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Quem cala consente

30 de julho de 2020

Não são as ervas más que afogam a boa semente, e sim a negligência do lavrador.” – Confúcio
Por um longo tempo, venho me abstraindo de tecer comentários sobre o Governo Municipal de Passos, e, confesso, muito em homenagem a um grande amigo que, por governar outro município mineiro, vinha me aconselhando a evitar criticas a prefeitos da atual gestão, vez que “a sorte foi madrasta” dos atuais gestores pelo rigor das vicissitudes financeiras, muito maiores que as de qualquer outro mandato.

Além disso, percebi com satisfação, uma atuação que considero correta do Prefeito Municipal, na direção das ações contra esta maldita pandemia que tanto tem afetado a vida da humanidade, o que produziu um efeito quase de forma geral, de uma verdadeira trégua neste momento que tanto se faz necessária a união em torno de busca de soluções. Por isto e com maiores motivos ainda, tenho usado este quinhão bimensal de jornal, que me foi generosamente franqueado, para assuntos diversos sem focar temas domésticos.

Mas, em recente sessão da Câmara Municipal, o vereador Erick Silveira trouxe uma denúncia que, convenhamos, não pode passar em brancas nuvens. Segundo o vereador, o munícipio de Passos tem devolvido verbas de convênio, sendo a última de algo próximo a meio milhão de reais do Projeto Travessia. Pela definição do Governo do Estado, o Travessia é um “programa estruturador de atuação integrada em espaços definidos de concentração de pobreza, na área de resultados, Diminuição da Pobreza e Inclusão Produtiva”.

O objetivo é organizar as diversas ações do Estado, sob a coordenação da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), buscando o desenvolvimento social de forma sustentável, priorizando seis áreas de atuação: saneamento, habitação, moradia e entorno, saúde, organização social, educação e renda”.

Os recursos foram viabilizados há anos pelo Deputado Cássio Soares e segundo pude me informar, eram destinados prioritariamente à construção de módulos sanitários, podendo servir para a aquisição de fogão e geladeira para famílias que necessitem.

Já merece comentários gerais, mas precisa de confirmação, que outros recursos em caixa foram também devolvidos, simplesmente porque a Administração Municipal não conseguiu se mobilizar de forma a fazer com que se convertessem em benefícios à população, por isso, deixar de aqui apontar esta inaceitável omissão, negligência e porque não, a mais absurda inépcia de nossos gestores, seria uma conivência e até um calado consentimento com o descalabro administrativo de um governo que se arrasta melancolicamente para seu término.

Não existirão campanhas midiáticas, as mais caras e mirabolantes, capazes de convencer passenses excluídos de condições sociais que lhes permita uma vida digna, a aprovar ou mesmo votar em quem, ao invés de lhes oferecer mínimas condições sanitárias, preferira o pupilar descompassado dos galiformes que ainda se aninham no Cortiço do Rosário, como se estivessem a celebrar o livramento de uma verba para que ninguém precisasse de agir.

Diante desse lamentável quadro, talvez não existam implicações que configurem improbidade administrativa na atuação, ou falta de ação dos administradores. A desídia e a negligência não configuram dolo ou má fé, mas indiscutivelmente imputam culpa a quem por inépcia deixou de aplicar recursos disponíveis, exatamente em socorro àqueles mais necessitados. Quem deve fazer juízo, neste momento, é o tino popular reagindo e mais que isto exigindo explicações e justificativas plausíveis para o desleixo e o desmazelo daqueles que foram ungidos à condição de dirigentes maiores da cidade que vive atormentada com seus problemas.

Aliás, tive a vã esperança de que o Prefeito tivesse a sensatez de se justificar e apontar as razões pelas quais devolveu dinheiro em conta corrente para o Estado, fazendo desnecessário que tratasse deste assunto aqui, o que faço sem nenhum contentamento. Mas parece que usar de transparência de seus atos e ter a coragem de reconhecer suas falhas, não é exatamente o condão que preside as atitudes da atual Administração.

Oportuno ainda, saber o que aconteceu com os recursos do empréstimo da Caixa Econômica Federal, autorizado pela Câmara Municipal para recuperação das maltratadas vias públicas passenses. No mínimo, a população de Passos merece ser mais respeitada e nossos gestores terem a consciência de que não podem ficar calados, quando o interesse público está em jogo. Informar a população não é um ato discricionário, mas sim uma obrigação do verdadeiro gestor. A contrapartida a este sepulcral silêncio usado pelo Prefeito sempre que o assunto é mais complexo, sem dúvidas será a revolta latente de toda uma cidade, que pode se tornar explicita nas próximas eleições municipais.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna