Destaques Dia a Dia

Roda da Fortuna

POR ADELMO SOARES LEONEL

12 de setembro de 2020

Há muitos anos atrás, mais precisamente na década de vinte, existiam em minha mui amada Capitólio duas pensões: uma delas pertencia ao meu bisavô Tunico Firmino, que, com a vó Môça, disputava a rala freguesia, constituída por esporádicos viajantes de tropa com a outra pensão do Tigusto (corruptela de tio Augusto). Esta nada mais era do que uma grande casa localizada à entrada da “cidade” (onde hoje funciona um supermercado), tocada pelo Tigusto e a Dona Maroca, excelente cozinheira, dona de casa zelosa, aliás zelosa até demais, pois não se ausentava nunca, nem mesmo prá ir à igreja. Seus cinco filhos, todos homens, andavam bem arrumadinhos, desde pequenos, com um parzinho de roupas bem limpas e passadas, catando um serviço aqui, outra tarefa ali, vivendo como permitia a difícil situação econômica familiar.

A chegada de um hóspede enchia a pensão de bulha, garantindo o dinheirinho das despesas do mês, dividido pelos gastos de um carteadozinho no salão do Ziquinha. A tropa ficava confinada na cocheira dos fundos do quintal até se ajustar um pasto próximo, como diarista. Banho de bacia, privada de fossa lá fora. Fogão de lenha, carne de porco em lata de gordura, lamparina de querosene, gritaria de sapos e grilos nas noites limpas, céu ostensivamente claro, contrastando com as montanhas escuras em volta. De quando em vez, uma cantoria de catira, um berreiro de truco ou dourada, uma quermessezinha na praça, um pagode mineiro quebravam a melancólica poesia do luar silente e teimoso que se esparramava nas telhas de barro das nossas antigas e rudes moradias.

Um belo dia, aporta na pensão um viajante de armarinhos, muito bem vestido, proveniente da capital. Recebeu-o o Tigusto, com sua tosse persistente e o espirro escandaloso, boca sem dentes nem vaidade, costas encurvadas. Arranjou-lhe acomodação, prestando-lhe, em seguida, todas as informações dos potenciais fregueses às suas mercadorias, se bem que, poucos dias atrás, passara um outro colega com os mesmos oferecimentos.

O comerciante se mandou para as pequenas casas de comércio, bares, no meio da rua, batendo de porta em porta, nas fazendas e sítios vizinhos. A coisa estava ruim, tudo sem dinheiro ou já estocado, sem precisão nenhuma. E assim transcorreram quatro semanas e nada de vendas. Desanimado, abriu o bico e desistiu, marcando para o dia seguinte a partida de tão malfadada região. Procurou o Tigusto e tentou explicar a situação de penúria:

-Pois é, seu Augusto. Não vendi bulhufas e o senhor é testemunha, portanto também não tenho um tostão para pagar minha estadia. Se o senhor aceitar, tá aqui este bilhete da loteria federal para saldar minha dívida, se não, fico devendo até uma próxima vez.

Receando nunca mais vê-lo, o Tigusto, contrariado, pois contava com aquele dinheirinho e havia lhe tratado a pão-de-ló, aceitou e, desdenhosamente, atirou o bilhete inteiro na gaveta da mesinha onde guardava suas escritas e seus particulares, passou-a a chave, despachando o mercador. Conformou-se rapidamente com o prejuízo, como bom jogador que era e continuou a tocar sua rotineira existência. Esqueceu-se do bilhete, sem nunca preocupar-se em conferi-lo, pois o noticiário sempre chegava atrasado, se chegasse, e os raríssimos jornais eram privilégio inalcançável.

Até que, certa feita, ouviu o comentário no Ziquinha de que o prêmio da federal não havia sido reclamado pelo distraído ganhador e o prazo para reclamar os cem contos de réis se expiraria em questão de um mês. Noite de azar no carteado, só perdeu. Voltou chateado para casa e lembrou-se, vagamente, do bilhete do viajante. Pegou-o, sem esperanças, e achou muito estranho a coincidência de alguns números com o dito pelo Ziquinho. Correu esbaforido e confirmou: primeiro prêmio da loteria federal ali nas suas mãos, tim-tim por tim-tim, algarismo por algarismo! Cem contos de réis!

Pra se ter uma idéia, um ou outro coronel da época possuía em bens e moeda o máximo de cinquenta contos. Transportar um conto demandava armas e acompanhantes, evitando as estradinhas perigosas. O Tigusto repartiu a dinheirada com os filhos que, com inteligência e trabalho, o multiplicaram comercializando gado e café, comprando terras, abrindo comércios nas cidades da região, principalmente aqui em Passos. Perguntem ao senhor Antônio Soares se é ou não é verdade esta história, origem de sua fortuna e de seus irmãos, já falecidos, Realino, Geraldo, Ferramenta e Vicente. Ah, ia me esquecendo! Só pra chateá-lo: perguntem também se tinha apelido de Padre.

Quando escrevi esta crônica não conseguia imaginar a reação do velho primo (tem gente besta por aí que fica nervosinha quando fatos ou retalhos do seu passado são revelados!) a quem eu não via há muitos e muitos anos. O filho Dagoberto telefonou, agradecido mas nem assim me tranquilizei, com medo da tremura dum bigode branco durante as bravezas – ah! esses udenistas!!! Suspendi as visitas até que, um dia, sem ter como evitá-lo, topei com ele e o abraço sorridente que veio de lá me redimiu da culpa infundada e vazia. Que alívio gostoso! Três dias depois, um uisquinho na sua sala sacramentou a amizade. O meu, ostensivo, chocalhando o gelo igual rabo de cascavel, o dele, pouco e puro, amoitado no pé do sofá, longe das vistas vigilantes e maternais da Dona Dora. Isturdia o “picumã no peito da fumaceira dos pitos” parou-lhe o coração. E o sô Antônio foi se curar lá em cima com a manteiga derretida no café fumegante da Tia Maroca!