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Santuário Santo Aníbal, um espaço único

Por ADRIANA DIAS e JUAN MADEIRA / Da Redação e Especial para a Folha

12 de setembro de 2020

Foto: Douglas Arouca

PASSOS – Único santuário de título em Passos e o primeiro dedicado a Santo Aníbal Maria de Francia fora da Itália; primeira casa missionária rogacionista no Brasil; única capela de Passos com duas relíquias significativas, sendo uma de Santo Antônio e outra de Santo Aníbal. Portanto, um espaço de devoção muito singular, que teve o início das obras em 1942 e a inauguração em 1950. É neste cenário que o Roteiros da Fé entra para contar um pouco da história da primeira das 15 capelas de Passos e décimo vídeo da série, que já trouxe as nove paróquias e a partir deste domingo vai abrir as portas das igrejas da cidade e uma da zona rural.

Para abrilhantar o vídeo feito por Douglas Arouca, o violonista Celso Faria tocou a música ‘Estudo em mi menor’, do espanhol Francisco de Asís Tárrega Eixea – um importante violonista que revolucionou a composição para violão. Faria já realizou dois grandes eventos musicais no Santuário. A reportagem se valeu do livro ‘Missão que não termina – Passos: a primeira Casa Missionária Rogacionista’, editado em 2017, e, de entrevistas com os padres Luiz Caetano Castro, ecônomo da comunidade Rogacionista e Adriano Mendonça, atual e recentemente empossado superior da comunidade em Passos. Também contou com a valorosa contribuição histórica do arquiteto César Tadeu Elias para o levantamento de informações sobre a igreja.
De acordo com o livro de tombo de número 5, da Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos, o Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos foi idealizado para ser um orfanato, por Monsenhor Messias Bragança e sua pedra fundamental foi benzida no dia 23 de agosto de 1942.

O prédio do Educandário, com a Capela anexa foi inaugurado em 18 de outubro de 1950, data em que acolheu os padres rogacionistas que iriam dirigir a instituição. O bispo diocesano da época, Dom Hugo Bressane de Araujo fez uma carta convidando todos os paroquianos para o evento de inauguração. Também foi feito convite à população assinado por Monsenhor Messias Bragança e pelo vigário de Nossa Senhora da Penha, padre José Pires. Os primeiros padres rogacionistas que chegaram a Passos foram Mário Labarbuta e José Lagati. Ao que consta na história, o prédio foi construído por Monsenhor com o objetivo de acolher crianças, tanto meninos quanto meninas em situação de vulnerabilidade, sem ao certo saber quem cuidaria do local.

Conforme informou padre Luizinho, o primeiro passo é lembrar que esta igreja em questão é uma congregação religiosa.

Então, o entendimento é diferente com relação às paróquias, porque aqui a gente pertence a uma congregação. Com isso, a dinâmica é diferente. Nós moramos em comunidade, não é uma vida sozinha. A gente tem o voto de pobreza, os demais padres da cidade não têm. A hierarquia da igreja obedecemos, mas numa eventual transferência, por exemplo, é à congregação que acatamos. Territorialmente nós pertencemos à Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos”, explicou padre Luisinho que está em Passos há 13 anos.

Desde o início, com a chegada dos rogacionistas, foi denominada Capela Santo Aníbal. Mesmo antes de ele ter sido beatificado.

Com a beatificação, ganhamos a denominação de santuário. Só que existem categorias diferentes de santuário, tem santuário de título, santuário paróquia, como o Santuário de Nossa Senhora da Penha, por exemplo. O nosso é um santuário de devoção, causa da importância de Santo Aníbal para a vida da cidade, para a vida da congregação e a vida dos usuários”, salientou Luizinho.

Na primeira construção cabiam 150 pessoas na capela, que passou por diversas pequenas reformas ao longo dos anos.

Com a beatificação do fundador criou-se o título de santuário e, com isso aumentou-se a devoção e a necessidade de ampliar o espaço. Em 2015 realizamos uma ampliação, com o apoio e trabalhos de César Tadeu Elias. A nova capela tem agora capacidade para 218 pessoas e a reforma foi em tempo recorde, em seis meses foi concluída”, contou o padre.

