Destaques Dia a Dia

Sapatão

POR ADELMO SOARES LEONEL

30 de janeiro de 2021

A crônica da vida policial tem aspectos dramáticos e cruéis, recheada de lances perigosos no enfrentamento da bandidagem. Profissionais mal remunerados, mal armados, dão de cara com elementos perigosos, dispostos a tudo, frios e ainda protegidos por radicalíssimas comissões de direitos humanos que tentam transformar em hotéis estrelados o que deveria ser uma prisão punitória e corretiva e, infelizmente, um verdadeiro curso de pós-graduação da marginália.

Todavia, isto é assunto para o pessoal que escreve na outra página, analisando de forma séria, respaldada em fundamentos jurídicos, as características etiológicas e sequelas de tal problema sociológico e comportamental. Apesar do mundo-cão apresentado diariamente nos telejornais, há também o lado divertido, traduzido em ocorrências pitorescas e surrealistas.

Tempos atrás, numa delegacia próxima, bem próxima mesmo, o plantonista recebeu pelos fortes braços da PM um estranho casal, pego em flagrante de agressões e xingatórios, violento acesso de ódio mútuo e ciumeiras que costumam entremear tais arrulhantes interlúdios amorosos. Levados à presença do doutor delegado e do escrevente, se postaram lado a lado, trocando arreganhamento de dentes (tipo “depois eu acerto de jeito”), para a autuação de praxe.

– Nome? interroga o escrivão.
– Josefina Paixão. ( claro, nomes fictícios, que eu não doido de meter minha colher em rusgas de amor! )

E o restante dos dados foram respondidos e datilografados com presteza: data e local de nascimento, filiação, sexo, endereço etc. Pronto o fichamento dela, virou-se ao briguento infrator:

– Nome?

O cara negaceou, numa dúvida danada, até que, respirando fundo se arresolveu e disse quase gritado:

-Maria Bernardina de Jesus, mais conhecido como Bernardão!!! – numa voz falsamente grossa, forçadamente máscula.

O delega e o escriba aprumaram as sombrancelhas, surpresos, com o fito de uma análise mais acurada da figuraça: cabelos curtinhos, roupas folgadas, cintura grossa, desleixo malandro, bigodinho fino pintado a lápis de cílios e, sobretudo, pés enormes enfiados em botinões número quarenta e tantos!

Decifrado o enigma, a autoridade tentou colocar panos quentes no confrontativo, apaziguar os (as) pombinhos, fazê-los voltar ao bom senso de uma convivência amigável mas qual! Os nervos à flor da pele, só não se atracaram ali pela presença intimidatória dos policiais mas “ele” ainda tentou, mesmo seguro, um ameaço de chute nela que revidou esticando o dedo médio e retraindo os outros, na alusão do que êle queria ter mas não tinha..

– Já que não há acordo, vocês vão dormir esta noite no xilindró e, amanhã, quando esfriarem a cabeça, voltaremos a conversar.

Chamou o carcereiro e mandou encalacrar. Aí é que o bicho pegou! O coitado do carcereiro, enganado pelas aparências, como o foram seus superiores, lascou o Bernardão na cela masculina lotada. Prá que!!!

Os detentos, “gente fina” da “melhor” qualidade, não se confundiram e, pela longa abstinência furunfática, identificaram apenas pelo cheiro a mulher oculta sob os trajes masculinos. Sequer lhe perguntaram suas preferências sexuais (nem lhes interessavam). Como galos ciscando e estufando o peito, tentavam cativá-la e deixá-la receptiva a um iminente ataque coletivo.
Um baianinho ajoelhou no seu canto e rezou, fervoroso:

– Obrigado, meu São Jorge! Tá certo que meu pedido era meio estranho, eu sei, mas o senhor mesmo assim atendeu. Pode ficar tranquilo que eu pago direitinho a promessa!

E atacou, feito um touro espanhol. Berreiro total, instinto puro. O Bernardão virou Bernardina na hora, debaixo da turma que apertava, passava a mão, beliscava, mordia e babava. A virgindade só se salvou porque todos queriam a mesma coisa ao mesmo tempo, disputada a taponas e cotoveladas. Tamanho barulhão despertou a atenção dos guardas que ainda chegaram a tempo de desatarracá-la dos taradões mas o Bernardão, nesta altura, falava fininho, fininho…