Destaques Dia a Dia

Rebelde

POR ADELMO SOARES LEONEL

6 de fevereiro de 2021

Eu tinha dez anos e morava em Piumhi onde me formara com todas as pompas e luxos no Josino Alvim, conquistando o diploma da quarta série do grupo escolar. Chegara o grande momento do desmame e, dentre as opções constantes para continuidade dos estudos, escolhi o Seminário Diocesano de Luz, sede do nosso bispado. Padre, na época, era sinônimo de respeito e acato (ainda é) disputando a hierarquia em autoridade com prefeito, juiz e delegado e eu, ex-coroinha e cantor nas coroações de Nossa Senhora nos meses de maio, filho de vicentino, entrei de sola.

O carro do Zé Baiano, pracista de confiança, estacou ao nascer do sol defronte ao alpendre de casa engolindo a bagagem levada pelo meu pai. A mamãe, coitada, nem quis sair do quarto no intuito de me ocultar o chôro e no cúmulo do azar, o velho se descadeirou ao carregar a mala mais pesada e se acamou também, desistindo da viagem. Quando o táxi arrancou me senti jogado de repente no mundo, umbigo cortado de uma infância nas correrias gostosas pelas ruas de Piumhi, nadando nos ribeirões dos arredores, sofrendo de amores pela menininha linda e magricela, briguinhas de turma, futebol e matinês dominicais.

A paúra veio com a poeira da estrada, melancolia infinda em cada árvore que passava, nos animais beirando a cêrca, no próprio brilho amarelado do sol que aumentava a dor pesada no peito e a dificuldade de respirar e segurar as lágrimas ao mesmo tempo.

Chegamos e havia um rebuliço enorme da criançada no pátio entre o Seminário e o Palácio Diocesano, descendo os badulaques, sendo catalogados pelos padres e bedéis, indicando as camas de cada um no dormitório e conhecendo os cantos da nova morada. Meu desalento continuava ainda mais quando descobri um campinho de futebol mixuruco e improvisado, banhos frios e um tal de feijão branco diário e sempiterno ao qual nutro antipatia até hoje. Arrumar a cama de madrugadinha sem chance de curtir um nadica da preguiça, a missa assistida aos bocejos e aulas e mais aulas de latim, português, francês, música etc.

Ah! Tudo sob a batuta tacanha e milica do Cônego César, capelão do Batalhão de Polícia de Bom Despacho, bravo como um javali (aliás até meio parecido). Nos poucos momentos de recreio onde podíamos conversar, exigia-se comedimento, punindo- se com pitos públicos qualquer estridência dos gritos de infância. Até nas refeições, todos caladinhos ouvindo um leitor solitário (e faminto) lendo textos e biografias de santos numa voz especial no timbre e tonalidade do canto gregoriano.

Não tinha como repartir e desabafar minha tristeza: o diretor espiritual era um lasca de um carecão (Padre Jonas) que nos ensinava muito mais as punições do inferno; o Con. César, nem pensar que até mesmo uns tapas vinham às vezes nas reclamações; o Dom Manuel, velhinho e meio adoentado, bondade pura abriu um sorriso quando tentei lhe chorar as mágoas e aquilo me exasperou; o bispo auxiliar Dom Belchior, sobrecarregado com as tarefas pastorais, não tinha tempo prá perder com os choramingos da gente, mesmo porque só lhe mostravam a beleza do coral, os latins decorados e a disciplina rigidamente seguida.

Certa tardinha de domingo, sozinho à sombra de uma castanheira na horta, música tristíssima vinda de um alto- -falante da cidade tomei a decisão. Expus meu plano ao Júlio Arantes, um colega também de Piumhi que me animou a tocá-lo adiante.

Como nossas correspondências eram previamente censuradas pelo cônego (teve um tio de aluno que lhe escrevia semanalmente tentando convencê-lo a abandonar o seminário e este jamais tomou ciência das cartas) me esgueirei até a residência dos bispos e subornei uma funcionária simples e humilde para que expedisse um telegrama em segredo ao meu pai (o telefone ainda não chegara). Nele eu dizia: “Venha Urgente. Motivos Leves.

Na mosca! Lá pelas tantas da madrugada surge o ronco da Rural-Willis do Padre Alberico e o barulho das portas batendo. Ele e meu pai descem esbaforidos e acionam a campainha. O cônego aparece e dali a pouco me acorda com um chacoalhão e se posta junto aos visitantes aguardando minha fala. “Cê besta que eu ia me abrir com ele perto!
Negaceei. Disse que não era nada não.

Tentei negar o telegrama… Meu pai percebeu, desceu com o padre até à Rural e esperou um pouquinho quando eu me desabalei numa carreira doida até eles e soltei lágrimas represadas por muito tempo, implorando me levassem junto. Custaram a me convencer na espera de mais alguns dias quando se encerraria o período letivo com a promessa de uma tranferência certa para outra escola.

A partir daí meu conceito subiu junto aos colegas (o maior pedaço de carne vinha ao meu prato, capitão do time, caderno passado a limpo), o cônego nunca mais deu um grito comigo, o que facilitou suportar o resto do acordo paterno.