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Relato de um general – Parte 2

Por MATEUS CARLOS ANDRADE

17 de julho de 2020

Ao sair, o cara veio me perguntar uns trens. Respondi nada com nada. Então ele percebeu e maiou a coronha nas minhas ideias. Fui rendido e preso dentro do quartel. Naquela hora, eu sabia que tudo tinha se lascado. Lá estava eu, amarrado a uma cadeira, olhando a cara do Hitler e do japonês, culiado dele, olhando um bitelo de um foguete: ele iria destruir metade das Américas com aquela arma.

Foi então que um soldado inimigo entrou tropicando e deu uns berros. Não entendi nada, mas sei que lá fora virou uma chuva de bala. Meus companheiros perceberam que já era de muita demora e que eu tinha me enrolado. Então, partiram para cima do inimigo. Enquanto o chumbo comia lá fora, os cabras começaram uma discussão do lado de dentro. Daí, o tirano se aprumou, puxou uma pistola, mirou bem pro meu rumo. Nesta hora, eu fechei os olhos e ouvi um baque, mas quando abri de novo, quem estava caindo era o salafrário, bem em cima de mim, que estava peado naquela cadeira.

Ao olhar pro lado, vi meu parceiro Antônio Carlos empunhando o fuzil. Olhou bem pra minha cara e num último sorriso amarelo foi fuzilado por uma meia dúzia de soldados que estavam ali dentro. O conterrâneo Antoin caiu estrebuchando no chão. O infeliz que estava em riba de mim tinha uma granada no cinto. Girei com as mãos pra traz e puxei o pino da granada. Com custo, me levantei meio cambeta. Corri para a porta, senti minhas costas e minha nuca pelando da explosão. Aquele baque me empurrou pra fora e fiquei misturado na poeira.

Quando comecei a aprumar, estava sendo levado de rasto pelo meu capitão e por um estrangeiro, acabávamos de dobrar um morro eles falavam: “Acabou, não acredito que conseguimos, vamos pra casa, amigos. Vamos voltar para a Canastra!”.

Entrávamos no helicóptero, enquanto os rapazes falavam coisas em outra língua, não aguentei e apaguei de novo. Acordei outra vez em um lugar muito branco e calmo. Ouvia ao fundo uma voz que parecia anunciar algo. Ao abrir os olhos, percebi que era uma casa bem típica do lugar que eu morava e quem anunciava era um apresentador de jornal, no pequeno rádio a pilha na mesinha do quarto.

Não pude deixar de notar que revelavam sobre um ataque bem sucedido de uma tropa dos aliados com alguns italianos e brasileiros nas fronteiras inimigas e o resgate de alguns poucos oficiais da infantaria.

Olhei para meus braços e meu corpo, e quanto às explosões restaram apenas algumas queimaduras. Quando abri a janela não me contive. Lá estava ela! A Canastra encheu meus olhos, que não se contiveram e transbordaram pelo rosto. Eu estava em casa!

Mais tarde, minha mulher e meus dois filhos vieram me buscar, pois já era hora de voltar ao lar. Ao sair daquela casa de repouso, precisava terminar minha missão. Fui pessoalmente à casa do amigo Antoin contar à família tudo que havia ocorrido. Emocionado, afirmei com toda minha certeza que ele estava num ótimo lugar, pois sua bravura salvou o mundo daquela tirania.

Naquela mesma semana, eu e todos os meus companheiros fomos honrados com um lindo desfile formal, com direito às honras da esquadrilha da fumaça e das mais importantes figuras militares e civis do País. Eu me tornara um herói nacional. Minha tropa havia feito história, estávamos novamente seguros.

Não só em mim, mas em toda a nação reinava a sensação de voltar novamente ao conforto dos lares em segurança. O esforço até aqui valera a pena. O que ficou de mais importante foi a lição de persistência que inspiraria por muitas gerações todas as nações do mundo.

Ainda hoje, o nosso Memorial fica estampado nas terras da Europa mostrando que o povo brasileiro, e sobretudo o mineiro, antes de tudo, é forte e repleto de compaixão!
*(Homenagem aos heróis da Serra da Canastra convocados da Segunda guerra)

Essa e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br