Destaques Entrevista de Domingo

‘Quanto mais cedo se investir na criança, mais otimista será o cenário futuro da sociedade’

22 de fevereiro de 2021

A pediatra Rosângela Leal Cherchiglia explicou que é na primeira infância que se constrói o alicerce do humano, a base onde serão fixadas todas as estruturas para a vida futura. / Foto: Divulgação

Na entrevista deste domingo, a pediatra Rosângela Leal Cherchiglia, cooperada da Unimed há 27 anos, reflete sobre a necessidade de se pensar em políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da criança na primeira infância, período que abrange os primeiros seis anos completos de vida da criança. Uma fase cercada por imensos processos de desenvolvimento, influenciados pela realidade na qual esta criança está inserida, pelos estímulos que recebe e pela qualidade dos vínculos afetivos que vivencia.

Por este motivo, também se deve refletir sobre as situações de estresse tóxico que esta criança possa vir a sofrer, tais como abusos físicos e emocionais, e como isto pode se refletir no futuro dela e nas consequências para a comunidade onde ela vive. A entrevistada formou-se pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1985 e trabalhou na Prefeitura Municipal de Passos entre abril de 1990 e março de 2016, tendo atuado ainda como pediatra no atendimento aos alunos da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de Passos (Apae) entre junho de 2006 e março de 2016, além de atuar no Hospital Unimed (antigo Hospital São José) de novembro de 1989 até os dias atuais.

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Folha da Manhã – Por que a fase da primeira infância é tão importante?

Rosângela – É relevante em aspectos quantitativos e o segundo censo demográfico (IBGE 2010) existiam quase 20 milhões de crianças entre 0-6 anos no Brasil, ou seja, 10% da população do país. James Heckman, prêmio Nobel de Economia, evidenciou a importância de investir na primeira infância. Ele cita que, para cada dólar investido nesta fase da vida, sete dólares retornam como resultado positivo de longo prazo. Este retorno gera maior qualidade de vida, melhor colocação no mercado de trabalho, melhores salários e oportunidades profissionais e mais saúde, constatada pelos índices baixos de hipertensão, doenças cardíacas e obesidade, além da diminuição das chances de envolvimento com bebidas alcoólicas e cigarros ates dos 17 anos. Comparando o investir no início da vida apresenta melhores índices de retorno do que investir em uma escola durante a adolescência ou em formação para o trabalho na juventude.

Quanto mais cedo se investir na criança, mais otimista será o cenário futuro da sociedade. É uma forma, inclusive, de reduzir as desigualdades sociais e a pobreza, construindo-se uma sociedade mais sustentável. É na primeira infância que se constrói o alicerce do humano, a base onde serão fixadas todas as estruturas para a vida futura. Se bem construído, poderá suportar crescimento e transformações futuras, como adquirir conhecimento na profissão, conviver e estabelecer vínculos duradouros com pares, amigos, entre outros e cuidados de vida e de saúde, determinando nossas próprias características e modo de viver.


FM – Como se dá o neurodesenvolvimento nesta fase?

Rosângela – O neurodesenvolvimento humano é um processo complexo em que ocorrem interações de aspectos neurobiológicos e contexto ambiental. Aquele bebê, já acompanhado intra útero pelo pré-natal, que nasce enroladinho, olhinhos fechados, só quer mamar, mas adora colinho, chorão, não controla esfíncteres, dá birra, exigente, etc, cresce e se torna um pequenino que anda, corre, fala, pensa, se relaciona. Faz escolhas e se faz presente naquela família – escola – sociedade e vai conquistando seu lugar no mundo. A neurociência que é uma ciência multidisciplinar ao estudar o desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso, confirma que o desenvolvimento do cérebro depende de uma complexa interação entre os genes com os quais nascemos e as primeiras experiências que temos na infância.

Estas experiências impactam decisivamente na arquitetura do cérebro e na natureza e qualidade de toda e qualquer capacidade do ser humano adulto. O desenvolvimento físico pressupõe o cuidado com o corpo, a alimentação, a higiene, o sono, a proteção contra acidentes, receber conforto. É o crescer! Problemas como a desnutrição, um trauma ou outros problemas físicos vão impactar neste crescimento orgânico, neste desenvolvimento cerebral que pode comprometer o aprendizado, a anatomia e o sistema imunológico. Aqui relembro a importância do aleitamento materno na prevenção de problemas futuros. A conexão entre mamãe e bebê ultrapassa qualquer outra interação. As aquisições neurológicas e ambientais nesta fase são intensas e rápidas.