A reforma teve a troca do telhado, que era uma necessidade real e concreta, e a ampliação de uma lateral onde era um galinheiro foi transformada em uma nova ala para recepcionar mais fiéis. Também foi feita a capela de adoração ao santíssimo, que não tinha e um jardim de inverno para dar mais luminosidade e ventilação, e, mantendo o muro original em tijolos onde também foi colocada uma das várias imagens de Santo Aníbal, esta vinda das Filipinas, local do terceiro milagre, responsável pela sua canonização. O milagre de Passos, da jovem Gleida Danese lhe rendeu a beatificação.

Esta nova área é como se fosse uma passagem de século. Foi tudo feito com base em muito estudo por parte do arquiteto. Ao fazer o santuário, a gente colocou uma cobertura, iluminou por fora. Precisamente sobre o santuário, a gente saiu de alvenaria e colocou vidros, inox, metais. Como são três colunas, onde eram as janelas, foram feitas separando para a nova área, o significado pode ser as três pessoas da santíssima trindade. Os quatro arcos podem ser os quatro evangelistas, os quatro elementos da natureza, os quatro cantos do universo. O piso foi um resgate de como era a parede original da capela, porque ela foi original até pouco tempo atrás. O teto inspirado na capela do Santo Aníbal em Messina, na Itália”, explicou.

No pórtico para entrada da capela do Santíssimo tem uma coluna com o escrito em latim “Eu sou a luz do mundo’, que em latim é ‘Ego sum lux mundi’.  A relíquia não foi alterada, para não mexer no santuário antigo. O teto em madeira também foi mantido, e, o teto do espaço novo foi inspirado no forro da cripta da Capela em Messina. O piso evoca as paredes que eram diferentes e retrata o original. O trigo é um dos símbolos da congregação, na qual Santo Aníbal se inspirou numa frase bíblica que diz que ‘A messe é grande, mas os operários são poucos’. Então, de acordo com César Tadeu ele levou em consideração este elemento para fazer as luminárias, arandelas e também detalhes de uma das portas do novo espaço.

Um grande quadro chamado ‘Jesus, grande agricultor’, fica acima do altar e foi pintado pelo irmão Agostinho Caputti, monge de Claraval, tem o Santo Aníbal com crianças e dois anjos, um feminino e outro masculino representando as ordens que ele criou e prestava atendimentos aos dois gêneros e Jesus, atendendo ao apelo dele e o coração de Jesus. O quadro mostra de um lado a Europa (Messina) e do outro a América (Passos com a casa-mãe).
Atualmente o Santuário conta com padre Luizinho, Adriano, Pedro Bauer e Valdecir Martins dois seminaristas Kauan e Agalves.

Sobre o Roteiros da Fé, o padre fala sobre a importância dos templos religiosos até mesmo para os não-católicos.

Os templos são espaços de busca por respostas, de paz, de contemplação. Por ter o catolicismo durante muito tempo ter sido uma das religiões mais seguidas, isso tem uma importância histórica. E saber sobre seus espaços é muito importante. Saber sua história, independente de ser católico eu procurei conhecer o Templo de Salomão, vejo história de fé, arte, arquitetura e resgata a história da fé”, disse Luizinho.

Padre Adriano salientou que pelo projeto Roteiros da Fé ele ficou sabendo das várias participações dos rogacionistas em outras comunidades religiosas. “Na Nossa Senhora das Graças, de Fátima e isso faz com que pisemos no chão da nossa história”, salientou. Para o arquiteto César Tadeu o que tem de mais importante e que deve ser referenciado e reverenciado é que o Santuário Santo Aníbal é o único templo que guarda relíquias significativas de dois santos de imensa importância.

Santo Antônio, conhecido no mundo inteiro tem uma relíquia aqui em Passos e muita gente não sabe. Santo Aníbal era devoto de Santo Antônio e aqui tem dois. São mais de 800 anos que Santo Antônio morreu. Foi vinda como presente pelo papa da época da fundação”, garantiu, salientando que a de Santo Aníbal veio depois da beatificação.

Vitrais

O vitral que fica exatamente no centro do altar é uma peça feita pela Casa Conrado, o primeiro ateliê de vitrais do Brasil, fundada em 1889. A empresa produziu os vitrais de igrejas e monumentos de grande importância histórica e arquitetônica como a Catedral da Sé, a Casa das Rosas e o Mercado Municipal de São Paulo e, do Santuário Santo Aníbal.

O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis, criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o oitavo vídeo e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-s…rio-santo-anibal/.