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‘Santuário de Santa Rita é um presente para Cássia e região’

Por Adriana Dias / Redação

15 de fevereiro de 2021

Foto: Divulgação

A curiosidade em torno do valor investido na maior obra dedicada à Santa Rita de Cássia no mundo é grande, mas, para o cassiense Paulo Flávio de Melo Carvalho, não se deve falar o valor de um presente. Porém, no decorrer da longa entrevista durante a visita da reportagem à obra do Santuário de Santa Rita de Cássia, o atual morador de Sorocaba, em São Paulo, foi possível calcular que os investimentos superam 7 milhões de dólares, o equivalente a mais de R$37 milhões e que, o maior atrativo religioso da região deverá ser entregue no dia em que é comemorado o Dia de Santa Rita, 22 de maio de 2022.

O empresário contou que trabalhava na área de fabricação de embalagens de alumínio na capital, porém quando decidiu montar o seu próprio negócio, o local escolhido foi Sorocaba onde é fabricante de embalagens de alumínio no Grupo Wyda. Aos 72 anos, este homem que viveu no interior até os 10 anos está prestes a entregar para Minas Gerais e Brasil um dos maiores templos católicos do mundo.

Casado com Marília, com quem tem os filhos Roberto e Pedro e os netos João Paulo e Luis Henrique, ele adquiriu uma área de 180 mil metros quadrados que fica 100 metros de altitude em relação à cidade, no Alto do Taquaral, de onde se tem uma vista privilegiada de Cássia e onde está sendo construído o templo de 100 mil metros quadrados de área construída, um estacionamento para 155 ônibus e outro para 765 carros, uma réplica da casa de Santa Rita, uma área comercial com 48 lojas, um velário, três casas, sendo uma para vestiários e fraldário, outra para sanitários e a casa do padre – com sete quartos. A igreja tem capacidade para 5 mil pessoas sentadas. Para a inauguração estão sendo aguardadas cerca de 100 mil pessoas.


Folha da Manhã – Como surgiu a ideia de construir um Santuário? O senhor se inspirou em alguma outra obra?

Paulo Flávio – Quando nasceu Cássia, tinha quatro fazendeiros aqui, em 1884, que doado por coincidência 18 hectares de terra para começar o município. E, agora, por coincidência vamos doar para Guaxupé 180 mil metros, a mesma proporção. A música, que fala do hino de Cássia no Alto do Taquaral, também por coincidência o Santuário está nascendo no Alto do Taquaral. Passando pelo planeta Terra aqui, em visita ao planeta, pensei que iria passar e só. Tem um livro que fica para os filhos e netos talvez, e depois, isso some. Queria deixar um legado, uma marca, brinco que é o rabo do cometa com a minha passagem. Cheguei a imaginar fazer até uma pirâmide, mas com 60 anos de idade, decidi fazer um Santuário dedicado a ela, Santa Rita, e pedi que, se ela me possibilitasse condições financeiras e físicas, eu construiria.

A história toda começou a acontecer e eu comecei a namorar este lado da cidade. Afinal, aqui no alto ficaria exposto para todos os lados da cidade. Sou devoto de Santa Rita de Cássia. Sou cassiense, nunca perdi o vínculo, mesmo tendo saído novo para estudar. Sempre mantive casa aqui. Este é um presente para Cássia e toda a região. Não teve inspiração de nenhum outro templo religioso, é original da minha cabeça. A única coisa que é réplica, praticamente idêntica, é a casa onde Santa Rita morou, em na Itália. A santa nascida Margherita Lotti, que ficou conhecida como a santa das causas impossíveis morou em uma casa simples. Fiz uma visita à Itália e vi a simplicidade e a humildade de uma alma perfeita. Santa Rita passou por quatro estágios: solteira, casada, viúva e monja. A construção da casa ainda será iniciada e será atrás da cúpula.


FM – Qual o sentimento em poder dar um presente deste tamanho, porte e importância?

Paulo Flávio – O prazer de dar um presente deste é muito fácil de explicar. Quando lutamos na vida, todo minuto, dia, semana, você vai construindo algo para você. A vida é uma conta corrente, você ganha e também tem que doar. Você vai dimensionando o tamanho das coisas. Antigamente eu tinha a gratidão de doar uma cesta básica. Poder ajudar uma pessoa e sempre gostei e me sentia bem em ajudar. As dimensões vão ampliando, e, como recebi mais, ajudo mais. Já estou até acostumado com o processo, se torna natural. Há 28 anos comecei uma empresa com 50 mil dólares e isso foi progredindo devagar. Enfrentando muitos desafios e hoje é um complexo empresarial. Acredito que isso sirva como um hospital espiritual, porque as pessoas precisam de tratamento espiritual também, além de o Santuário ser uma indústria gigantesca de turismo religioso. Se as pessoas souberem receber bem a ideia, aqui vai virar um céu de empregos e possibilidades, então, poder estender a mão é gratificante. Neste caso estou dando a vara, ensinando a pescar e estou deixando os peixes aqui. Pra mim é bênção que será espalhada. A igreja e o poder público também podem e devem se unir e ajudar neste divisor de águas.


