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‘Ronaldo confiou na gente’, afirma Luiz Felipe Scolari sobre a Copa de 2002

13 de abril de 2020

SÃO PAULO – A Copa do Mundo de 2002, cuja final entre Brasil e Alemanha será reapresentada pela tevê neste domingo de Páscoa, às 16 horas, resgatou a confiança e a carreira de um dos melhores jogadores do planeta, o atacante Ronaldo. Ainda na Inter de Milão, seu joelho direito estava em frangalhos quando se apresentou. Héctor Cúper, técnico do time italiano à época, concordou em liberá-lo mais cedo para a seleção a fim de ele cumprir o plano de voo para sua recuperação.

“Ronaldo acreditou na gente, fez tudo o que se pediu a ele e foi um dos melhores da Copa”, disse o técnico Luiz Felipe Scolari, que comandou o time no Mundial da Ásia, disputado na Coreia e Japão. “O Ronaldo também sabia que aquela era sua chance de se recuperar fisicamente, de o mundo voltar a acreditar no seu talento com a camisa 9”, disse. E assim foi.

Ronaldo marcou os dois gols da decisão do Mundial diante da Alemanha, foi eleito naquele mesmo ano, pela terceira vez, o melhor jogador do mundo e se transferiu para o Real Madrid, onde permaneceu até 2007, após 177 jogos, com 104 gols.

Felipão contou que teve de tomar medidas importantes na formação do grupo, uma delas foi não levar Romário, aclamado por boa parte dos brasileiros. Ele chegou a essa conclusão após a derrota do Brasil por 1 a 0 para o Uruguai, em Montevidéu, em sua estreia ainda nas Eliminatórias. “Romário não foi bem em campo e ainda tivemos problemas de relacionamento com atletas.” Apesar do grande pedido popular, o Baixinho não foi convocado.

O treinador contou que sua maior preocupação era “fazer a seleção brasileira jogar bem, reconquistar o carinho da torcida e fazê-la acreditar de novo no time e ainda recuperar o respeito dos rivais”. Parece inevitável a comparação com o cenário do Brasil em 2002 com o que se vê 18 anos depois com o técnico Tite, agora comandante da seleção.

Há uma geração de brasileiros que não viu aquele time jogar. “Rivaldo era um dos nossos craques. Ele jogou demais. Fez coisas que não faria em situação normal. Contra a Inglaterra, quando Ronaldinho Gaúcho foi expulso, Rivaldo recuou para o meio e fez duas ou três funções”, ressaltou Felipão. “E olha que o Barcelona queria operar o joelho dele antes da Copa. Foi o Runco (José Luiz, médico do Brasil) que não deixou.”

Contra os ingleses, o mesmo Ronaldinho, hoje em prisão domiciliar no Paraguai por uso de passaporte falso, fez um gol sem querer que ele sempre defendeu ter sido proposital. Ele cobrou falta e a bola morreu nas costas do goleiro Seaman. “Ele conta que foi por querer, mas a mim ele não engana”, brincou Felipão que garante ainda ter contato com todos os jogadores e lamentou a fase do amigo.

 

Trajetória com jogos difíceis, antes do título

 

SÃO PAULO – Naquela Copa, a seleção jogou com três zagueiros, incomum ao futebol brasileiro. “O Geninho, técnico do Atlhetico-PR na ocasião, me convenceu de que era seguro e melhor. Então, tínhamos o Roque Júnior, que fazia cobertura como poucos. O Edmilson, que atuou de volante no São Paulo, e o Lúcio, que ia bem quando conseguia dominar a bola”, disse Felipão.

Até com o imprevisível, o treinador do penta disse ter contato. Ele relembrou a contusão do volante e capitão Emerson às vésperas da estreia com a Turquia. Ele se machucou brincando de goleiro num aquecimento. “Optei pelo Gilberto Silva e ele fez uma ótima Copa.”

O Brasil passou por Turquia, Costa Rica e China na primeira fase e, nas quartas, bateu a Bélgica por 2 a 0. Para Felipão, aquele foi o jogo mais duro em 2002. “A Bélgica não tinha nada a perder Era considerado um time frouxo, tranquilo e que ninguém acreditava. Mas jogaram muito bem contra a gente.”

Aquele time passou a ser chamado de ‘família Scolari’. Não foi Felipão que inventou isso. Ele diz que saiu da mídia, com quem releva ter tido boas resenhas durante a competição. Ele tentou fazer o mesmo em 2014, na Granja Comary, antes da derrota para a Alemanha, mas não conseguiu. “Em 2002, o ambiente era mais divertido, até unido. Parecia que todos estavam no mesmo barco”.

Nas imagens da transmissão hoje, o torcedor vai se deparar com um Felipão mais jovem e magro, mas com o mesmo espírito competitivo que o caracteriza. Ele tinha carinho especial por Marcos. O goleiro trabalhou com ele no Palmeiras e ambos se conheciam bem. Marcão ganhou a preferência entre Dida e Rogério Ceni. “Eram três excelentes goleiros. O Marcos tinha receio de errar. E foram os colegas mais agitados, como Luizão, Vampeta e Edilson que trataram de deixar o Marcos mais calmo e seguro. Com as brincadeiras, tiraram o receio dele.”

Marcos só não foi eleito um dos melhores do torneio na posição porque no time alemão havia Oliver Kahn, um arqueiro de gelo e com cara de metido. “Era gente boa demais. Depois nos aproximamos em outros eventos e ele era um cara doce, tranquilo”, comentou Felipão.

Ronaldo jogou com um corte de cabelo imitando o Cebolinha, personagem da Turma da Mônica, de Maurício de Souza. Fez isso para tirar a atenção de sua condição e preparação.

O treinador ressalta que o Brasil chegou muito confiante na decisão de 2002. Havia vencido todas as suas seis partidas antes e jogando bem. “A Alemanha teve duas boas chances antes da gente Era um bom time.” Ronaldo deixou para o final seu cartão de visita, aquele que o recolocaria entre os melhores de novo. Fez dois gols com ajuda de Rivaldo.