Destaques Entrevista de Domingo

Robson Braga de Andrade – presidente da Confederação Nacional da Indústria

“Só a retomada das atividades garante a sobrevivência de empresas e empregos”

4 de Maio de 2020

Aos 72 anos, o empresário mineiro Robson Braga de Andrade, atual presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), recuperou-se do coronavírus (Covid-19). Apesar das posições alarmantes que setores da imprensa e da política têm divulgado sobre as mortes decorrentes da pandemia, o representante da indústria teme mesmo é um colapso na economia, sem precedentes, caso as medidas de isolamento não sejam flexibilizadas em todo o país, como defende o presidente da República, Jair Bolsonaro. Para Andrade, que concedeu entrevista exclusiva à Folha da Manhã, é preciso se estabelecer uma estratégia consistente para que seja possível promover, o mais rápido possível, uma retomada das atividades, em nome da sobrevivência das empresas e da manutenção dos empregos. Ao mesmo tempo em que governadores e prefeitos impõem quarentenas e confinamentos, o mercado vê milhares de postos de trabalho serem extintos.

O desemprego no país foi a 12,2% no trimestre encerrado em março, o primeiro mês em que o mercado nacional sente os efeitos econômicos do novo coronavírus, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira. O somatório de dados da CNI e do IBGE reforça a defesa de Andrade pelo chamado “isolamento vertical”, que prevê que apenas pessoas com exame positivo fiquem em casa. “O que precisamos é de previsibilidade, e que as medidas destinadas ao enfrentamento da pandemia sejam implementadas de forma transparente e célere. A pandemia pode causar uma onda de desemprego com consequências sociais sem precedentes”, alerta o presidente da CNI.

As previsões apontam que a taxa de desemprego no país pode até dobrar por conta dos impactos da crise do coronavírus em vários setores da economia. Apenas 16% da indústria não sentiram, até agora, efeito negativo do isolamento físico. Foram companhias que identificaram oportunidades na crise. Para aproveitar a manutenção das vendas, recorreram a representantes de vendas (34%), WhatsApp (31%), distribuidores (24%), shoppings virtuais e comércio eletrônico (14% cada), entre outros canais. Entre as que sofreram, 34% não conseguiram manter o ritmo das vendas. Mais de 20% tiveram as atividades temporariamente encerradas e 71% reduziram a mão de obra para equilibrar as contas.

As sugestões da CNI incluem medidas nas áreas de tributação, política monetária, financiamento, normas regulatórias e legislação trabalhista.

“O fechamento temporário de vários segmentos da economia, com o louvável objetivo de manter as pessoas em casa e diminuir a circulação do vírus, poderá inviabilizar muitas empresas. Empenho semelhante precisa ser aplicado para salvar empregos, especialmente na realidade atual, quando se prenuncia uma recessão de dimensões globais”, defende Andrade. O empresário, que está na presidência da CNI desde 2010, depois de ter presidido a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), ressalta que a entidade encaminhou ao governo federal um conjunto de propostas com objetivo de atenuar os efeitos da crise econômica.

As sugestões da CNI incluem medidas nas áreas de tributação, política monetária, financiamento, normas regulatórias e legislação trabalhista. O documento propõe, por exemplo, que os bancos públicos ofereçam opções para proteger as empresas dos impactos da desvalorização cambial provocada pela alta do dólar. A CNI pede ainda a facilitação, por parte dos bancos públicos e de desenvolvimento, do acesso a capital de giro. “Há, ainda, medidas que buscam ampliar o colchão de proteção do trabalhador em face do risco de desemprego, como a reativação do programa seguro-emprego e a ampliação do lay off, que permite a suspensão dos contratos de trabalho com a manutenção do vínculo empregatício”, diz o presidente da CNI, na entrevista a seguir.

Folha da Manhã – Há um debate, inclusive dentro do próprio governo federal, sobre o que teria mais prioridade nesse momento: salvar vidas, com o isolamento social, ou salvar a economia, com a retomada das atividades. Como o senhor vê essa dualidade?

Robson – O mundo está enfrentando a mais grave crise desde a 2ª Guerra Mundial, como bem comparou a chanceler alemã, Angela Merkel. As atenções dos governos, das empresas e da sociedade devem estar voltadas, prioritariamente, para preservar vidas, seguindo diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) com relação à Covid-19. Entretanto, é crucial que nos preocupemos também com a sobrevivência das empresas e a manutenção dos empregos. É preciso estabelecer uma estratégia consistente para que, no momento oportuno, seja possível promover uma retomada segura e gradativa das atividades empresariais. Além dos prejuízos sobre nosso bem mais precioso, a saúde, a pandemia pode causar uma onda de desemprego com consequências sociais sem precedentes – sobretudo no Brasil, onde pelo menos 12 milhões de pessoas já estão fora do mercado de trabalho. O fechamento temporário de vários segmentos da economia, com o louvável objetivo de manter as pessoas em casa e diminuir a circulação do vírus, poderá inviabilizar muitas empresas.

