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Roteiros da Fé: Capela da Santa Casa, devoção e cura

7 de novembro de 2020

Foto: Adriana Dias

PASSOS – Um espaço reservado para que milhares de pessoas possam buscar o alento para suas dores e também fazer seus pedidos e agradecimentos. Esta é a Capela da Santa Casa de Misericórdia de Passos, que tem como padroeira Nossa Senhora das Dores. O templo religioso funciona dentro da Santa Casa e tem capacidade para 60 pessoas sentadas. Em 8 de novembro de 1864, portanto, há exatos 156 anos, teve início a história da religiosidade na entidade. Para abrilhantar o vídeo que vai ao ar pelo site clicfolha.com.br, o músico Celso Faria tocou ao violão o Estudo Andantino, de Mauro Giuliani.

Este é outro espaço religioso que não é possível falar sem referir-se à sua missão agregadora. A capela existe em função da Santa Casa de Misericórdia de Passos e tem sua história entrelaçada ao nome do Major Jerônimo Pereira de Mello e Souza, que veio de Lavras do Funil para Santa Rita de Cássia, onde residia antes de se mudar para Passos. No entanto, ele foi uma espécie de “passense de adoção”, pelo fato de ter se identificado com muitas coisas de nossa Vila.

De acordo com documentos da Santa Casa, em 13 de julho de 1859, a Câmara de Passos tomou conhecimento da ocorrência do surto de “bexigas”, na Freguesia de Carmo do Rio Claro, que pertencia a Passos.  Portanto, a fundação da Santa Casa de Misericórdia de Passos está mergulhada na crise da epidemia de bexigas, ou “peste das cataporas”, que assolou a região entre 1859 e 1863. A doença tornou-se grave em 1862 e acabou gerando pânico quando atingiu o centro da cidade. Aí, as lideranças do município se mobilizaram para dotar Pasos de um hospital que, na verdade, teria a dimensão de hospital regional, pois nas redondezas não havia qualquer outra casa de saúde.

Em 16 de outubro de 1861, a Assembleia Provincial de Minas Gerais sancionou a Lei no 1.115, criando um Hospital de Caridade em Passos. A iniciativa era justamente de Jerônimo Pereira de Mello e Souza, que usou de sua influência para pressionar os deputados provinciais. A lei estabelecia condições em seu artigo 3º:

O dispositivo na presente Lei só terá efeito depois que o cidadão Jerônimo Pereira de Mello e Souza tiver realizado sua promessa de doar em edifício adotado aos fins da Instituição, e com os precisos móveis e utensílios no valor de doze contos de réis e bem assim dotar o estabelecimento com um fundo de oito contos de réis que serão postos a prêmio em benefício da Casa“.

A Santa Casa foi instalada no sobrado residencial que ficava na rua das Flores, esquina do Beco do Padre Cintra (hoje rua Cel. Neca Medeiros, esquina com rua dos Maias). O hospital foi inaugurado em 16 de abril de 1865, já então denominado de Santa Casa de Misericórdia, que funcionou até 1904. Em Passos, a irmandade se organizou em torno de um “Projeto de Compromisso” (uma espécie de certidão de nascimento), elaborado em 1864. A Irmandade, vinculada ao culto de Nossa Senhora das Dores, a quem teve seu nome ligado, mereceu aprovação eclesiástica por meio da Provisão do Bispo de São Paulo, D. Sebastião Pinto do Rego, datada de 8 de novembro de 1864.

A Irmandade era a instituição que mantinha o hospital, na época de sua criação. Sua primeira fonte de recursos foi a boa doação do casal Mello e Souza no valor de vinte contos de réis, dos quais doze representavam o valor do edifício e instalações e os oito restantes deveriam ser aplicados em “apólices da dívida pública” ou outra forma de aplicação servindo os juros ou “a renda” para o custeio do hospital. Eram valores altíssimos para a época. Mas as rendas eram insuficientes para o custeio do funcionamento do hospital.

As irmãs da Divina Providência eram as administradoras e gestoras do hospital até o ano de 1917, quando foram substituídas pelas Irmãzinhas da Imaculada Conceição, cuja fundadora foi Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, Santa Paulina, que esteve por três vezes em visita a Santa Casa. A congregação entregou a administração do hospital em 1969, e o gerenciamento dos serviços de enfermagem, em 1972. Hoje desempenham um papel importante no Departamento de Assistência Religiosa e colaboram na Humanização Hospitalar.

