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Roteiros da Fé: Capela Senhor Bom Jesus da Lapa representando todas as capelinhas da zona rural

9 de janeiro de 2021

A Capela Senhor Bom Jesus da Lapa. / Foto: Douglas Arouca

PASSOS – Marco de vários festejos, leilões que arrecadaram recursos para construção de grandiosas igrejas e, até, palco de casamentos. A pequena e imponente Capela Senhor Bom Jesus da Lapa, na Fazenda Estiva, região do Boqueirão, onde há muito tempo funcionava a Usina Rio Grande, em Passos é o templo católico escolhido para, em seu nome, homenagear as incontáveis capelinhas da zona rural passense. A música escolhida para este vídeo especial foi ‘Romance de Amor’, (harmonização de Antônio Rovira) tocada pelos dedilhados do violão do passense Celso Faria na própria capela, que foi construída por seus familiares.

A capela recebeu a provisão no dia 3 de outubro de 1913 e foi inaugurada por Monsenhor João Pedro. E, em 2013, contou com as bênçãos do centenário pelas mãos do pároco Eduardo Pádua de Carvalho, da Paróquia Nossa Senhora de Fátima. A festividade do centenário foi organizada pela família de Aureliano Barbosa da Silveira e Amélia, donos das terras da Estiva. Familiares fizeram a comemoração do centenário com a inauguração das obras de reforma da capelinha.

Em 19 de julho de 2015 a capela teve a honra de receber a visita do Bispo Dom José Lanza Neto acompanhado por padre Eduardo Pádua de Carvalho, pároco da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, a que nos deixou muito alegres. “Sua visita foi rápida, porém não deixou de ficar atento a tudo que lhe foi falado. Observou detalhadamente o exemplar do Missal Romano, uma preciosidade existente na capela; paramentos antigos e muito mais. Depois de sua visita, como sempre foi tradição, foi-lhes oferecido um café com bolachinhas como na época de nossos pais, o que nos trouxe imensa satisfação”, informou Graça.

O grupo que compôs o projeto Roteiros da Fé foi recebido na Fazenda Estiva, pelos filhos de Aureliano da Silveira, já falecido. Maria das Graças Silveira Barbosa, uma das filhas mostrou toda a estrutura da igreja e contou várias histórias do lugarejo. Os filhos do casal são: Maria José Silveira Pessioni; Maria Luiza Silveira; Paulo Régis Silveira; Nelson Antonio Silveira; Carlos Roberto Silveira Barbosa; Maria das Graças Silveira Barbosa; José Arnaldo Silveira Barbosa; Maria Aparecida Silveira (falecida), Maria de Lurdes Silveira (falecida) Maria Denise Silveira Horta.

A capela tem capacidade para 120 pessoas, um pavimento superior para o coral, um quarto nos fundos, com uma cama, banheiro e é mantido com os mesmos pertences de anos atrás, tais como uma cadeira onde Monsenhor João Pedro se sentava, mas se hospedava na casa grande. A bacia de lavar as mãos, uma pequena pia, quadros, um missal e um hinário.

Branca e azul, a capelinha tem um sino que funciona desde remotos tempos. E, conforme um resgate histórico feito pela família Silveira, na época da comemoração do centenário, as capelas, que antes eram chamadas de igreja, eram construídas por pessoas que chegavam para ficar na nova terra, enfrentar as dificuldades da região crua e construir casas para seus filhos e netos. Eles extraíam da própria mata derrubada o material para a edificação, sendo que a obra geralmente era a primeira atividade que conseguia reunir os desbravadores em um mesmo objetivo. Mostra da religiosidade que movia o povo da primeira metade do século passado, as capelas estavam entre as primeiras construções de uma nova comunidade, junto com a primeira venda e bem antes da primeira escola.


A idealizadora

Em Passos, assim como em qualquer cidade da região, as capelas mais importantes foram construídas nas estradas que ligavam o pólo principal da cidade, às grandes fazendas.