FM – Como se dá o desenvolvimento emocional e cognitivo nesta fase e como o desenvolvimento sociocultural contribuiu para a construção do ser humano na primeira infância?

Rosângela – O desenvolvimento emocional remete às interações de afeto, vivenciar emoções e sentimentos, expressar alegrias, tristezas, raivas medos e uma essencial experiência de segurança, o cuidado como porto seguro. Segurança significa que “eu, criança, sempre tenho alguém por perto, olhando e zelando para resolver todos os meus problemas”, Aqui é o amadurecer. É o: “Eu posso desbravar o espaço, pois tenho alguém ao meu lado para me incentivar, senão eu desisto e paro. Se caio, eu tenho o acalanto e o cuidado com afeto. Eu posso dar sinais, desafiar o adulto, mas tenho este adulto que me acalma, não desiste de impor os limites necessários e que, ao final do embate, me acolhe”.

O desenvolvimento cognitivo diz respeito às experiências e informações do mundo físico e cultural. Aqui é o aprender! É o pequeno cientista, com todo seu potencial de “radares” (audição, visão, paladar, tato, olfato), instrumentos de perceber e compreender o mundo, localizar meu corpo, falar, fazer perguntas, investigar. Aqui, o adulto é quem permite, direciona este cientista a desbravar seus desejos, suas necessidades, ensinando-o, incentivando-o, direcionando-o. O desenvolvimento sociocultural remete à integração/interação, o pertencer a um grupo. Aqui é o conviver! Sofre influência da família, da creche, da escola, da igreja, das casas dos amiguinhos e das festinhas.

Viver em sociedade, relacionar-se com pessoas, aprender regras do coletivo. Todo grupo tem histórias, produções próprias, como tradições, hábitos, costumes, artes, mitos, lendas, musicalidade, rituais. Aqui a tarefa é conjunta e recíproca, uma interação de diferentes experiências. É a interação cultural com códigos sociais, com afeto e ações simbolizadas. Por tudo isso, crescer/amadurecer/aprender/conviver faz este período ser de grande importância na vida do ser humano. Todo tipo de intervenções, deve ser, principalmente, neste período, aproveitando a neuroplasticidade, quando a reorganização neuronal favorece mudanças em direção ao desenvolvimento normal.


FM – Que tipo de consequências para a saúde e para o desenvolvimento da criança a violência pode trazer nesta fase?

Rosângela – Hoje encaramos os problemas destes pequenos sob a visão da neurociência. Isto nos abre janelas e muda nossa maneira de ver a evolução cerebral de nossas crianças. As neurociências, como a neurobiologia e a neurofisiologia, a utilização de métodos diagnósticos mais modernos como a ressonância magnética, dosagens hormonais (como a dosagem salivar de cortisol) nos leva a conhecer o que hoje se chama de “Estresse Tóxico Precoce”.

O cérebro ao nascer e até na gestação também, compõe-se de bilhões de neurônios e trilhões de sinopses que se desenvolvem principalmente nos dois primeiros anos de vida. Estas sinopses dão origem a espaços a serem preenchidos pelo aprendizado, contato social, ambiental, vivencial nos anos subsequentes. Então, entendemos estas grandes mudanças no neurodesenvolvimento e podemos trabalhar a favor das crianças na prevenção de patologias futuras. Toda criança vivencia algum tipo de situação estressora em sua vida, tais como doença com ou sem hospitalização, acidentes, entrar na escola, que é um ambiente diferente da família, perdas de entres queridos ou de um animal de estimação, nascimento de irmãos, com quem terão de dividir a atenção, por exemplo.


FM – Há também situações de adversidades em sua vida, sejam elas individuais, como prematuridade, baixo peso ao nascimento, fatores sociais, como pobreza, desnutrição, fome, agressão física, verbal ou dificuldade de acesso à saúde e à educação e fatores ambientais e familiares, como famílias desestruturadas, problemas conjugais, alienação parental, saúde mental instável dos pais, baixo grau de instrução dos pais, excesso de carga horária de trabalho dos pais e, neste momento, a pandemia da covid-19. Mas será que todas as crianças terão estresse tóxico?

