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Relato de um general – Parte 1

POR MATEUS CARLOS ANDRADE

9 de julho de 2020

No breu da noite, dentro d’agua, encharcado, perdi o nome que meus pais me deram e em troca, ganhei um número. Na água gelada da praia, eu batia queixo. Era como mergulhar na Casca D’anta em pleno inverno. Frio, incerteza, medo? Medo, não! Não havia tempo pra isso. Não estava sozinho, tinha vários companheiros de mesmo nome, mas números diferentes; isso nos fazia irmãos, mas ainda tinha muita água pra rolar.

Foram três semanas passando perrengues na fronteira com a Áustria. As tropas alemãs que derrubaram o governo invadiram o território Austríaco e destruíram qualquer resistência. Mas eu e meus irmãos de armas fomos dignos de chegar até lá. Nosso dever era apoiar nossos aliados e assim foi… Estávamos cercados! Impossível sair sem ser pegos, munição e outros recursos eram regrados. Era necessário criar uma estratégia, pois ao ultrapassar aquela linha inimiga sairíamos do vale, assim as munições e a comida chegariam de avião, aí a gente ficaria à frente no conflito.

Passados meia dúzia de dias, cercados e recuando, prestei atenção em uns trem por lá… Como, por exemplo, uma base dos oficiais inimigos, além de alguns esbarrancados que serviriam de flanco para nosso esquadrão atacar os adversários despercebidos, possível ponto estratégico para tentar acabar com o inimigo pela raiz.

O comandante, que era italiano, arrumou um plano de investida. Eu e meu conterrâneo não estávamos ali à toa. Nós éramos parada dura nas bases de treinamento lá em Juiz de Fora. Tanto que o Comandante Fahur — que apesar de ser militar brasileiro, era descendente de italianos — sabia da necessidade de bons combatentes pra mudar a perspectivas dos aliados na guerra.

Foi assim que ele contatou seu primo, comandante de uma tropa prestes a ser enviada para o campo de batalha, me tirando assim, da calma e das certezas da Serra da Canastra. Também meu companheiro Antoin Carlos, vizinho do distrito de Cabrestos que, assim como eu, era nego duro cuidando da família.

Nós tínhamos esperanças: dar um motivo para esse nosso povo sorrir e conseguir gritar suas qualidades para o resto do mundo. Então no dia 8 de maio de 1945, amoitados num matagal no Norte da Itália, o Sargento Antônio Carlos — meu amigo brasileiro — escutou pelo seu aparelho de rádio: “Soldados se preparem! Em meia hora, o patrono Hitler e seu aliado Hirohito chegarão a essa base para elaborar o plano do golpe final. A guerra depende desse evento, a postos!

Deveríamos nos infiltrar nessa operação e acabar com o plano dos nossos oponentes, pois pela seriedade da mensagem, esse plano daria facilmente a vitória a Hitler. Capitão Enrico queria me levar para dentro daquele tal quartel. Eu era osso duro de roer, enquanto o resto da tropa ia na linha de frente, me apoiar na hora de sair, quando aquela empreitada tivesse acabado. Não havia espaço para erros. Era uma passagem só de ida, ou seja: tudo ou nada! O destino do mundo estava em nossas mãos.

Ao invadir a base dos oficiais, acabaria com aqueles dois marmotas com minhas próprias mãos. E lá estava 259 eu de butuca, na friagem, o dedo pedrado no gatilho metálico. Meu objetivo já estava à vista. Era só arredar um soldado do caminho, entrar, dar o sinal para o resto da tropa e o sucesso seria iminente. No entanto, não foi bem assim… Engastaiei o pé no capim e fui visto, mas eu era bom na mira e mandei chumbo! Um tiro, e o homem deitou. Mas todo mundo escutou o disparo. Então arrastei o caboclo pro mato e roubei sua farda.

Outro veio pra ver o que tinha acontecido, mas eu, já trajado de alemão, fingi que era da turma, e inventei que estava tendo um troço. Assim pude correr pro banheiro do quartel. (Continua na edição da próxima quinta-feira, dia 16)

Essa e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br