A Capela Senhor Bom Jesus da Lapa foi idealizada por uma moradora da região da Estiva que migrava da Bahia, muito devota do Bom Jesus da Lapa, santo padroeiro de sua localidade baiana. Essa pessoa que já morava por essas bandas já há algum tempo necessitava de uma grande graça e, ao invocar o seu santo de devoção foi logo atendida, e para tanto tratou de pagar sua promessa. Montou o que seria mais tarde a Capela Senhor Bom Jesus da Lapa, utilizando tecidos no formato de uma tenda, onde passou a louvar e agradecer a graça alcançada.

No local, juntamente com outras pessoas do lugar, rezavam a Deus por suas famílias. Depois de algum tempo, comovidos com a fé daquela mulher os moradores da região incumbiram-se de construir uma pequena capelinha em alvenaria devido a um morador possuir uma pequena serraria nas redondezas. Daí formou-se a comunidade Bom Jesus da Lapa que permanece até os dias atuais”, contou Graça por meio da pesquisa realizada.

O local escolhido foi no entroncamento das duas principais estradas da região, uma que seguia para o estado de Mato Grosso passando por Araxá e a outra que seguia no sentido contrário, para Passos. Nessa época o movimento maior das pessoas que ali viviam era em Ponte Alta, distrito de Delfinópolis, devido à sua localização, lembrando-se que naquela época não havia ainda a represa de Peixotos, o que facilitava o acesso à localidade.

Em 1913 os fazendeiros da região se mobilizaram em prol da criação da Capela Senhor Bom Jesus da Lapa e, por isso, formaram uma comissão com o intuito de angariar fundos para a construção da capela como se apresenta até nossos dias, graças ao trabalho, dedicação e fé no santo padroeiro da localidade do Boqueirão ou Estiva.

Por aqui passaram vários padres, alguns permaneceram por muitos anos e outros bem rapidamente. Dentre eles, o Monsenhor Messias Bragança, o Monsenhor José Maria Matias, os padres José Pires, Geraldo Rezende, Arnaldo Bellucci e Eduardo Pádua. Na década de 1950, nos tempos áureos das festas do Bom Jesus a comunidade recebeu com muita festa e orgulho a visita do Bispo Dom Frei Inácio João Dal Monte, na época das Missões Redentoristas”, contou Graça.

No início da capela o local não tinha energia nem água o que dificultava muito as coisas, mas nem por isso a fé era menor, ao contrário, as festas do Bom Jesus da Lapa eram muito animadas, mobilizava todos os moradores da região do Boqueirão, sejam eles fazendeiros, colonos, moradores, sitiantes ou meros visitantes, pois a devoção era reconhecida em Passos e região.

No início da capela a missa era celebrada somente no mês de agosto e nos outros meses a capela ficava fechada, somente Dona Chiquita que a abria uma vez ou outra para arejar um pouco, porém no dia da missa as pessoas vinham rezar e agradecer por graças alcançadas. Nesta época quem morava na casa em frente da capela era dona Joana do Hachide que havia se mudado para aquela localidade devido ao clima, para tratamento do filho e sendo comerciante montou uma mercearia em frente à capela.

O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis e criação do logo de Armando Vidigal. O vídeo desta igreja pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-capela-bom-jesus-da-lapa/


Família decidiu manter e reformar a capelinha

PASSOS – Conta-se que em 1948 o casal Aureliano e Amélia ao comprarem o sítio onde está localizada a capela, capinou o mato que ali tinha crescido e deste período em diante, com a ajuda de muitos fazendeiros da região, propagaram ainda mais a devoção ao Bom Jesus da Lapa. A partir daí, as missas na capela passaram a ser celebradas todo terceiro domingo do mês, sendo que a cada mês um fazendeiro oferecia as quitandas para o café do padre que era servido rigorosamente pelo casal, por viver em frente à igreja.

Mais ou menos dois anos depois de meu pai Aureliano ter se mudado para a casa em frente à igreja foi que conseguiu encanar a água e levar até a capela, o que possibilitou a construção da parte que hoje é a sacristia. A energia foi colocada com o dinheiro arrecadado por Francisco Pereira e Domiciano Fernandes da Silveira, além de outros colaboradores os quais foram atrás de doações dos fazendeiros da região. Nessa época, tanto as festas quanto as missas e novenas tinham uma grande participação das pessoas do lugar, o que nos traz uma eterna e gostosa saudade. Era realizado com uma enorme devoção o mês de Maio com o terço, todas as noites, sempre entoados com muita devoção por Francisco, o Chiquito e a novena em agosto em louvor ao Bom Jesus da Lapa”, contou Graça.