FM – O senhor é um estudioso de Santa Rita?

Paulo Flávio – Na verdade não sou estudioso e nem sou tão religioso assim, não sou de freqüentar missas com freqüência, mas tenho um grande oratório de Santa Rita em casa, onde rezo para ela todos os dias. Peço todos os dias a ela para nos dar saúde e prosperidade ao grupo Wyda e para ajudar na construção, afinal eu nunca tinha feito um santuário. Até agora, todas as dificuldades que nós tivemos na construção, ela mostrou o caminho para nós. E, percebemos como nós conseguimos reunir tantas pessoas especiais para estarem na obra, desde o começo. Isso nada mais é do que a mão dela nos ajudando. O projeto aqui foi marcado para quatro anos e temos 17 meses para terminar. Claro, poderia ser feito em 10, 20 ou 30 anos. Tem igreja que está há dezenas de anos em conclusão. Bati forte e vamos conseguir entregar dentro do prazo.


FM – Em sua viagem à Itália, o que mais chamou sua atenção em Cássia?

Paulo Flávio – A simplicidade da casa de Santa Rita, um lugar pequeno, onde tem também o convento. É uma cidadezinha de 2 mil habitantes, com muito morro. Me senti de uma forma muito espiritualmente grato em poder visitar e conhecer por onde ela passou e viveu. Isso me deixou comovido.


FM – Este modelo do santuário nasceu na sua cabeça?

Paulo Flávio – Existem as pessoas que enxergam em primeira dimensão, outras em segunda e aquelas que vêem em terceira dimensão. Eu vejo o santuário pronto, desde o início.


FM – Seus pais também eram de Cássia?

Paulo Flávio – Meus pais eram fazendeiros aqui em Cássia. O Barão de Cambuí era meu trisavô, a filha dele, a Blandina casou-se com meu bisavô e a filha da Blandina se casou com meu avô que era primo primeiro, o Antônio Cândido de Melo e Souza, que foi prefeito de Cássia em 1905. A boiada passava toda por dentro de Cássia ele fechou e fez o corredor dos boiadeiros. Eu saí de Cássia aos 13 anos, fui estudar em Colégio Interno em Franca, São Paulo e na sequência para Ribeirão Preto, onde cursei Contabilidade. Fui para São Paulo, capital onde cursei Administração de Empresas. Por lá trabalhei por longos anos com banco. Minha família quebrou e hoje tenho uma gratidão enorme por Santa Rita. Minha mãe me ensinou a ser devoto. Aconteceu de fazer o Santuário. A princípio eu não sabia o tamanho que iria fazer. Nas negociações com relação ao tamanho eu disse que faríamos o maior santuário dedicado à Santa Rita de Cássia no mundo e é o maior. Não cheguei a pesquisar, só disse que seria tão gigante que certamente seria o maior. E, por sinal, a pesquisa veio depois e realmente é o maior. Só no Estado de São Paulo tem 81 paróquias dedicadas à santa. No Brasil, na cidade de Santa Cruz, Estado do Rio Grande do Norte, está localizada a maior estátua católica do mundo, que representa a Santa Rita de Cássia e foi inaugurada em 26 de junho de 2010. Mas a igreja é pequena. A devoção por Santa Rita é gigantesca.


FM – O senhor pode falar sobre o orçamento?

Paulo Flávio – Todo orçamento precisa ser feito com muito planejamento, com reserva técnica para poder cumprir o orçamento. Por outro lado, é um presente que estou dando à Cássia, e presente você não pode contar o valor. Mas, você pode imaginar pelo tamanho da obra e o valor do metro quadrado de construção que não é algo barato. Daria para montar mais algumas empresas.


FM – O senhor está dando não apenas uma obra religiosa, mas um atrativo religioso?

Paulo Flávio – Algumas pessoas me questionavam porque eu não montei uma empresa aqui em Cássia. E, eu discordo, costumo dizer a estas pessoas que estou montando a maior empresa em Cássia e para a região. O que vai gerar de emprego é incalculável. Não adianta eu montar uma empresa para empregar 500 pessoas aqui, porque hoje praticamente é tudo automatizado. Se opera uma fábrica de chocolates com 10 funcionários. Indústria de automóveis toda automatizada. Aqui, toda a terraplanagem foi feita por nós. Foram investidos aqui 240 mil metros cúbicos de terra, o equivalente a viagem de Cássia a mais da metade a São Paulo. Se fosse uma multinacional talvez a prefeitura fizesse toda essa infraestrutura, mas o prefeito anterior não nos ajudou com nada. Pegou em abril do ano passado o projeto da alça viária, para ligar o Santuário à rodovia, pois a cidade não vai comportar a quantidade de veículos que vão chegar. Só no dia da inauguração são esperadas 100 mil pessoas.


FM – Quando começou a obra?

