Destaques Opinião

Resgatando Clarice Lispector

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

24 de dezembro de 2020

Mantenho um costume antigo: anotar nas primeiras páginas de meus livros o momento em que os li. Lá está, portanto, descrito o início da leitura em 16.01.97 e o término em 28.02.97. Já se vão décadas desta experiência. Refiro-me a “Perto do coração selvagem”, um dos clássicos de Clarice Lispector, aliás, seu primeiro romance, logo na época em que terminou o curso de Direito, cuja carreira não seguiu. Prevaleceu a literatura.

Difícil me lembrar de detalhes da obra que possam me render uma análise maior, a não ser que era um romance que rompia com os estilos tradicionais então vigentes na literatura brasileira, quando publicado inicialmente em 1944.
Em seu transcurso, florescem os chamados fluxos de consciência da personagem e protagonista Joana, que conduz os fios de um enredo farto em reflexões que levam o leitor a entrar na atmosfera psicológica oferecida e pensar junto com a personagem.

Releio alguns trechos agora, no instante em que escrevo, e confirmo a tremenda força narrativa de todo o texto, no qual Joana aborda suas relações com a tia, o marido e um professor, além de outras circunstâncias. São mesmo páginas intensas em que ela, Joana, se deixa levar por pensamentos que parecem somente encontrar abrigo em seu próprio íntimo.

Descolada das felicidades comuns que se esperam e se cobram das pessoas, seu apoio era pensar, algo como uma válvula de escape e desabafo perante as frustrações e também como meio para exercer a liberdade máxima no único espaço que lhe era possível, o pensamento.

Percebe-se que o que mais importa na obra é o ato de narrar tais profundezas. Quaisquer fatos, por banais que o fossem, eram capazes de gerar páginas e mais páginas de reflexões. Cabe ao leitor usufruir desse poder narrativo e se tornar uma espécie de coautor da história.

Clarice Lispector me veio à lembrança há poucos dias, quando se comemorou o centenário de seu nascimento. Nascida em 1920, veio a falecer em 1977. Bastam pequenas pesquisas em seus dados biográficos, para se notar que Clarice talvez seja realmente a escritora brasileira — embora nascida na Ucrânia, recebeu, anos depois, nossa cidadania — mais consagrada nos cânones literários. Ela ostenta um grande núcleo de reconhecimentos, de admirações, e é a mais traduzida para outros países.

Clarice foi versátil, uma vez que transitou, em síntese, por gêneros diferentes, como romances, novelas, contos e crônicas jornalísticas, embora seja difícil enquadrá-la em quaisquer dos estilos, tamanhas as rupturas que seu instigante texto apresenta.

Em busca, pois, do resgate de sua leitura, experimento um livro chamado “Clarice Lispector na cabeceira”, em que grandes outros escritores, intelectuais e jornalistas escolhem, individualmente, sempre alguma de suas crônicas publicadas em revistas e jornais dos anos 60 e 70 e procuram justificar a apresentação do texto escolhido em poucas páginas, num misto entre as análises de seu estilo e as relações que mantiveram com ela.

Na coletânea que menciono, temos, então, de brinde, esses comentários excepcionais de seus próprios apresentadores, como os de Italo Moriconi, Ferreira Goulart, Diogo Mainardi, Caetano Veloso, Lygia Fagundes Telles, Marília Pera, Silviano Santiago e muitos outros.

Trata-se de um livro excelente para quem quiser conhecê-la um pouco mais ou até como introdução a toda sua obra. Já que crônicas, os textos escolhidos são bem sucintos e revelam, como em outros gêneros, a sua capacidade de extrair do corriqueiro o que há de profundo, de misterioso e fascinante.

Vejam, por sinal, a escolha do professor Italo Moriconi. Ele apresenta uma em que Clarice Lispector responde ao grande Armando Nogueira, mestre das crônicas sobre o futebol. Em um de seus textos célebres, Armando Nogueira se referia a Clarice Lispector, ao escrever que trocaria uma vitória de seu Botafogo por uma crônica dela justo sobre o futebol. Ambos eram colegas de redação no mesmo jornal.

Pouco entendedora dos assuntos da bola, Clarice responde a Armando Nogueira de maneira brilhante, num texto que não chega a quatro páginas. Segundo suas palavras, em espécie de “vingança carinhosa” ao colega, então o desafiava a “escrever sobre a vida”, não sem discorrer inclusive a respeito do futebol, que, para ela, também representava uma dos inúmeros filtros por onde enxergar a própria vida. Sempre provocadora. Sempre a nos mover os alicerces.

Em outra escolha, apresentada por um poeta carioca de nome Eucanaã Ferraz, cujo título é “Das vantagens de ser bobo”, em somente duas páginas, a excepcional Clarice nos faz plenamente imersos no paralelo entre dois dos mais opostos universos de pessoas que nos circundam: os bobos e os espertos.

Basta o título da crônica para se perceber que somente da cabeça prodigiosa de uma escritora fora de série poderia nascer um texto de tal natureza, ou seja, a percepção da vantagens de ser bobo.

Eis algumas de suas preciosidades: “O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.” “O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.” “Aviso: não confundir bobos com burros.” “Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na Cruz.

Vale mencionar ainda a escolha do veterano jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, que apresenta “Mal-Estar de um anjo”. Bem aponta Ferreira que Clarice é “sempre a palavra inesperada” … “ela quer remexer com sensações escondidas, desconfortos da alma…” A leitura da crônica de sua preferência o confirma com todas as letras.

Conheçam ou resgatem Clarice Lispector. Prosseguirei o meu resgate. Clarice é literatura plena injetada nos refúgios das veias. Neste 2020 tão marcante e que jamais será esquecido por suas controvérsias, crises, vítimas e árduos confrontos de ideias, sou grato à literatura.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna