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“Não podemos ser prefeito de um deputado só”

Por Adriana Dias / Redação

1 de fevereiro de 2021

O médico Paulo César Vaz assumiu em janeiro a prefeitura de Piumhi e também a presidência do Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Microrregião de Piumhi e disse enxergar na união das cidades a saída para compras coletivas mais baratas. / Foto: Divulgação

Paulo César Vaz, 34 anos, natural de Gurupi, no Tocantins, mora em Piumhi há 8 anos. É casado com Fernanda Helena Craide, com quem tem os filhos Julia e Rafael. Graduado em Medicina pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro em 2010, cursou especialização em Ortopedia e sub-especialização em Cirurgia do Trauma Ortopédico e Cirurgia do Joelho. Membro da Sociedade de Ortopedia e Traumatologia Brasileira e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho, o médico é proprietário da Clínica WS, em Piumhi, porém, está afastado para cumprir a função de prefeito de Piumhi, eleito em novembro de 2020, cargo que assumiu em 1º de janeiro de 2021.

Quando não está trabalhando, quer seja em sua profissão como médico, ou agora, na função de chefe do Poder Executivo, gosta de ficar com a família e ir para a fazenda, buscar alívio e novos ares junto à natureza, para pensar ações maiores e melhores para a cidade. Entre uma reunião e outra, em Belo Horizonte, durante o início desta semana, Dr. Paulo, como é conhecido, atendeu à reportagem para falar sobre esta sua primeira incursão na política eletiva e quais são os caminhos para a Cidade Carinho.


FM – Esta é a sua primeira atividade na administração pública?

Dr. Paulo – Eletiva sim, é a primeira vez que sou eleito para um cargo público, porém, já estive como secretário Municipal de Saúde entre 2013 e 2016 na prefeitura de Piumhi. Fui filiado ao Democratas do qual o presidente à época era o deputado e agora presidente do Sebrae, Carlos Melles. Depois teve uma troca de presidência e minha filiação atual é no Progressistas (PP).


FM – O senhor sempre acompanhou as questões políticas de Piumhi? Algum político na família?

Dr. Paulo – Sempre busco ficar antenado com as questões políticas de onde moro. No caso de Piumhi, em especial, meu sogro Wilson Marega Craide, o Craidinho foi prefeito e sempre foi um político bastante atuante. No mandato dele foi quando ocupei o cargo de secretário de Saúde. E, por ser uma cidade menor, grande parte da população é antenada às questões políticas. A proximidade que as pessoas têm com os vereadores, prefeitos, é mais fácil, diferentemente de uma capital, quando esta relação é mais distante. Entendo a política como a base de tudo e responsável pela transformação da sociedade.


FM – O que o levou a se candidatar a prefeito de Piumhi?

Dr. Paulo – Foi justamente o apelo popular. Estavam no clamor de me ver à frente da prefeitura. Este foi um dos pilares, pois a minha vontade pessoal também foi levada em consideração, claro. Esta combinação destes dois fatores foi importante. E, entendo que este clamor da população deva ser por conta do período em que estive como secretário de Saúde. O trabalho junto com a equipe pode ter sido o que me creditou a vencer as eleições. Também a questão familiar, minha atuação como médico da Santa Casa de Piumhi. São todos estes fatores.


Folha da Manhã – O senhor foi eleito com 53% dos votos. Imaginou esta votação, mesmo concorrendo com outros dois candidatos?

Dr. Paulo – Posso garantir que estava seguro da votação, mas não em relação aos números, mas confiante. Via na vontade popular esta mudança. Sem desmerecer os dois concorrentes que disputaram. Minha percepção se concretizou.


FM – Quais os principais gargalos que a administração pública de Piumhi tem, em sua visão?

Dr. Paulo – Com certeza, hoje, é o enfrentamento da pandemia, que levou a uma desestruturação completa do setor de saúde. Estamos buscando reestruturar este setor com aquisição de kits, verificar o perfil epidemiológico da população, dar suporte necessário às pessoas e como médico volto os olhos para isso. Mas, claro, não posso deixar de enxergar a cidade como um todo, como asfaltamento, que já iniciamos; drenagens pluviais. A limpeza urbana que é um questionamento bem pesado da população. A cidade estava suja, portanto, montamos uma frente de trabalho para dar esta atenção logo no início da gestão. E, assim que a situação se normalizar, vamos correr atrás de obras e outras prioridades, tais como a doação do prédio do Fórum – que é de propriedade do Estado de Minas Gerais e passar a ser da prefeitura -, para realocar melhor os serviços prestados à população. Outra prioridade é o asfaltamento da rua Severo Veloso. Quero também implantar o transporte público em Piumhi.


FM – Como tem em mente resolver estes problemas?

Dr. Paulo – Com muito esforço e trabalho, que é justamente o que estamos fazendo. Precisamos dimensionar e equalizar os gastos públicos para ver se o que está sendo gasto é de forma efetiva. Se o dinheiro está sendo investido em benefício da população. Neste momento em que respondo, estou voltando de Belo Horizonte, onde tive audiências com deputados e secretários buscando recursos do Estado, do governo Federal para fazermos todas as melhorias às quais estamos nos propondo a fazer dentro do planejamento do que queremos e onde queremos chegar, com uma Piumhi melhor. Com transporte coletivo, dois postos de saúde, com serviço de hemodiálise, com o asfaltamento de diversas ruas, ao menos, tirar do papel o projeto da Avenida do Contorno – que é ousado -, ligando duas rodovias estaduais. Atrativo de indústrias, sem esquecer a vocação turística de nossa cidade estruturando melhor este setor. Quero nos próximos dois anos fazer a revitalização da Cruz do Monte.


FM – O senhor foi eleito, em 7 de janeiro, como presidente do Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Microrregião de Piumhi (CINSC). Qual a importância do consórcio para região?

Dr. Paulo – As prefeituras, de modo geral, ficaram sobrecarregadas ao longo dos anos. Observo que o Estado e a União jogam muitas responsabilidades para as prefeituras. E, entendo que uma das formas de se ganhar forças é fazer as associações e os consórcios. Com, isso a criação do CINSC foi de vital importância. Para ser presidente, necessariamente, tem que ser prefeito e representar a região como um todo. Pelo consórcio as prefeituras da região podem comprar serviços de maneira mais econômica, mais barata. São várias cidades e temos outras três que assinaram intenção de aderirem, para comprar consultas de qualidade, cirurgias, mais baratas para atender à população.


FM – O fato de o senhor ser médico contribui de alguma forma na gestão do consórcio? Como?

Dr. Paulo – Entendo que sim, uma vez que a finalidade do consórcio CINSC é a área de saúde da microrregião. Portanto, nas negociações com os colegas médicos, com as clínicas, nós que entendemos as necessidades e o que são os exames, as patologias, facilita a negociação. Afinal, o objetivo é prestar um bom serviço com custo reduzido para o município. Estamos lidando com dinheiro público e com isso precisamos fazer com responsabilidade e qualidade.


FM – O senador Rodrigo Pacheco assumiu o compromisso em 2020 de zerar a fila de cirurgias eletivas na Santa Casa de Piumhi. Como está a fila destas cirurgias?

Dr. Paulo – O senador Rodrigo Pacheco esteve na Câmara Municipal de Piumhi no ano passado lançando o programa que destina cirurgias eletivas, com o objetivo de zerar as filas, mas, por conta da pandemia, que ninguém esperava, houve a paralisação deste tipo de cirurgia, por conta de cirurgias de emergência e atenção total à covid-19. Então, logo que esta pandemia entrar em fase de resolução, cremos, que estas cirurgias eletivas serão iniciadas e retornaremos as negociações com o Estado, com o senador Rodrigo Pacheco para reavaliar as emendas e reprogramar as cirurgias, porque tudo tem que ser feito com a pactuação com os prestadores. Quem está apto a realizar, quais hospitais irão fazer e quais os tipos de cirurgias serão feitas em cada hospital. Por exemplo, Piumhi vai fazer oftalmológica, a Santa Casa de Cássia vai fazer vascular, isso precisa estar pactuado e ver os custos, além do número de cirurgias serão disponibilizados para a população. Mas, também tenho um programa municipal para fazer cirurgias de todas as áreas para tentar minimizar a fila.


