Destaques Dia a Dia

Provérbio chinês

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

21 de dezembro de 2020

Mais uma pérola colhida por Frei Clarêncio Neotti, OFM: “Todos os fatos têm três versões, a sua, a minha e a verdadeira.” Assim, o frei diz: “Muitas vezes nos encontramos na situação de defender nossa opinião a ferro e fogo, porque temos certeza de que é a verdadeira. Às vezes chegamos a dizer: Vi com os meus olhos. Mas, será sempre a minha versão dos fatos.” – Sempre que temos uma opinião formada por presenciarmos um fato, sendo testemunha ocular do ocorrido, ou quando tomamos conhecimento através de uma pessoa que merece toda nossa confiança, nós nos tornamos inflexíveis. Passamos a ser donos da verdade. Não admitimos nada que contrarie nosso posicionamento.

Em certas situações, por questões de fé, de religiosidade, de ideologia, podemos até ter alguma razão, mas, é a nossa razão. Em outras situações, como por exemplo, no caso de testemunho ocular, será que poderemos afirmar com toda a certeza que aquilo que presenciamos, foi a pura verdade? Será que um simples detalhe, mas, importante, não possa ter escapado de nossa observação? Ora, os olhos nos enganam até no ato de escrever! Sempre que escrevemos um simples texto, necessitamos revisá-lo várias vezes, pois, nos enganamos na gramática, na escrita, seja ela manual ou digitalizada. Cometemos enganos! No caso de testemunho jurídico, um detalhe que não percebemos pode ser muito valioso para a julgamento de uma causa. Quantos processos jurídicos possam ter causado injustiças por conta de, não digo falsos testemunhos, mas, testemunhos incompletos, mesmo que sem maldade?

Meu vizinho, que viu o mesmo fato com seus olhos, tem outra opinião. Nenhum é mentiroso. Mas nenhum tem a verdade. Porque a verdade inteira nunca é abrangida por uma pessoa. – Quando tratamos de fatos que foram presenciados, vistos com nossos olhos e que interagem com nossos pensamentos, as perspectivas dos fatos são nossas e as assumimos como verdades inabaláveis que presenciamos. Só que, nós temos a nossa forma de ver. Nosso vizinho também tem. São duas visões diferentes que, podem até convergir em partes, mas, terão as suas divergências para mais ou para menos. Não serão duas visões exatamente iguais, porque não somos totalmente iguais no nosso íntimo, na maneira de ver, de olhar, de sentir. Temos as nossas idiossincrasias. Somos iguais na aparência humana, no formato do corpo, mas, não somos exatamente iguais no que sentimos, pensamos e nem na forma de agir. Temos semelhanças, sim, mas, com personalidades diferentes. Portanto, ninguém está mentindo, mas, cada um está contando o que viu e interpretou. Assim, ninguém é dono absoluto de uma verdade.

“Quando olho a paisagem por uma janela, vejo o que a janela me permite ver. Meu vizinho vê a mesma paisagem da janela ao lado. Nenhum dos dois está errado. – A paisagem que nós vemos e nosso vizinho também, poderá não ter o mesmo “ sabor”, a beleza, os detalhes que ela poderá oferecer. Nosso estado de espírito não deverá estar exatamente igual ao do vizinho, nosso momento não permitirá apreciar a paisagem como deve ser apreciada e como o outro estará apreciando. Os problemas que carregamos no momento poderão não ser favoráveis para uma apreciação mais delicada e artística da paisagem. O vizinho poderá estar numa situação emocional muito melhor que a nossa. Poderá, também, ser uma questão do tempo, pois, uma bela paisagem terá sua visão modificada conforme o horário do dia.

Enfim, olhando de uma janela, o nosso ângulo poderá ser um pouco diferente, mesmo que as janelas estejam próximas uma da outra. Nós vemos o que a janela nos permite ver e até onde poderá alcançar a nossa visão. O mesmo acontecerá com o vizinho. O importante não será apenas a visão com os olhos, mas, com a imaginação, com a disposição de espírito, em que possamos enxergar detalhes e belezas, que não poderemos deixar despercebidas. Concluímos que, realmente o provérbio chinês tem razão: existem três versões, a sua, a minha e a verdadeira. Que cada um seja dono de sua verdade, sem menosprezar a verdade do outro e a verdade suprema que deverá estar com o Criador. Frei Clarêncio Neotti, OFM, também cita um outro provérbio, sem dizer a origem: “Todo ponto de vista é visto de um ponto”. Seria um sofisma, uma tergiversação? Não, mais me parece um pensamento filosófico!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino técnico comercial e registrado no MEC, formado no Curso Normal Superior pela Unipac.