético de suas leis, por tipificação análoga, demonstram que não se deve brigar com a democracia popular e tampouco com as sagradas instituições da República.

Mesmo porque, mais cedo do que se pensa, a verdade se põe no seu devido lugar e as tempestades passam. No cenário da República anda acontecendo muita coisa estranha. E entre inexplicáveis coincidências– ponham quantidade e intensidade nisso – muitos dos reveses que afetam diretamente o povo brasileiro ocorrem por obra e acaso do próprio chefe da Nação, Senhor Jair Messias Bolsonaro.

Ainda que tente camuflar, mudar de táticas, como o de aproximação com o Supremo Tribunal Federal (STF) e fazer salamaleques com as instituições democráticas, fazer-se de bonzinho no campo sanitário, suas atitudes acorrem na frequência e inapelavelmente para o campo da confusão.

A questão agora se prende a outro desdobramento: a senhora Fabrício Queiroz. Onde estará? Ao que tudo indica, com poder de fogo para dirimir dúvidas de uma história que tem muito de bombástico. Teve mandado de prisão expedido pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do RJ, considerando que ambos serviram no gabinete de Flávio Bolsonaro entre 2007 e 2017 em escabrosos esquemas.

O Ministério Público do Rio afirma ter reunido provas de que Márcia Oliveira de Aguiar participou do esquema das “rachadinhas” na Assembleia e ligações com transações em espécie – leia-se dinheiro vivo.

O importante nisso tudo é que existem muito mais caroços do que carne debaixo de um angu para lá de incômodo e indigesto. E nos andares do imponderável, vão incomodar e muito os pés já doloridos, desgastados, não menos claudicantes, do senhor presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Em razão de tudo e de todos, se insiste: onde andará Márcia Oliveira de Aguiar?

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.