FM – A Santa Casa de Piumhi é responsável pelo atendimento de um universo de quase 110 mil habitantes, normalmente. Com a pandemia isso tem aumentado. Como a prefeitura pode contrir?

Dr. Paulo – A prefeitura de Piumhi é parceira da Santa Casa de Piumhi, que é uma instituição filantrópica e que presta serviços também particulares e Sistema Único de Saúde (SUS) e está pactuada, pois em Piumhi a gestão é compartilhada. Então, a prefeitura faz um repasse mensal para manutenção do Pronto Socorro da Santa Casa. Os parlamentares destinam verbas para contribuir com a manutenção. Sabemos que todas as instituições filantrópicas há vários anos passam por dificuldades financeiras, pois o custo de assistência à saúde é muito alto. O que a prefeitura vai tentar fazer na minha gestão é estudar melhor a questão da gestão plena. A verba que vem do Ministério da Saúde, cair direto na conta do município e ele gerir o sistema de saúde municipal.


FM – Uma das reclamações mais recorrentes dos munícipes é com relação a filas de bancos. Quais estratégias têm sido pensadas a respeito?

Dr. Paulo – Em relação a esta questão das filas de bancos em Piumhi, fizemos um sistema interessante. A secretária municipal de Saúde, Rosângela Guerra fez reunião com todos os setores, inclusive com o sistema bancário, por meio de reuniões virtuais, estamos disponibilizando fiscais para orientar as filas, distribuindo álcool em gel, exigindo que as pessoas usem máscaras e cobrando das agências bancárias agilidade no atendimento, porque esta é uma responsabilidade dos bancos, mas, a nossa parte temos feito.


FM – Piumhi é uma das portas de entrada para o Parque Nacional da Serra da Canastra, um dos pontos turísticos mais procurados no Brasil. Como o município pode capitalizar em cima disso?

Dr. Paulo – Nossa cidade de Piumhi está numa situação privilegiada em relação ao turismo. Somos a entrada do Portal da Canastra, bem próximos a Vargem Bonita e São Roque de Minas. Estamos há 22 quilômetros de Capitólio onde tem o grande atrativo turístico Escarpas do Lago e os cânions, e ainda o Lago de Furnas. E, temos o privilégio de sermos cidade pólo com infraestrutura de comércio, rede hoteleira, somos referência hospitalar na microrregião. E, desde que entrei na administração venho trabalhando no sentido da região. Não adianta Piumhi ser forte se Vargem Bonita está fraca ou vice-versa. O importante é estarmos coesos nas nossas ações, e no turismo não é diferente. Já estou elaborando um Plano Municipal de Turismo no qual pretendo fazer revitalizações em pontos estratégicos de Piumhi. As placas indicativas, a nossa Cruz do Monte, e, aí sim, tentar a parceria com as cidades onde realmente estão os atrativos turísticos (cachoeiras, lago) entre outros.


FM – Ao mesmo tempo em que capitaliza, neste momento específico de pandemia, isso se torna um problema. Como tem coibido a entrada de turistas?

Dr. Paulo – No Brasil a pandemia assustou muito as pessoas. É uma situação difícil vivenciada pelos municípios de Piumhi e da região. Dependemos muito também de uma renda turística. Piumhi ainda tem outras atividades como o agronegócio, com a produção de leite e café, mas o turismo movimenta direta e indiretamente a economia. Com esta nova flexibilização do Programa Minas Consciente, creio que as coisas voltam à normalidade e voltaremos a receber os turistas.


FM – Como tem sido o seu relacionamento político com deputados estaduais e federais para capitanear recursos para Piumhi?

Dr. Paulo – Tenho excelente relacionamento com vários deputados estaduais e federais. Não somente que representam a região, mas de outras. Acho importante ampliarmos os horizontes. Estou feliz em saber que o senador Rodrigo Pacheco, que é da nossa região, tem o potencial grande de se tornar o presidente do Senado. Isso mostra a força da região, a força do senador e também é muito importante para toda a região. Tenho um grande amigo no deputado estadual José Guilherme, que é do meu partido (PP). Também o deputado federal Marcelo Aro, que é presidente do PP estadual, dentre outros. Todos que queiram contribuir com Piumhi que está de portas abertas. É importante dizer que não podemos ser prefeito de um deputado só. A cidade vem em primeiro lugar.