No encerramento do mês de maio as professoras do grupo escolar preparavam as crianças para a coroação de Nossa Senhora e a celebração da primeira eucaristia. Todas as professoras moravam na cidade, porém não se preocupavam em trabalhar nesse dia, que para elas era momento de louvor e devoção. O transporte das professoras, seus alunos e moradores da usina era gentilmente cedido pelo dono da usina Francisco Avelino Maia, grande benfeitor da capela. Depois de seu falecimento tudo isso acabou.

No mês de maio e em agosto Monsenhor Matias ia para a capela na tarde de sábado pousava e só retornava depois da missa das dez para a cidade, não antes de ir almoçar na fazenda de quem era responsável por aquele dia. Na noite de sábado ele atendia as confissões e no domingo celebrava duas missas. Eram missas com uma grande participação de fiéis de todo lugar. Quando era o dia da festa logo depois da missa das dez o povo saia em procissão com o andor que levava a imagem do Bom Jesus caminhando pelo pasto, no trajeto previamente marcado por Aureliano que ia a frente levando a cruz, o que para ele era motivo de enlevo, misto de devoção, agradecimento e porque não de honra e, Chiquito puxando as orações e os cânticos religiosos da época. Nesse dia também eram realizados os batizados, sacramento este que as mães aguardavam com muita ansiedade, pois nos anos de 60 e 70 ocorriam num espaço de 3 em 3 meses.

No dia do padroeiro era realizada a parte festiva com a realização da quermesse e o leilão de gado com a renda revertida toda para a paróquia que, naquela época, pertencia à Paróquia de Nossa Senhora da Penha. Atualmente a capela Senhor Bom Jesus da Lapa pertence à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, a qual foi desmembrada da paróquia da Penha no ano de 2.000. Atualmente o pároco responsável é Valdenísio Justino Goulart, que, por conta da pandemia, não tem realizado missas na igrejinha.

O gado arrecadado pelos festeiros em doação, o que era muito aguardado pelos doadores, eram leiloados no curral da fazenda de Francisco Pereira. A quermesse era muito animada, todos da comunidade participavam, as prendas eram arrematadas pelos presentes e era notória a presença dos fazendeiros que se misturavam aos colonos. A festa era prestigiada pela população de Passos e municípios circunvizinhos. O maior sucesso eram os cartuchos, de todas as cores recheados com deliciosos doces caseiros.

De acordo com a lenda, a definição do próximo festeiro dependia da escolha do padroeiro que indicava ficando o mastro do santo virado para a localidade onde o mesmo residia. Este mastro era erguido no sábado à noite logo após a missa das 19h e era somente no dia seguinte que se ficava sabendo qual seria o festeiro do ano seguinte.

As fazendas e suas colônias ao redor da capela eram Usina Rio Grande, Tonico Cicilia, . Dona Nina (Gaspar Andrade), Barra Doce, Manuel Maia, Sano Maia, Conceição Lúcio, Dona Fausta, Osmar Lourenço, Tião Lourenço, Zé Lourenço, Osvaldo Lourenço, Zé da Beca, Geraldinho Maia, Benedito Maia, Chiquito Maia, Bragança, Estiva, Cachoeira, Varginha, Centro e grupo escolar.

O mundo mudou, os sitiantes e lavradores foram aos poucos procurando o conforto e as oportunidades dos centros urbanos, as vendas das estradas fecharam e as escolinhas se acabaram depois que os canaviais foram substituídos por culturas rotativas que empregam pouca mão de obra. Comunidades fortes como a Usina Rio Grande e outras, que chegaram a ter muitos moradores, não existem mais, de algumas não sobraram nem ruínas. Mas as igrejas continuam lá, muitas tão vistosas e conservadas quando na época em que foram construídas, como a do Bom Jesus da Lapa.


A capelinha é lugar mágico e de muita fé

 PASSOS -João Baptista da Silveira, 80 anos, engenheiro aposentado, viúvo, residente em Belo Horizonte, era casado com Regina Discini Silveira e teve 2 filhos: Helena Discini Silveira e Daniel Discini Silveira. Em entrevista à reportagem do Roteiros da Fé, ele contou ter nascido em 1940 e que chegou a morar no Boqueirão até 1950, quando a família se mudou para outra Fazenda (Fazenda Santa Cruz), em outro local.

