Destaques Opinião

Sem sentido

15 de junho de 2020

Sabem quando conversamos com uma pessoa, ou dela tomamos conhecimento à distância, e por jeitos e trejeitos opostos, o santo não bate? Foi assim que ocorreu comigo em relação ao atual governador do Rio, Wilson Witzel (PSC). Sentimento inteiramente negativo. Foi por ocasião das eleições de 2018 que conheci a figura do ex-juiz federal. Apareceu como candidato no cenário político num estalo (ou estampido?) em plena campanha eleitoral pelo governo do estado do Rio.

Na iminência de um debate, um repórter perguntara ao então candidato qual seria sua reação caso seu oponente, no calor dos debates, fizesse insinuação desairosa sobre sua pessoa. A resposta no mínimo foi espantosa: “Dou-lhe voz de prisão”.

Referia-se ao seu principal adversário, o ex-governador do Estado fluminense, Eduardo Paes (DEM). Pensei comigo. Esse sujeito é um democrata ou um déspota?

Pela maneira de falar e se comportar, percebi de imediato que algo não daria certo. Não faria jogo na essência do desejável. E da parte de alguém que se propunha atingir a meta de servir ao estado do Rio de Janeiro, tão solapado durante décadas por maus políticos, na ocasião sequiosa para colocar as coisas em ordem, em especial no campo da violência exacerbada. Faltavam-lhe predicados para concorrer a um ente federativo tão importante. De longe, não era o cara. Caso perguntem: mero palpite.

Advogado que sou, vinha de manifestações em audiência de juízes atacados por um conhecido mal que afeta os bons trabalhos na condução Juiz-Estado, em especial os jurisdicionados: a perversa juizite.

Vão perguntar o que é isso. Sem delongas e nem muito esforço, trata-se de uma síndrome (“psicologicamente denominado o estado mórbido que apresenta um conjunto de sintomas e pode ser resultado de mais de uma causa”) de que são acometidos alguns juízes estaduais ou federais no exercício da magistratura.

Soubessem o quanto é degradante e ridículo, não se atreveriam. Denota falta de conhecimento e controle emocional. Quando pecam pela afetação, prepotência e, sobretudo, vaidade. Na consequência conflitual, gera abuso de poder e autoridade.

Particularmente, no desagradável, tive problemas com juízes desse naipe. Não fazem parte das regras, o drama não se arrasta no comando serial. São criaturas abjetas, em bem menor número. Na ventura da sorte, a maioria dos juízes sabe muito e se conduz bem no exercício de suas obrigações.

Em relação ao governador fluminense Wilson Witzel, dou testemunho de episódios estranhos e cruciais. Quem se lembra dos pulos de alegria pela morte de um sequestrador na ponte Rio Niterói? Um pouquinho de cautela e prudência ficaria melhor para um homem público. Não se festeja sacrifício nem de frango de granja em domingos de festa e guarda.

Juntem-se a isso muitos outros brados por mortes de cima para baixo, invasão inadequada de policiais em favelas e conjuntos habitacionais pobres, matando crianças e inocentes. O rombo financeiro se refletindo nos indicadores da violência. E no supremo do ridículo, abaixou-se para limpar a chuteira de Gabigol, quando da conquista da Libertadores pelo Clube de Regatas do Flamengo no gramado do Estádio Monumental de Lima, no Peru.

E nem há de se falar da queda de braço mantida com o presidente Bolsonaro, o que lhe vem rendendo seguidos prejuízos. Witzel tem colecionado uma série de infortúnios. Pelo pouco que conheço do sentimento do povo do Rio de Janeiro, o destino do atual governador e ex-juiz federal Wilson Witzel está insculpido na cripta do medonho.

E, por fim, suas implicações e irregularidades por crime de responsabilidade na Operação Placebo, Operação Mercadores do Caos, como também Operação Favorito. Haja forças-tarefas para tantas anomalias! Em defesa, poder-se-ia dizer: comprar respiradores e insumos pela Covid é preciso. Mas comprar a preço superfaturado, prejudicando a população, a sociedade e os cofres públicos, é ato tão insano quanto criminoso. “Mas não comprei. Só assinei”. Pois nas Minas Gerais se diz apropriadamente:

Escreveu, não leu, o pau comeu!”. E outra, na explicação do acaso: “Preso por ter cão e por não ter”.

Detestável em todos os modos e preceitos. No caso do ex-juiz federal, mais detestável ainda em todos os aspectos. A Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), por unanimidade de votos, 69 a 0, abriu formalmente a discussão sobre o impeachment do governador fluminense. Motivos não faltam: o principal, talvez, seja o de fraudes em diversas contratações emergenciais para o enfrentamento da pandemia, cujo expediente costuma não funcionar. De fácil ilação, abusam do excesso de confiança concedido e acabam por pecar ante o espírito da licença concedida – a licenciosidade, triste decorrência.

Mineiramente falando, de se apegar à tese, essa sim fator forte e contundente, da sintomatologia da juizite. Começou assim, agiu assim e se bebe do próprio veneno. Chavão por chavão: mudam-se os personagens, a história se repete.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.