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Capela São Francisco, mais de 100 anos de história

Por Adriana Dias / Redação

3 de outubro de 2020

Foto: Douglas Arouca

PASSOS – Neste dia 4 de outubro, quando é comemorado o Dia de São Francisco, padroeiro dos animais e do meio ambiente, o Roteiros da Fé traz como o 13º vídeo da série a Capela São Francisco, que fica no bairro São Francisco, em Passos. A música escolhida especialmente é o ‘Estudo em Dó maior’, do violonista e compositor italiano do início do século XIX, Mauro Giuliani, gravada ao som do violão de Celso Faria. A capela tem mais de 100 anos de história de fé e devoção ao santo italiano.

Segundo historiadores, Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, teria nascido na cidade de Assis, na Itália, em 3 de outubro de 1.226. Foi um frade católico, e a comemoração litúrgica acontece sempre no dia 4 de outubro.
Sobre a capela em Passos, o livro de tombo aponta que a provisão da Capella São Francisco (grafado assim mesmo com duas letras L) aconteceu em 3 de maio de 1912, tendo, portanto comemorado em maio de 2020 exatos 108 anos. O pároco da época da provisão era Monsenhor João Pedro Ferreira Lopes, que era o vigário da paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos. Ainda segundo o livro, foi nomeada uma comissão que promoveu a construção da capela num lugar denominado Santa Cruz do Monte. A capella foi construída entre 1912 e 1915.

Contando ainda com o auxílio do livro de tombo, que atualmente está na Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos, com a pesquisa feita pela secretária Wânia Terezinha Maia, faziam parte da comissão de construção: Antonio Teixeira de Carvalho, Herculano de Souza Gomes, Júlio Soter da Silva, Antonio Rodrigues Soares e Pio Pinto da Costa. A Capela São Francisco pertenceu à Paróquia Nossa Senhora da Penha até o final do ano de 1993.

Em janeiro de 1994 foi desmembrada e passou a fazer parte territorial dos bairros: Santa Helena, São Francisco, Santa Terezinha e São Vicente, a pedido do padre Arnaldo Bellucci, e voltou a pertencer à Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos, a Matriz, sob os cuidados de padre Luiz Gonzaga Lemos.

O pároco de Nossa Senhora da Penha, Arnaldo Bellucci, na época em que a igreja pertencia à paróquia da Penha, fez algumas reformas, ampliou pouca coisa na igrejinha que era de telhas francesas, colocou uma porta a mais de cada lado (porta de aço) e uma laje na capela. A pintura externa era de tons amarelo e bege. Tinha duas peças originais: um sino trincado e a cruz, que continuam na capela, colocados por Cesar Tadeu Elias, quando a igreja foi demolida e reconstruída.

Ainda em 1994 foi iniciada a obra da nova Capela São Francisco, que, em 1998 foi consagrada, no dia 4 de outubro, tendo passado por uma grande transformação. O arquiteto Cesar Tadeu Elias foi o responsável pela obra erguida sobre rocha calcária no alto do morro para abrigar os fieis daquela comunidade.

De acordo com Elias, a proposta foi de uma construção rápida e, por isso, a obra foi executada em estrutura metálica aparente. Em 8 meses a construção foi entregue, já os acabamentos levou em torno de 4 anos. Pisos e paredes foram revestidos com granito, porcelanato e pastilhas brancas ou claras. Com capacidade para 800 fieis em sua nave, a igreja foi concebida com uma planta simétrica, em cruz, como as igrejas romanas. Instalaram-se, obras de arte encomendadas a artistas contemporâneos de Passos. O projeto fez parte da 4ª Bienal Internacional de arquitetura de São Paulo, sendo um dos 360 escolhidos e está na página 68 do livro da bienal.

Sobre a história da derrubada da capelinha foi um alvoroço e que, sua proposta era fazer uma obra na qual as pessoas iriam amar ou odiar.

“Eu me recordo que a primeira capela ficava no alto do morro, numa região sem habitações, o mais próximo era o Asilo e toda aquela área pertencia à igreja. Era um grande e íngreme morro e, praticamente toda área foi loteada pelo pároco de Nossa Senhora da Penha, Monsenhor José Maria Matias que usou os recursos para a construção do Santuário Nossa Senhora da Penha. Já, o padre Luiz Gonzaga Lemos, no período em que a capela São Francisco pertenceu à Matriz, ele encabeçou a obra da nova capela sem realizar uma quermesse sequer, sem vender nada da igreja. Ele fez com a doação arrecadada pelos fieis. Ele realizava uma missa semanal na qual pedia R$1. E, também ganhou um Fusca para ser leiloado. O sorteado do leilão doou novamente o Fusca à igreja para uma nova rifa e, desta forma, fizemos a nova capela”, informou Elias.