Paulo Flávio – A obra teve início no dia 18 de agosto de 2018 e vamos fazer a doação no dia 22 de maio de 2022 para a Mitra Diocesana de Guaxupé, que ficará responsável pela administração da igreja e do seu entorno. O engenheiro responsável é Gustavo Bormann e os arquitetos são Adriano Ogushi e Tiago Castro e o eletricista Ronaldo Manoel da Cruz. A obra proporcionou emprego para 200 pessoas, entre diretos e indiretos. Muitos estão acostumados a trabalhar comigo fazendo galpões e outras obras, mas igreja é esta para todos nós.


FM – Os bancos também foram produzidos especialmente para o Santuário?

Paulo Flávio – Sim, são 1.000 bancos em madeira que já estão quase prontos em Sorocaba. Também estão sendo feitos 10 bancos que vão ser usados no altar. São bancos ovais de cinco metros de comprimento.


FM – Percebi que em toda a extensão tanto externa quanto interna tem na arquitetura o formato de parafusos. Qual o significado?

Paulo Flávio – A ideia de parafusos que rodados para a esquerda você está desmontando e para a direita você está construindo. As pessoas precisam entender que é necessário construir o bem.


FM – Na parte externa próximo à frente do Santuário tem três imagens. São de quem?

Paulo Flávio – Uma é a imagem de Jesus Cristo, outra de Santa Rita de Cássia e a terceira é uma réplica da escultura Pietà, de Michelangelo, uma das mais belas e impressionantes obras da história da arte do Ocidente e uma das mais conhecidas do autor. É a representação da cena bíblica em que a Virgem Maria segura em seus braços Cristo – seu filho – já sem vida.


FM – Tem imagens também no altar?

Paulo Flávio – A cruz do Cristo que vai no altar tem 8 metros de altura e o Cristo tem 2,80 metros. E, a imagem de Santa Rita.


FM – Qual o estilo arquitetônico?

Paulo Flávio – O grande templo, com arquitetura moderna e clássica. Eu tinha pensado inicialmente com uma torre na frente, mas após visitar Fátima, em Portugal, vi que não tem torre. Guadalupe também não tem torre. As estruturas metálicas serão cinza fechado. Barrado cinza fechado e as paredes um amarelo especial chamado Salvador Dali. Internamente o pé direito tem 10 metros de altura, um mezanino para banda e coral com capacidade para 60 pessoas. A abóboda é de estrutura metálica. Serão utilizadas lâmpadas de led de alta potência. Estão sendo utilizados 3.200 metros cúbicos de concreto, 11 mil sacos de cimento, 9 mil metros quadrados de piso porcelanato million.


FM – Os painéis terão pinturas especiais?

Paulo Flávio – Os painéis serão pintados pelo artista sacro Romolo Picoli Ronchetti que fará ícones, sendo de um lado a história do nascimento até a morte de Cristo e do outro lado a história do nascimento à santificação de Santa Rita de Cássia. Romolo foi escolhido pelo reconhecimento de suas obras sacras. Deve levar oito meses para as pinturas ficarem prontas.


FM – E os vitrais?

Paulo Flávio – A D’Falco Vitrais fez todo o trabalho de carregar e transportar os mais de 500 metros quadrados de vitrais que já estão sendo aplicados no Santuário. São símbolos de Santa Rita de Cássia e de Jesus, sendo 56 vitrais. E sete rosáceas na cúpula.


FM – O senhor tem ainda algum sonho a se realizar?

Paulo Flávio – Tenho, se chegar aos 80 anos. E está guardado. Se chegar com força e coragem aos 80 vou realizar este sonho.


FM – Vai ter relíquia de Santa Rita?

Paulo Flávio – A cidade de Cássia já tem uma relíquia de primeiro grau, que é uma partícula óssea dela e que, provavelmente irá pra lá, por ser um Santuário Diocesano. Mas também a Diocese já está entrando em contato com a cidade italiana para ver se vem uma delegação para a inauguração e quem sabe uma nova relíquia.


FM – Na área externa vai ter bancos também?

Paulo Flávio – Tem 50 bancos pedras de granito natural que serão espalhados pela área externa. Em Aparecida não tem bancos. As pedras do jardim onde serão plantadas as roseiras de Santa Rita já estão no local. Também plantamos tâmaras que daqui há 80 anos deverão dar frutos.


FM – É possível comparar Aparecida do Norte com o Santuário de Cássia?

Paulo Flávio – Administrativamente, o Santuário de Aparecida está engatado em quinta marcha já. Todo carro quando sai, é de primeira, não dá para ser diferente. Os executivos vão criando processos e agregando à medida que vai acontecendo. Há que se ter equilíbrio. Serão necessários, por exemplo, já no início de 20 pessoas para cuidar da parte de manutenção. Aparecida tem mais de 70 padres, mas começou há 300 anos. A demanda em Cássia vai se mostrar ao longo dos dias.


FM – Qual um recado aos empresários e investidores para acreditar mesmo antes da inauguração?

Paulo Flávio – Quem for empreendedor enxerga, quem não for empreendedor espera. Quem acredita vai. A fé, nada mais é você acreditar sem ter dúvidas. Se houver dúvidas, não é alguém com fé. Missão dada, missão cumprida. Esta é a realidade. Uma oportunidade incrível, prontinha. As pessoas têm que ver o que quer dentro desta diversidade.