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Salve, salve Bárbara!

13 de julho de 2020

Normas legais e de procedimento comum revelam não ser tolerável fazer elogio de si mesmo ou de alguém da família. Tudo bem que assim seja. Do contrário, o ato em si acaba por se situar entre a suspeição e o constrangedor.

Pior do que isso é o elogio em boca própria. Na formulação do ditado, pouco apreciado quem nele encerra, está a figura do vitupério. Ofensivo no gesto e na atitude.

Na lembrança, o selo da prudência: “Elogio em boca própria é vitupério”. É ditado. No jogo do ensinamento, no pedagógico, fala-se muito sobre determinada coisa. Como ninguém dá bola e não acredita, essa coisa acaba entrando para o mundo dos aforismos. E deles tira proveito quem quer.

No entanto, em posicionamento adequado, vale o questionamento: e quando existem fatos importantes e reveladores a envolver gente ligada à família, agregados e amigos, então não se pode fazer a devida apreciação por mérito?

Nesse caso, deve-se não apenas abrir exceção, mas, de forma até mesmo eloquente e condigna, rever conceitos estratificados na natureza pela sua importância real e material.

Dessa forma, resolvo fazer de público uma louvação. Não louvação para o sagrado, no âmbito do sacrossanto, do religioso. Afinal, trata-se de ente humano, muito querido e amado, pelo conjunto das qualidades inerentes, que se circunscrevem entre o angelical e a doçura pela prática e atitude em favor do bem e do próximo. E mais: pelo que faz, empreende no campo do atendimento sanitário a pessoas fragilizadas, em especial, numa época em que a vida – nunca antes tão valorizada – se vê frente a frente com o perigo imediato que é a pandemia do Coronavírus.

Então surge Bárbara. Ela, a se fazer mais bela ainda, no dizer do poeta Alvarenga Peixoto, quando, em admirável arrojo vocacional, ao lado de outros tantos gigantes profissionais da saúde, a exemplo de médicos, enfermeiros e afins – se posiciona na vanguarda do atendimento médico, em defesa dos portadores das mais diferentes comorbidades e patologias, entre as quais a temida
Covid-19.

Longe de ser ato de heresia, porquanto esse, sim, gesto descabido, mas, impulsionado pelo sagrado voto a quem de direito, dou como justificado o título “Salve, salve Bárbara!”.

Maria Bárbara Negrinho Pereira é fisioterapeuta da ala Respiratória na Unidade Médica da Santa Casa de Misericórdia de Passos há cerca de 8 anos. Na mesma especialidade, em alas distintas do hospital, não divide, mas soma espaço com Lucas Pereira, seu esposo. E é tão dedicada quanto competente no desempenho de suas funções.

E como profissional da área da saúde, pertence ao grupo mais exposto à transmissão do novo Coronavírus. Daí ser considerada por mim – e por mais alguns bilhões de pessoas mundo afora – como autêntica heroína da resistência da área sanitária. E como os demais agentes sanitários, trabalha em locais nos quais há risco iminente pela doença da Covid-19.

E tenho motivo próximo e particular. Na sexta que passou foi aniversário de Maria Bárbara. Completou mais um ano de vida. Objetivei cumprimentá-la. Que nada. Deu-me de pronto um “brake”. “Alto lá! Somente nos ares da complacência virtual. Presencial, não!

Não me contendo, com voz de taquara rachada, ao telefone – pianinho – cantei-lhe o tradicional “Parabéns a Você”. E se ficou nisso.

Pelas venturas das boas vindas, Bárbara veio a este mundo conturbado e caótico, no registro do tempo, aos dez dias do mês de julho.

E foi assim. Desceu do alto das estrelas para se alojar no seio materno de Maria da Conceição Negrinho, saudosa irmã de doces lembranças, para juntar-se em alegria conjuntural na plenitude do amor mais que terno e incondicional.

E à eterna garota de fascinantes talentos, a merecida homenagem de um tio que, mesmo violando estatutos comportamentais, ousa enquadrar-se na condenável prática do nepotismo em benefício de merecida verdade: a consagração sincera a quem por direito.

Para Bárbara, em modesta lembrança, cuidei de enviar a foto do filho Lorenzo brincando no quintal com o seu cão Saint Pierre. Nos dizeres: “No pulsar da vida, é assim que a vida é e precisa ser vivida: o carinho, o zelo, a entrega…” Aliás, tudo a ver com a nobilíssima missão que abraçou.
Em razão disso, em seu nome, por extensão a todos os profissionais da área de saúde, o mais profundo reconhecimento pelo que fazem em prol de todos nós, com ou sem cara, rosto, cor, independente de credo, dinheiro ou não.

Somos todos agradecidos pelo muito que fazem e nem sempre na devida contrapartida pecuniária. As cenas são recorrentes. Sempre as mesmas. Luta pela vida.

Nunca é demais homenagear quem tem o poder curativo nas mãos. Por isso mesmo, digo em brados: – ah, esses anjos que se escondem anonimamente debaixo de máscaras e aventais. No semblante da preocupação, em desmedida coragem, carregam a dor e o sofrimento alheios, driblando o espasmo do cansaço físico. A peculiaridade cruel de não poderem abraçar e estar com os seus. No afã da assepsia, desnudam-se no pórtico de suas casas, se socorrem do banho para estarem presentes em casa. E quando menos se espera – é hora de voltar para outros plantões, novas agruras – sensação de impotência no comum das vezes.

No ensejo, o “parabéns a você” de Maria Bárbara vai para todos os profissionais da área de saúde de todo o mundo, pela dedicação, coragem, desprendimento, amor, carinho, solicitude, entre tantas outras adjetivações.

Somos verdadeiramente gratos pelo que fazem aos mais que vulneráveis seres humanos no Planeta Terra, ora na condição de passageiros da agonia em época de pandemia.

Que a homenagem sirva de alento e conforto para quando as forças físicas e mentais estiverem se exaurindo no campo de batalha. Aí, então, ao depois, lembrar-se de edificantes e empíricos lugares cheios de luz e paz, das orações formuladas, consciente e inconscientemente, por toda a comunidade desse ainda mais desassossegado planeta Terra.

No momento em que a desesperança se acerca da humanidade, quando a dor física se mistura à angústia da inquietação da alma; quando o homem se vê inerme na vulnerabilidade do acaso; quando o paciente, psiquicamente combalido e frouxo se entrega ao desespero, no cenário terapêutico das perspectivas balsâmicas, eis que surgem os verdadeiros heróis da resistência: os profissionais da área de saúde!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.