Rosângela – Antes de responder esta pergunta, seria interessante entender melhor o que é estresse tóxico. Definimos como estresse elevado e contínuo que pode gerar a danos irreversíveis ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança, além de aumentar os riscos para doenças orgânicas ao longo dos anos, como doenças pulmonares, cardiopatias isquêmicas, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC’s), doenças autoimunes ou alterações comportamentais ou neuropsiquiátricas, como depressão, esquizofrenia, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno de Déficit de Atenção, drogadição, ao causar alterações na arquitetura cerebral, disfunções neuroendócrinas, alterações no sistema límbico, alterações da neuroplasticidade estrutural e funcional.

O estresse positivo e saudável é permeado, modulado por mecanismos protetores extrínsecos (ambientais) e intrínsecos (genéticos) que fazem esta criança recuperar sua homeostase. Os relacionamentos sólidos que envolvem a criança amortecem o risco de toxicidade biológica. Aqui, os pais/cuidadores ensinam a lidar com os problemas, injustiças, frustrações, adversidades, na vida, auxiliando-os a enfrentar situações conflitantes que enfrentarão ao longo da vida. Por outro lado, crianças excessivamente poupadas e protegidas não saberão lidar com situações conflitantes que enfrentarão em suas vidas futuras. Resumindo: a presença ou não de estresse tóxico na infância pode ser determinada pelo jeito e como os adultos responsáveis por essa criança lidam com os problemas e adversidades da vida, além da forma como os ensinam a conduzir determinadas situações.


FM – Como a violência verbal ou física irá se refletir no futuro adulto?

Rosângela – A violência é classificada, de acordo com o Guia da Sociedade Brasileira de Pediatria (2011) como: maus tratos físicos, abuso sexual, maus tratos psicológicos e negligência. Junto aos acidentes (quedas, envenenamento, afogamento, queimaduras, acidentes de trânsito e outros), a violência é um evento possível de prevenção e, no Brasil, corresponde a terceira causa de morte entre crianças de 0 a 9 anos. Os maus tratos incorporam atos de omissão, supressão ou transgressão dos direitos da criança definidos por normas socioculturais e convenções legais. O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 5º, estabelece que nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade, opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado por ação ou omissão aos seus direitos fundamentais. Estes comportamentos infligidos à criança (abusos, negligência, violência) estão na gênese de várias enfermidades físicas e psíquicas até mesmo graves como a esquizofrenia, problemas no aprendizado, abuso de substâncias psicoativas na adolescência e criminalidade.


FM – Quando se observa maus tratos é fundamental acionar a rede de proteção à criança, como o Conselho Tutelar, por exemplo. Entretanto, é preciso cuidado para não lermos negligência de forma equivocada. Condições socioeconômicas bastante precárias não necessariamente representam negligência. Embora a sociedade tenha evoluído muito na questão de preservar a criança, ainda existe uma cultura de que a violência educa. Como é possível reverter este quadro?

Rosângela – Hoje o que se observa é uma elevada prevalência de doenças mentais na esfera infanto-juvenil, porém o profissional que lida diretamente com as crianças, não só pediatras, como também médicos de família, professores, enfermeiros, entre outros, visualizam situações que oferecem riscos às crianças, porém muitos apresentam dúvidas, constrangimentos à abordagem destes problemas.

Precisa-se de profissionais capacitados e aptos quanto à conduta e ao acompanhamento longitudinal destes fatores de riscos e suas consequências para garantir uma proteção e assegurarmos os direitos de nossas crianças e adolescentes, para que desenvolvam suas habilidades com plenitude e segurança, contribuindo de forma produtiva para a sociedade. Existem algumas intervenções de promoção à saúde mental infantil consideradas de baixo custo, mas de alto impacto e baseadas em evidências científicas, tais como: programas dirigidos à gestante e orientações às futuras mamães quanto à saúde mental infantil, fatores de risco, proteção, educação e desenvolvimento normal da criança; programa de acompanhamento do desenvolvimento da criança (puericultura), através do qual monitora-se a saúde geral, saúde mental, fatores de risco, proteção, desempenho escolar e práticas educacionais.

Podemos citar também a promoção da saúde mental nos ambientes escolar, promovendo os professores a identificar desvios e a preparar os alunos para o exercício da cidadania. Também é preciso que estes ambientes identifiquem grupos de risco para criar programas de intervenção multiprofissional, com pedagogos, psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e médicos. Para finalizar, é preciso ainda investir em projetos que estimulem a atividade física, leitura, brincadeiras, músicas e que estabeleçam uma rotina de estudos para os alunos.