A irmã Raimunda Tereza Nascimento que atua na coordenação da pastoral da saúde está em Passos há 23 anos e contou à reportagem que trabalha com centenas de voluntários, além das outras irmãs Verônica Nees e Geneci Bastos Santos.

Nós trabalhamos de quarto a quarto com os doentes na escuta, de cada um, às vezes mais dos acompanhantes do que dos doentes porque pacientes que muitas vezes nem falam mais, nem mexem, mas os acompanhantes precisam dessa presença, de um apoio espiritual”, explicou.

A capela da Santa Casa, de Nossa Senhora das Dores, está sob a territorialidade da Paróquia de Nossa Senhora da Penha, mas tem administração própria, da Irmandade da Santa Casa.

“Nossos voluntários são de todas as paróquias e de várias denominações religiosas diferentes e até mesmo voluntários vindo de Itaú e São José da Barra, de Itamogi que vem uma vez por mês fazer o trabalho”, contou a irmã que é da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, da Santa Paulina, que foi a fundadora deste trabalho da Santa Casa.

Atualmente a capela não está realizando missas por conta da pandemia, mas se mantém aberta para os interessados fazerem suas orações.  A irmã Raimunda lembra que, no Hospital Regional do Câncer, já está funcionando a capela da Santa Paulina, ainda de forma improvisada. Entretanto, o arquiteto Ivan Vasconcelos está fazendo o projeto de um espaço específico.

Além da imagem de Nossa Senhora das Dores, a capela conta com uma imagem de Santa Paulina, São José e Coração de Jesus. E também há uma relíquia de Santa Paulina, um pedacinho do osso do braço dela.  O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis e criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o 18º vídeo e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-c…la-da-santa-casa/


Capela já passou por diversas reformas

 PASSOS – A capela da Santa Casa tem o mesmo formato desde a fundação, mas, conforme a irmã Raimunda, passou por algumas reformas e pinturas. Suas paredes têm uma pintura em flores que, há alguns anos, foi coberta por uma tinta e, conforme Yasmin Polez, está em fase de estudos para a viabilidade de restaurar e deixar as pinturas à mostra.

Naquelas paredes amarelinhas têm pinturas e é a coisa mais linda. Há alguns anos, iam pintar de novo, mas quando começaram a descascar, viram que tinha uma pintura diferenciada, então até chamaram uma pessoa para tentar restaurar, mas estamos aguardando recursos para fazer”, informou a irmã.

A parte superior da capela, onde há muitos anos moravam as irmãs, está interditada também aguardando reforma.
Para a irmã Raimunda, a capela é um lugar de muita paz e de busca por orações.

Eu acredito que esse é um lugar muito bom para todo mundo, porque aqui não vem só católico, é uma capela que nós sabemos que é católica, mas não só eles que vêm. Os evangélicos, quando precisam de um lugar para fazer a oração, buscam aqui, pois é mais tranquilo e aconchegante. É um lugar que se faz muito necessário dentro de um hospital. Porque quando nós estamos dentro de um hospital, ficamos muito debilitados e frágeis, tudo parece que não vai dar certo, porque estamos com medo. Então, procuramos forças em um Ser Superior e procuramos Deus. Nós, católicos, procuramos Jesus, porque Ele é o nosso companheiro. E para outras religiões, eles também procuram esse Deus, e procuram muito aqui para fazerem suas orações também. E, para nós, como irmãos, tem um sentido muito forte a capela, porque, quando eu sento aqui e rezo, eu lembro muito que Santa Paulina esteve aqui. Para mim, tem um sentido muito forte nesse ponto, porque fico pensando: ‘Será que Santa Paulina, quando veio, estava sentada nesse banco aqui, nesse lugar?’. A gente faz muito isso, porque é uma lembrança. Por exemplo, na casa que eu moro, ela não esteve lá, mas aqui ela esteve. Então, para mim, é um sentido muito forte e acho que para muitas pessoas também faz um grande sentido”, salientou.

Sobre a vinda de Madre Paulina, agora Santa Paulina, a irmã contou que ela veio na fundação, para trabalhar. “Porque atuavam aqui as irmãs que eram do CIC, e elas foram embora, aí o provedor mandou buscar a irmã no Rio de Janeiro e não tinha as irmãs para virem para cá. Aí ele mandou para São Paulo, onde encontraram a irmã Paulina, em 1917”, disse.