FM – Governo Federal e o Congresso devem reiniciar um debate em torno da continuidade do auxílio emergencial. Na sua opinião, mesmo furando o teto de gastos, ele deve continuar? Quais os reflexos na economia municipal se ele deixar de existir?

Dr. Paulo – O auxílio emergencial veio em boa hora, contemplou várias pessoas da região. Como todos os programas assistenciais, penso que tenha que ter mais critérios. Para que realmente quem necessita tenha acesso. Observamos que várias pessoas não têm necessidade e recebem, causando um impacto financeiro nos cofres públicos. Critérios deveriam ser mais rigorosos.


FM – O ano que vem será um ano eleitoral. Qual a sua previsão para a eleição do futuro governador do Estado? Vê chances de reeleição de Romeu Zema? Espera o surgimento de novos candidatos da região à Assembleia e Câmara Federal?

Dr. Paulo – Percebo que Romeu Zema se tornou um pouco mais político do que nos primeiros anos de sua gestão. É notório que ele esteja convocando os prefeitos, montando sua base e agrupando os deputados estaduais, em vistas, possivelmente de sua reeleição daqui dois anos. E, também do cenário estadual que o desenho do futuro concorrente do governador Zema já está pré-estabelecido, que é o prefeito de Belo Horizonte, o Alexandre Kalil. Vejo como importante a divergência de idéias, pois assim, só quem tem a ganhar é o Estado de Minas Gerais. Zema pegou um estado com uma situação difícil, ainda passa por dificuldades administrativas, como conduzir a máquina pública, do outro lado o Kalil tem seus méritos, afinal foi reeleito com mais de 70% dos votos. Torcemos sempre pelo Estado e que possamos ter excelentes opções para escolhermos no momento oportuno.


FM – O senhor tem intenções de se lançar candidato a deputado estadual ou federal?

Dr. Paulo – Já fui questionado a respeito desta intenção, talvez pela minha pouca idade. Comecei minha vida pública agora, então talvez por isso as pessoas tenham esta preocupação. Piumhi nunca teve um representante nem na Câmara nem na Assembleia que fosse de Piumhi. Estou prefeito de Piumhi e irei fazer tudo como prefeito. Não usarei meu cargo para servir de trampolim aos cargos nem de deputado estadual, nem de federal. É importante salientar que na vida pública as coisas acontecem ao longo do tempo. Então, se ao longo do tempo, eu, juntamente com minha equipe, fizermos um bom trabalho, lógico que isso credencia naturalmente o Dr. Paulo a disputar outros cargos. Se o trabalho não for o que a população almeja, não está creditado. Isso só o tempo e as composições políticas dirão. Mas, se chegar um dia em que precisar lançar meu nome a um cargo desta envergadura, darei o máximo de mim à esta população da microrregião.


FM – Quais são as suas fontes de inspiração e de desestresse, pois tanto como médico, quanto prefeito são funções estressantes.

Dr. Paulo – A principal fonte de inspiração é a base familiar. Tudo na vida que pretendemos fazer e almejamos, é importante ter uma base sólida. As orientações de pai e mãe, conselhos da família, de união e serenidade, de altruísmo, tudo isso é essencial, principalmente para quem busca atuar na vida pública. Pensar no bem coletivo. Carrego isso de berço e me orgulho, afinal saí de casa cedo, aos 14 anos para construir minha carreira. Temos também o criador de tudo que é Deus, que rege tudo o que se encontra na terra. Minha fonte de melhorar o estresse é brincar com meus filhos. Às vezes o estresse é justamente causado pelo fato de não conseguir dar tanto o tempo e a atenção que merecem.


FM – Fique a vontade para falar a respeito de algum assunto que entenda necessário e não tenho questionado.

Dr. Paulo – Agradecer à Folha da Manhã pela oportunidade da entrevista. À população da microrregião de Piumhi por este início de mandato que tem sido de muito trabalho, muita luta. Vamos implementar diversos trabalhos nesta gestão. Agradeço a todos os prefeitos da região pela parceria.