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Ser professora

27 de julho de 2020

Escolhi este título por saber que o número de professoras, salvo engano, é maior que o número de homens no professorado. Principalmente, no ensino fundamental, nos primeiros anos de alfabetização, que já nem sei quais são as nomenclaturas atuais, de tanto que já mudaram e inventaram nos últimos anos. Enfim, tecnocratas existem em todos os meios e até no ensino.

O que me importa agora, é escrever sobre a importância das professoras na alfabetização das crianças. Elas são as primeiras a ter contato com as crianças em nível de escolaridade e é com elas que as crianças começam a aprender as primeiras letras do alfabeto, as palavras, a conhecer os números e as primeiras operações aritméticas. Começam ainda a ter consciência ambiental, a se sentir no meio de uma sociedade, logo depois da família, que, a princípio, são os seus colegas de classe, de escola, professoras, enfim, o ambiente escolar, sendo a base de tudo que virá pela frente.

Não se trata de ensinar as letras, palavras e números apenas, é muito mais que isso, significa incluir a criança num contexto que definirá o seu futuro depois. Nem todas as crianças agem ou são exatamente iguais. A professora precisa ter uma boa didática e um bom conhecimento da psicologia infantil. Não é fácil não, o trabalho da professora alfabetizadora! Ela representa a primeira semente a ser plantada na formação escolar da criança, que será o pilar para o futuro. Não fossem as professoras primárias, como teríamos jovens e adultos letrados, estudados, formados em universidades nos vários ramos do conhecimento humano? É uma pergunta que sempre terá uma única resposta: tudo começou com elas.

Desejando homenagear todas elas, escolhi duas professoras que militaram em épocas diferentes, com extrema dedicação e capricho. A primeira (sou até suspeito), foi professora primária no início da carreira, era normalista formada. Concluída a Faculdade de Letras e depois Pedagogia, ensinou as disciplinas de Língua Portuguesa e Língua Inglesa. Ainda fez pós-graduação em Psicopedagogia Institucional e Clínica. Com sua dedicação, na época em que o governo não fornecia material algum nem para as professoras e nem para os alunos, ela montava seu material didático com o maior capricho em cadernos onde colava gravuras, desenhos seus, recortes e textos necessários para o aprendizado das crianças. Eram cadernos que formavam uma verdadeira pequena obra de arte.

Uma pequena enciclopédia. A criatividade não tinha limites. Viajava em caminhão que puxava leite para um distrito longe do centro urbano. Tirou o primeiro lugar na cidade quando fez o concurso para professora do curso primário estadual. No concurso para professora de Língua Inglesa, também tirou o primeiro lugar na cidade. Entre outras atividades e escolas, foram quarenta anos de trabalho. Aposentada, vive de boas memórias das escolas que lecionou. Esta é a minha esposa Valdete Vieira dos Santos Winther de Castro. Avó e pai, passenses. Somos um casal tranquilo tocando a vida. Ela ainda guarda com muito carinho boa parte do seu material.

A segunda professora que desejo homenagear é a não menos competente professora Talita Maria Alves Rey, de Carmo do Rio Claro. Mais nova que minha esposa, Talita já não leciona mais. Durante anos, Talita preparou e colecionou o seu material didático de forma prestimosa. Também recortou e colou figuras, textos de jornais, de revistas, desenhos, gravuras, folhas de livros didáticos já em desuso, mas, úteis para as crianças. Lotou um cômodo da casa. Também, formada normalista, depois pela Faculdade de Letras, de Pedagogia e pós-graduação em Língua Portuguesa para ensinar do primeiro ao quinto ano. Talita guardou tudo que pôde, na esperança de um dia poder lecionar novamente, pois ainda era nova quando parou. Não voltou para a escola! Vendo que todo o material guardado só teria valor se passado para outras professoras, ela resolveu separar o material e passou a me entregar, para que eu desse um direcionamento ao seu tesouro didático.

Enfim, era para que eu entregasse o material para novas professoras e escolas, que hoje são várias, para serem aproveitados. Alguns materiais, ela me entregou até com “dor no coração”, tamanho foi o capricho dedicado a eles. Eis aí uma boa ação, colaborando com o ensino. Algum material, muito pouco, é claro, eu separei para mim, para usufruir dele e depois repassá-lo. Mas, ela sabe disso!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG – Ex-professor do ensino técnico comercial – formado no curso Normal Superior pela Unipac.