Destaques Dia a Dia

Punir ou formar?

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

18 de agosto de 2020

É muito importante estarmos atentos aos ‘sinais’ emitidos pelos acontecimentos do dia a dia, em especial, às notícias do Brasil e do mundo que, direta ou indiretamente, mais cedo ou mais tarde, acabarão por afetar nossas vidas, relacionamentos e maneira de viver. Nossas crianças e jovens recebem essas informações e, por estarem em formação, são mais suscetíveis a serem influenciados pelas mesmas.

Um exemplo disso é o programa de televisão “Malhação”, em que têm sido encenadas, com certa frequência, muitas discussões e brigas entre os jovens protagonistas, quase sempre por motivos fúteis, que acabam servindo de exemplo para nossos filhos e alunos. A violência nas ‘baladas’, nas danceterias, quando jovens são agredidos covardemente, às vezes até a morte, são fatos recentes e muito divulgados pela mídia. Estão banalizando atitudes inaceitáveis numa convivência humana.

O aumento da violência e da criminalidade no Brasil, que a mídia vem mostrando a cada dia, dá-nos ‘sinais’ claros das consequências da falta de uma política governamental coerente, inteligente e eficaz, que passe inevitavelmente pela justa distribuição de renda, pela melhoria da qualidade da educação e das condições de vida da população, mas também, pela colocação dos famosos ‘limites’, tão necessários em todos os níveis de convivência. A começar pelos poderes constituídos. Sabe-se que já houve melhorias, que a corrupção, antes desenfreada, já deixou de existir em diversos níveis, entre outras coisas. Isso dá trabalho e exige boa formação, tanto moral quanto ética, dos responsáveis pelo cumprimento das leis e pela administração de qualquer entidade representativa ou órgão público.
Já está provado que apenas prender ou punir quem comete uma infração não resolverá o problema. É preciso, antes de qualquer coisa, FORMAR cidadãos éticos, responsáveis e conscientes.

A boa formação vem da infância, vem ‘do berço’. Em geral. os pais adotam a postura de primeiro punir para depois conversar. O diálogo, tão necessário e oportuno, quase já não há nos lares, pela própria exigência da vida moderna, que acabou gerando inúmeros lares de pais ausentes. Na escola, quando um aluno apresenta um comportamento inadequado, é muito mais cômodo, simples e imediato aplicar-lhe uma punição. Mas será que, através dessas punições, esse filho ou esse aluno modificará o seu comportamento?

Só se modifica o modo de pensar de uma pessoa de ‘dentro’ para ‘fora’, ou seja, através da reflexão e ‘mudança interior’, da tomada de consciência. Acredito que, se houver uma orientação segura, pautada em reflexão lógica, qualquer pessoa, desde a infância, será capaz de rever seus conceitos, de analisar as consequências de seus atos, compreender os seus limites e, assim, modificar sua maneira de agir.

A escola tem, por tradição, duas funções básicas: Formação e Informação. A ‘informação’, que são os conhecimentos transmitidos a cada dia, a cada ano letivo, não está muito boa na maioria das escolas, em especial na escola pública, de acordo com pesquisa realizada pelo SAEB -Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica. Por sua vez, a ‘formação’ de bons hábitos de convivência, de respeito, de solidariedade, amizade e honestidade, também não tem apresentado resultados satisfatórios. Onde está o erro? Por onde dar início a uma transformação que realmente vá surtir os efeitos desejados ao longo do tempo? Alguns dizem que é pela melhor formação dos professores. Outros culpam os baixos salários ou as más condições de trabalho, e assim por diante.

Promover uma caça aos culpados não seria a solução. Adotar uma postura diferente, com vontade política de mudança, com responsabilidade social, dedicando-se à formação do nosso povo, a partir de nossas crianças e, principalmente, com a consciência de que será necessário muito empenho e trabalho, certamente seria um bom começo. Esta época de pandemia é um tempo bom para se refletir, analisar e, quem sabe, dar início às mudanças de que precisamos.