FM – Outra discussão dentro do governo federal diz respeito às medidas para a recuperação econômica e, acima de tudo, para a manutenção das empresas e empregos. Como o senhor avalia as medidas no campo econômico tomadas pelo governo até agora?

Robson – As medidas econômicas já anunciadas pelo governo precisam ser intensificadas. Em parceria com federações estaduais e com o Fórum Nacional da Indústria, a CNI apresentou diversas propostas de medidas cruciais para a atenuação da atual crise. O objetivo é dar condições para que as empresas resistam no período de restrições às atividades econômicas.
Apenas mantendo a viabilidade dos empreendimentos, será possível preservar os empregos já existentes. Nossas propostas se concentram nas áreas de tributação, política monetária, financiamento, regulação e legislação trabalhista. O governo já encampou diversas sugestões e, agora, estamos trabalhando pela aceitação das demais.

FM – Mas para que isso ocorra, faz-se necessária a retomada das atividades e o fim do chamado isolamento social. O senhor não teme um agravamento na crise da saúde, um aumento no número de mortes e o consequente impacto na economia, diante de números tão desencontrados sobre a pandemia?

Robson – Estamos empenhados em ajudar o governo a viabilizar o chamado isolamento social vertical de grupos de risco da Covid-19. A evolução de casos da doença na Coréia do Sul e na Alemanha demonstra que, se bem executada, essa é uma estratégia eficiente para promover o achatamento da curva de propagação do vírus, preservar vidas e reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Ao mesmo tempo, facilita a retomada das atividades produtivas.

FM – Os dados econômicos mostram uma clara redução do consumo provocada pelo isolamento da população, que está orientada a não sair de casa. A CNI concorda com as ações do governo federal no sentido de aumentar a demanda e não focar nas empresas industriais e de serviços?

Robson – O esforço, na nossa visão, deveria buscar também a melhoria das condições de financiamento e da ampliação do acesso ao crédito das empresas durante o período de queda das vendas, para garantir a sobrevivência dos negócios e permitir a manutenção dos empregos. Nas propostas, a CNI sugere também o adiamento, por 90 dias, do pagamento de todos os tributos federais, incluindo contribuições previdenciárias para reduzir a exigência de capital de giro por parte das empresas em um momento de retração das vendas; redução temporária das tarifas de energia elétrica, por meio de encargos setoriais e da utilização de bandeiras tarifárias; e redução dos depósitos compulsórios sobre depósitos a prazo e à vista. O uso de recursos públicos, escassos devido à situação fiscal, deve ser direcionado ao fortalecimento do sistema de saúde e ao alívio da situação financeira das empresas, para que se assegure a preservação dos empregos.

FM – A CNI também apresentou uma série de sugestões voltadas à legislação trabalhista para as empresas atravessarem crise. Neste momento, a simplificação do cumprimento de obrigações trabalhistas se torna um instrumento ainda mais essencial para se atravessar a crise e se preservar, ao máximo, postos de trabalho?O uso de recursos públicos deve ser direcionado ao fortalecimento do sistema de saúde e ao alívio da situação financeira das empresas

Robson – Apresentamos um documento que sintetiza, de forma objetiva e didática, as alternativas disponíveis que buscam simplificar as obrigações trabalhistas, como os acordos individuais de redução proporcional de jornada e salário, neste período em que empresas enfrentam forte queda no faturamento e dificuldades para honrar compromissos. Essa síntese está nas medidas provisórias 927, 936, 944 e 946, além das Portarias 139 e 150 do Ministério da Economia e a Lei n.13.982/2020, conhecida como a Lei do Coronavoucher. Esse conjunto de medidas reúne a possibilidade de suspensão do contrato do trabalho e de acordos individuais para redução proporcional de jornada e salário, a ajuda mensal compensatória a cargo do empregador, o benefício emergencial pago pela União e a garantia provisória de emprego.

FM – A CNI também propôs que seja criada uma linha de financiamento emergencial para médias e pequenas empresas com um teto de taxa de juros, carência durante o período de calamidade pública e prazo de pagamento longo. O acesso ao crédito e o financiamento para as empresas são o principal gargalo neste momento de crise?

Robson – O governo e o Banco Central tentaram aumentar a oferta de crédito público. No entanto, há um ‘empoçamento’ da liquidez nos agentes financeiros e os recursos não estão chegando às empresas. O Tesouro e o BNDES poderiam assumir o risco devido à complexidade do momento que vivemos hoje. A indústria tem necessidade de financiamento para o pagamento dos salários e do capital de giro. Esses dois são vitais para nós. Nossa proposta, baseada no Main Street Lending Program do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), prevê que as instituições financeiras públicas ou privadas fiquem com 5% do valor total dos empréstimos concedidos e o Banco Central, por meio da criação de uma sociedade de propósito específico, compre os 95% restantes, assumindo o risco. Além disso, sugerimos que fossem ampliados os índices de cobertura da carteira do agente financeiro (stop loss) do BNDES FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e do Fundo Garantidor de Operações, do Banco do Brasil.