Destaques Opinião

Que a Terra tenha piedade de nós

POR ALEXANDRE MARINO

30 de outubro de 2020

Em sua longa história de centenas de milhares de anos, a humanidade promoveu guerras e genocídios, fez descobertas científicas surpreendentes, construiu obras de arte de grande beleza, criou crenças em coisas abstratas, subjugou outras espécies e levou outras, animais e vegetais, à extinção. Com a evolução do conhecimento, dissociou-se da natureza e desenvolveu instrumentos artificiais como prolongamento não só do corpo, mas da mente e até do espírito. Hoje, a espécie humana chegou a uma encruzilhada – para onde iremos?

Essas reflexões estão em dois pequenos livros extremamente importantes, lançados recentemente, que todos os brasileiros deveriam ler. Seu autor é Aílton Krenak, líder indígena nascido em 1953 na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Aílton tornou-se conhecido nacionalmente ao participar da Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1988. Deu valiosas contribuições ao texto da Carta, que trouxe consideráveis avanços para os direitos indígenas.

No primeiro desses livros, “Ideias para adiar o fim do mundo”, Aílton lembra que, movidos pelo espírito consumista, construímos corporações que criam ambientes artificiais onde vivemos e devoram florestas, montanhas e rios. Descolados da terra, criamos uma sub-humanidade, esquecida pelas bordas dos planetas, nas margens dos rios, beiras dos oceanos, na África, Ásia ou América Latina: os caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes, que mantém uma relação orgânica com a Terra.

O dever constitucional do Estado brasileiro é assegurar a esses grupos o direito de viver em seus locais de origem, com sua cultura e costumes. Mas o que se vê desde o início do atual governo é o contrário, com o estímulo às invasões de reservas e o descaso pela destruição do meio ambiente. Como enfrentar? Aílton responde: “Tem 500 anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa.”

Para Aílton, rios, montanhas e árvores são dotados de personalidade e sentidos, não são “recursos, como dizem os economistas”. Com eles devemos conviver, e não exauri-los com máquinas e tratores. O Rio Doce é parte integrante da nação Krenak. O rio tem alma, como a montanha e as árvores, e sustentou a vida dos Krenak às suas margens. E, no entanto, está agora coberto de material tóxico, que desceu de uma barragem da mineradora Vale e o deixou em coma. “Vivemos na real condição de um mundo que acabou”, conta Aílton.

No entanto, não são apenas os indígenas que estão ameaçados diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. “O mundo acredita que tudo é mercadoria.” Como ele diz no livro que lançou este ano, “A vida não é útil”, pela mesma editora: “Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra”, enquanto as geleiras derretem, os oceanos estão cheios de lixo e aumentam as espécies em extinção.

Aílton critica as escolas, que “ensinam a reproduzir esse sistema desigual e injusto. O que chamam de educação é, na verdade, uma ofensa à liberdade de pensamento, é tomar um ser humano que acabou de chegar, chapá-lo de ideias e soltá-lo para destruir o mundo.” O caminho indicado é o progresso: “essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar.” Mas, para ele, não se pode dissociar a Terra da humanidade. “Eu não percebo onde tem uma coisa que não seja natureza. O Cosmos é natureza. Tudo em que consigo pensar é natureza.”

“Nossas crianças são ensinadas a serem clientes. Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor? Precisamos ser críticos a essa ideia plasmada de humanidade homogênea na qual o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania.”

Agora, a pandemia, na visão de Aílton, oferece a oportunidade da remissão. “Aceitamos a convocatória para ficar em casa e fazer o distanciamento social. Se somos capazes de ouvir um comando desses, por que não seríamos capazes de ouvir o comando de parar de depredar o planeta? Esse é um valor transcendente.”

Assim, Aílton Krenak propõe uma vasta revolução – individual, social, planetária. Seremos capazes? Podemos começar com uma reflexão. E pequenos gestos. Certamente não será o suficiente, apenas o primeiro passo. E que a Terra tenha piedade de nós.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna