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Saber e fazer

19 de Maio de 2020

“Saber vem do latim ‘sapere’, que significa ‘ter gosto’, portanto, estava ligado ao paladar. O significado do ‘saber’ se ampliou e já não basta o paladar para se ter conhecimento sobre as ciências, as emoções e a vida. É preciso colocar-se por inteiro na busca, de corpo e alma. Ele é o sal do espírito, o gozo da alma, a consciência que o homem tem do mundo que o cerca e das diversas teorias criadas para explicar os mistérios que o envolve.

O saber é a luz que nos permite enxergar a estrada. O homem o cria e ele transforma o homem, propondo-lhe novos desafios. Na vida, cada um tem duas escolhas com relação ao ‘saber’. A primeira é se apaixonar por ele, ser capaz de conviver com suas dúvidas pessoais e fazer sempre mais perguntas. Se for essa a sua escolha, você viverá as alegrias e os conflitos da eterna busca, e será um ser com ‘luz própria’, capaz de trilhar novos caminhos. Sua segunda escolha é ter uma fraca relação com algum saber. Nesse caso, você deverá se conformar em caminhar sem rumo, ou seguir a trilha que alguém lhe indicar”.

É como bem nos diz o trecho da música: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Por outro lado, há algumas exceções na vida que acabam virando folclore, transmitidas de boca em boca, de geração em geração, mas que, afinal, não passam de histórias populares, que servem apenas como referência ou simples exemplos de vida. Entre elas, há uma interessante que deve ter se passado numa pequena cidade do interior, de antigamente.

Conta-se que um homem, que nunca tinha aprendido a ler nem escrever, trabalhava há anos como porteiro do prostíbulo local. Um dia, entrou como gerente daquele lugar um jovem cheio de ideias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento. Fez mudanças e chamou os funcionários para as novas instruções. Ao porteiro disse: -“A partir de hoje, o senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal em que registrará a quantidade de pessoas que entram, seus comentários e reclamações sobre os serviços”. E ele respondeu: -“Eu adoraria fazer isso, senhor, mas não sei ler nem escrever!” E o gerente então concluiu: -“Se é assim, já não poderá trabalhar mais aqui, pois preciso de alguém com outro perfil.”

O homem ficou desolado, pois trabalhava naquele local, com a função de porteiro, havia muitos anos e não tinha outro ofício. Recebeu uma boa indenização e começou a pensar no que fazer da sua vida dali em diante. Lembrou-se que, quando quebrava alguma cadeira ou mesa, ele as arrumava, com cuidado e carinho. Decidiu que essa poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego, mas não tinha ferramentas. Usaria o dinheiro da indenização para comprá-las, mas deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo e realizar a compra. E assim o fez.

Quando retornou, um vizinho bateu à sua porta. –“Será que o senhor teria um martelo para me emprestar?” –“Sim, acabo de comprá-lo…” E o vizinho: –“Bom, eu o devolverei amanhã, bem cedo.” Na manhã seguinte, o vizinho bateu à porta e disse: -“Olha, eu ainda preciso do martelo, não poderia vendê-lo a mim?” O homem explicou que a casa de ferragens ficava a dois dias de viagem, de mula, ao que o vizinho respondeu: -“Eu pagarei os dias de ida e volta, mais o preço do martelo”. Como isso lhe daria trabalho por mais dois dias… aceitou.

A notícia se espalhou e outras pessoas começaram a usar seus serviços de ida ao povoado, trazendo sempre encomendas, até que resolveu alugar um barracão, montou a primeira loja de ferragens do lugar, e já não precisava mais viajar, pois as mercadorias eram enviadas a ele pelos fornecedores. Em poucos anos, o homem se transformou em um rico e próspero comerciante de ferramentas. Um dia, decidiu doar uma escola ao povoado e, no dia da inauguração, o prefeito o abraçou e disse: -“É com orgulho e gratidão que lhe pedimos para colocar a sua assinatura no Livro de Atas desta nova escola” ao que ele respondeu: -“Seria uma honra, mas sou analfabeto!” –“Analfabeto? O senhor construiu um império sem saber ler e escrever… o que teria sido se soubesse?” E o homem respondeu: -“Se soubesse ler e escrever seria o porteiro do prostíbulo!

Será que isso aconteceria nos dias de hoje, quando o saber e a informação são acessíveis à maioria da população? Quando os meios de transporte são rápidos e fáceis? É bem provável que seja apenas uma fábula, mas ela nos leva a refletir a respeito do comodismo e da falta de iniciativa que assola tantas pessoas por aí. Geralmente, as mudanças são vistas como adversidades, mas elas podem ser bênçãos. As crises estão cheias de oportunidades. Se alguém lhe bloquear a porta, procure janelas e, lembre-se da sabedoria da água: “A água não discute com seus obstáculos, simplesmente contorna-os.