Com isso, as irmãs vieram para assumir o trabalho. “As irmãs vieram de trem até São Sebastião do Paraíso e de lá para cá vieram a cavalo. E nisso a Paulina, ainda jovem, estava junto. Vieram, ficaram um tempo, quando as irmãs se adaptaram, assumiram o trabalho e ela foi embora. Porque ela era coordenadora e fundadora da congregação. Paulina é considerada a primeira Santa brasileira, porque ela foi registrada no Brasil, mas ela não é brasileira, é italiana”, contou a cearense, que está em Minas há 34 anos.

A religiosa lembrou que várias pessoas voltam para relatar as graças alcançadas com os pedidos feitos na capela.

As pessoas relatam que, graças a Nossa Senhora das Dores, graças a Santa Paulina, pedidos feitos em momentos em que estiveram na capela foram alcançados e as pessoas recuperadas, ou que parou o sofrimento. Eu sei de uma senhora que entregou o filho a Deus. Seu filho chegou em convulsão e na checagem os médicos começaram a achar que já não tinha mais condições de socorrer a criança. Aí ela diz que veio aqui com a fralda que ela tinha na mão e colocou ali (depois eu lembro até que encontrei essa fralda) nos pés de Nossa Senhora, pedindo que fizesse aquilo que faria com o filho dela. Porque o que ela podia fazer com o filho, ela já tinha feito e agora estava nas mãos de uns médicos e pediu que Nossa Senhora fizesse aquilo que ela faria com Jesus. E ela ficou aqui, porque na enfermagem pediram para que ela se afastasse. Ela ficou e depois vieram chamá-la dizendo que já estava tudo controlado e que a criança ia para UTI Neonatal e ela iria junto. E a criança não teve mais convulsões nem nada e se recuperou. Então, há pouco tempo ela veio e me mostrou a criança, que não tem nenhum problema, faz exames e dá tudo normal, sendo que os médicos disseram que ela ficaria cheia de sequelas e hoje não há nada. A criança é inteligente, estuda, brinca, como qualquer outra criança, é normal. Quer dizer, para ela foi um grande milagre
e foi Nossa Senhora das Dores quem fez, e nisso ela vem aqui todo ano, apesar de morar em outro lugar (moravam aqui, mas se mudaram). Ela disse que todo ano vem a Passos e vem aqui na capela. A última vez que ela veio, veio na capela, encontrei com ela. Ou seja, são vários relatos, eu me lembro mais deste, porque eu considero um milagre e ela também”, contou.


Capela tem obras dos séculos 17 e 19

PASSOS – De acordo com a historiadora Yasmin Polez, responsável pelo levantamento dos itens a serem restaurados, a capela conta com algumas obras de grande relevância histórica, como um quadro cusquenho (de Cusco, no Peru) ‘Cristo’, de autor desconhecido, datado possivelmente do século 17, e uma imagem de Nossa Senhora das Dores, em madeira, do século 19. Foi uma doação de Francisca Correa Barbosa, a Dona Chichica, em memória de seu filho Fernando Antônio Andrade Barbosa.

O quadro, provavelmente é uma peça do século 17, feita em técnica óleo sobre tela, com dimensões da tela de 173 x 100 cm com moldura 195 x 125 x 5 cm. A tela retrata Cristo crucificado, trajando perizônio na cor branca com barrado em arabescos, castiçais longos com velas em ambos lados do corpo, vasos com flores coloridas colocados em cima de um altar. Ao fundo, se notam colinas e o céu, e, na parte superior da tela, uma placa com a inscrição INRI. Estilo cusquenho”, disse.

Já a imagem de Nossa Senhora das Dores, também de autor desconhecido, e, datada, provavelmente do final do século 19, é originária de Portugal e talhada em madeira, medindo 150 x 52 x 47 cm. A escultura da figura feminina tem a cabeça erguida, levemente inclinada à esquerda, cabelos cacheados na altura dos ombros, feição triste, olhos abertos a olhar para o alto, nariz afilado, boca entreaberta, lábios ligeiramente caídos em sinal de dor, mãos sobrepostas ao peito na altura do coração, pés paralelos calçando sandálias. Veste túnica dourada com detalhes em policromia na cor vermelha e manto dourado com policromia em azul escuro. Base em cores verde e marrom. A imagem tem um resplendor e adaga em metal prateado e os olhos de vidro. Por longos anos a imagem ficou guardada e, em 1995, foi restaurada pelo artista e arquiteto Wilson Bacil.