O projeto

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Com relação ao projeto, o arquiteto conta que é um amuleto.

“Era consciente de que quando nós mexêssemos na capela as pessoas iriam falar. Então, arrumei um motivo: ou iriam gostar ou detestar, de qualquer forma, falariam. Jogou-se no chão e foi feita outra. Fiz dali um amuleto. É uma peça cheia de significados. As cores laranja e azul são uma referência ao xamanismo, representando os opostos (quente/frio; ing/yang; céu/inferno; céu/terra). Ela começa com azul e termina com azul, a última faixa. E, todas as medidas da igreja são números cabalísticos. As alturas são de 7 metros, 9 metros e 13 metros. É uma cruz perfeita. É característica da arquitetura românica. Por estar no morro, optei por fazer as quatro fachadas idênticas. Se eu fizesse voltada para apenas um lado, ela ficaria de costas para os outros lados”, explicou Elias.

Seus quatro lados possuem cada um três portas que remetem a uma passagem do livro do Apocalipse. Nesta passagem fala que depois de todas as pragas do juízo final (isso que está acontecendo) 2/3 da Terra seriam dizimados, para o 1/3 que sobrou, eis que surge a cidade de Jerusalém, a cidade perfeita, num morro, e tinha 3 portas para o Oriente, 3 portas para o Poente, 3 portas para Norte e 3 portas para Sul.

“Na capela as portas recebem o nome de cada um dos 12 apóstolos que está escrito em latim. A porta principal é São Pedro. O único detalhe que diferencia a porta principal das demais é uma janela com uma rosácea feita por Messias Andrade em peça de aço no formato de uma estrela, que, na verdade é o Sol, representando São Francisco, o ‘Irmão Sol’. É uma escultura tridimensional. Do projeto original, o que não foi feito ainda, é a colocação dos 13 pára-raios, sendo 10 deles com estrelas nas pontas e o primeiro pára-raio do lado esquerdo é uma Lua, representando Santa Clara ‘Irmã Lua’. Ela é a criadora da Ordem Franciscana, pois a Ordem das Clarissas foi criada depois de sua morte. O 13º pára-raio é a cruz de 1912 em metal da igreja”, disse Elias.

A capela tem ainda uma grande cruz de metal na porta de entrada, que substitui o antigo cruzeiro do morro. Dentre as obras que foram feitas especialmente para a nova capela, estavam uma pintura do artista Wagner de Castro que retratou São Francisco e doou à igreja, ela tinha 70 cm x 1,90 metro. Atualmente não sabemos onde está. E, também foi colocado um painel gigante, de 6,40 x 4,60 de largura, atrás da pia batismal, hoje substituído por uma pintura de gosto duvidoso, que parece uma queimada, uma analogia com Foz do Iguaçu, árvores queimadas e flamingos, que nem são da nossa fauna, pintado pelos argentinos Mariano Stanco e Diego Stanco, e o painel pintado por Paulo Celso Denúblila, não está mais lá.. E, fico feliz em saber que a imagem original de São Francisco, aquela em que ele está pisando em um crânio (simboliza o Triunfo da Vida sobre a Morte) está no altar,”, garantiu o arquiteto.

Ainda conforme Elias informou, uma cruz processional trazida por ele de uma igreja desmanchada da Etiópia, na África, também foi colocada na igreja e, que não se sabe do seu paradeiro.
Para o padre Sandro Henrique de Almeida Santos, pároco da Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos, da qual a Capela São Francisco faz parte territorialmente, trata-se de uma igreja tradicional na cidade e tem uma comunidade vibrante e participativa.

“Aproveito o momento para convidar os interessados, que tragam seus animais de estimação, a partir das 9h, na praça do São Francisco para receberem a bênção. Em virtude do isolamento, por conta do coronavírus, o evento será realizado em formato de drive-thru”, informou o padre.

O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis, criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o 13º vídeo e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-capela-sao-francisco/