Aquele lugar era chamado de Boqueirão, mas também tinha o nome de Fazenda da Estiva. Era uma região que você podia percorrer a pé ou a cavalo, sem muita complicação. Ali o automóvel ainda não havia chegado. As famílias eram numerosas. Para se ter uma ideia, minha avó materna teve 14 filhos. As casas naquela época não possuíam água encanada ou rede de esgoto. E, neste mágico lugar, uma vez por ano, por volta do dia 6 de agosto, havia uma grande festa do Senhor Bom Jesus da Lapa, o padroeiro do local. Era aguardada o ano inteiro”, contou Silveira.

O engenheiro, contou algo bastante importante, que a capela foi construída por seu bisavô, Domiciano Julio da Silveira, por volta de 1913.

Excetuando a época da festa, as pessoas se reuniam na igrejinha para novenas, mas isso não era regular. A igreja ficava fechada, mas havia sempre um grupo de pessoas que zelavam pela igreja, faziam a limpeza e ornamentação e guardavam as chaves. Quem quisesse poderia pegar as chaves com essas pessoas. Ali no pátio dentro dos muros da igreja havia um cemitério de anjos: era um cemitério para crianças até 7 anos”, informou.

Ainda de acordo com o antigo morador da fazenda, a festa tinha tanto a finalidade de celebração religiosa quanto de confraternização. No dia da festa saía um padre de Passos para celebrar a missa na igrejinha. Nos demais dias a igrejinha ficava sem padre e fechada.

A festa era um mar de gente, ocupava todos os recantos. Gente alegre, que ia para se divertir e confraternizar. Era um ambiente seguro, eu nunca vi uma briga, roubo, acidente ou qualquer forma de violência acontecer durante aquelas festas. Não havia policiamento. As pessoas iam ali pela diversão. Havia bandas de música, alto falante (cornetas acústicas que ficavam penduradas em postes) que tocavam músicas na forma de um correio elegante: os moços ofereciam músicas para as moças como prova de amor. E havia o correio elegante de mensagens escritas. Era um lugar de paquera, de namoro, casais eram formados ali na festa. A eletricidade era obtida com bateria de automóvel e, posteriormente, com gerador elétrico”, disse.


Vestidos para festa

As moças se enfeitavam, as pessoas vestiam suas melhores roupas. Os mais abastados chegavam a cavalo ou em suas charretes.

Ali, as pessoas ficavam sabendo das novidades, vinha gente de fora (padre, banda de música, os boiadeiros, o pessoal do circo, pessoas de Passos). Havia um circo de tourada, banda de música, os boiadeiros, leilão com brindes oferecidos pelos moradores. Eu me lembro de Dona Erbrantina, que fazia doces. Era uma confeiteira de doces finíssimos. Ela chegava em nossa casa alguns dias antes da festa, onde ficava hospedada dedicando-se à produção dos doces, dos cartuchos para os leilões. Os doces eram muito finos, pintados à mão. O clima era de deslumbramento, de encantamento. Parecia um local mágico. Eram uns 3 dias de festa, mas o final de semana era o ponto alto, se recordou.

Os boiadeiros chegavam em seus cavalos ricamente enfeitados com peças metálicas de alpaca. Eles vestiam roupas brancas e usavam botas sanfonadas. Também traziam suas guaiacas (carteiras amarradas na cintura, como pochetes, feitas em couro) recheadas de dinheiro. Ali eram feitos negócios de compra e venda de bois e cavalos. Naquela região havia criação de gado.

Além dos doces e pratos arrematados no leilão o pessoal durante a festa comia churrasco, que era feito em valas muito compridas no chão. O carvão era colocado nas valas e, por cima, os espetos. O pessoal bebia cerveja e cachaça e as crianças bebiam guaraná (agitavam a garrafa, batiam um prego na tampinha e bebiam o esguicho). Na minha percepção de criança aquela igrejinha, o coreto, a árvore de Sassafrás, tudo aquilo era um deslumbramento”, diz saudosista.

 

Missal Romano (Fotos: Adriana Dias)