Destaques Opinião

Respeito: quadrado ou redondo?

21 de setembro de 2020

A tecnologia é muito rápida e avançada para tudo. Quando menos se espera, já estamos ultrapassados. Mas existem valores para os quais que não se dão tanta importância. Não ligam a mínima e precisam ser mais bem avaliados.
Na área da comunicação humana, no trato com as pessoas no dia a dia, as coisas não funcionam bem na contextualizacão. O que antes era importante, no exemplo o respeito, e devia continuar valendo, afinal não está com prazo de validade vencido, infelizmente conceito e prática se veem condenados à lata do lixo.

E o respeito é peça-chave no inter-relacionamento pessoal. Seja na família, na sociedade, na política, na escola, na vida comercial. Em tudo. Não se trata de respeitar o avô, a avó, o pai, a mãe, o tio, a tia… Respeitar os amigos, os colegas. A todos. .Como está na Bíblia: respeitar o próximo. Em Efésios 6:1-3, vemos: – ”Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. “Honra teu pai e tua mãe” – este é o primeiro mandamento com promessa – para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra”.

Ainda assim, que confusão arranjam por falta desse timoneiro, desse guia que aponta caminhos, dessa baliza de capital importância no trato com as pessoas humanas. No preocupante, por que o respeito acabou ou está prestes a ir para o espaço? E outra: por que os jovens acham que sabem tudo e os mais velhos estão por fora? Não passam de ocupação de espaço físico, fazedores de horas extras por deliberação própria, meros objetos de descarte. Que coisa! Só porque a garotada tem habilidade em apertar botõezinhos aqui e ali, em teclas de comando de aparelhos e equipamentos de última geração, o que os mais velhos não sabem ou não dispõem de competência para tanto e se abre um divisor de águas… É isso? Os jovens são os bons. Os velhos são inúteis e nada sabem?

De fato, os velhos têm ligeira dificuldade com o avanço da ciência, da tecnologia, da cibernética. A cabeça não anda lá essas coisas. A coordenação motora não é mais a mesma. Tantas as preocupações, muita estrada percorrida, pulmões combalidos, pernas trôpegas, o caminhar lento. Entretanto, na hora do aperto financeiro ou lição conveniente de vida, aí, então, a história muda. A quem os sabichões recorrem? Não custa indagar. É recorrente. Certamente, aos ultrapassados. Aos velhos gagás, aos já na condição de tempo de validade vencido. Para isso os velhos servem. E muito.

E a aposentadoria, então? A aposentadoria merrecas é logo lembrada e direcionada “para ocasiões especiais”. Quando bobagens existenciais são praticadas na insanidade de vícios de conduta pelos “acima de qualquer suspeita”. No topo do escracho, e na maior, dizem: – “Ô, meu velho, a polícia me pegou no teste do bafômetro. Quebre essa. Vamos ao Banco fazer um Consignado. Sabe como é… Tenho que retirar o carro, pagar multas, guincho…”
Para isso o velho é útil. A sagrada e ínfima aposentadoria tende a ser lembrada como vantagem no conjunto de uma obra desigual. Um recado à juventude “touch screen”, aos gloriosos jovens de sonhos dourados: ensinem aos mais velhos o que sabem e conhecem em profundidade. Quem sabe a modernidade e o conhecimento tecnológico possam se unir à experiência de vida, à sabedoria, aos ciclos existenciais já palmilhados e vencidos. E, nessa junção, nesse intercâmbio temporal, possa haver intercomunicação da verdade, na tradução do zelo, do afeto e do respeito, fatores que devem ser prevalentes entre pessoas que nasceram em épocas distintas, a evitar-se o tão temido conflito de gerações.

Respeito é via de mão dupla. Portanto, devemos respeito e consideração uns aos outros. Não importa se velho ou novo. O respeito está no vértice, no caráter das pessoas, no âmago de cada um. E como mensagem aos não praticantes dessa ordem natural da vida, a lembrança: os velhos tiveram a chance e a felicidade de atingir o estágio da senilidade ou de velhice. Cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, ou mais anos. Chegaram lá. Pergunta para resposta devida e providencial. Pelo que anda acontecendo nesse conturbado mundo de tristes e lamentáveis circunstâncias – até mesmo por falta de amparo da boa educação de berço: – por acaso os senhores jovens têm certeza de que um dia chegarão à mesma condição de idosos para poder vivenciar suas nuances?

Pois é. O tempo, ainda na soberania de Senhor da Razão, e de tudo que há debaixo de estrelas e firmamento, poderá responder. E como o faz! Na perfeita ordem de uma boa contabilidade universal. Melhor do que a angústia do desespero antecipado é esperar. Aguardar a seu tempo por quem os sinos dobram. E o farão na certeza natural do devido espetáculo a quem de direito. O velho à velhice chegou. Em síntese é isso. Por ventura o jovem, considerando toda a sorte de venturas, aventuras e desventuras contingenciais, um dia chegará?

Exceção à regra de todo o contexto ora alinhavado, uma homenagem sincera ao jovem casal Piter Goncalves e Wanessa Silveira. Eles que veem e acreditam na possibilidade de parceria entre as gerações mais jovens e as mais velhas. Enfim, inovação com a experiência. Um físico de amadurecidas ideias pode se juntar à musculatura jovem e possibilitar uma relação harmônica, cuja base primordial de sustentação – sine qua non – é o respeito. E no que diz respeito à estreita ligação entre jovens e velhos, que se aplique a justaposição como medida segura e mantenedora da paz. Mais ou menos assim: juntar a compleição física do jovem à sabedoria dos mais velhos. Pode até acontecer de uma valsa transformar-se em rock. E vice-versa.
Por que não?

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos
nesta coluna