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Provérbio alemão

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

1 de fevereiro de 2021

Mais um provérbio colhido por Frei Clarêncio Neotti, OFM, sacerdote em Vila Velha, no Estado do Espírito Santo.
Podes calçar sapatos de salto alto: sempre serás o que és.” – Vamos por partes, na avaliação do frei. Este provérbio alemão expressa bem a tentação de querer ser mais do que se é. Usamos até truques para parecer o que não somos: a maquiagem, roupas vistosas, enfeites caros pendurados visíveis no corpo.

– Não acredito que o frei seja contra tudo isso, até porque, todas as pessoas precisam se apresentar da melhor forma possível para as outras, não para impressioná-las, mas, para parecer bem no seu meio. Como se diz sempre, para sair bem na foto. Até os padres também usam suas vestimentas e seus paramentos para estarem devidamente adequados para as cerimônias religiosas.

O que o frei quer dizer é o seguinte: exagerar na aparência, nas vestes, nos penduricalhos, para provocar ciúmes, invejas e desejar ser mais que os outros, menosprezando os nossos semelhantes tentando dar um ar de superioridade e soberba, não é nada agradável, aceitável e nem é uma atitude educada, civilizada. Acredito que precisamos ler nas entrelinhas, para melhor compreensão do que diz o frei.

Os gregos têm um provérbio parecido: “Não suba o sapateiro além da chinela.” – Conta a história que um escultor grego colocou em local público uma estátua de um homem, esculpida por ele. Era para que as pessoas vissem sua obra. Por ali passou um sapateiro que, ao examinar e apreciar a estátua, observou um defeito na sandália esculpida num pé ou nos dois pés da obra. Fez um comentário, pensando em voz alta.

O escultor, que estava atrás da estátua e não era visto pelo sapateiro, foi verificar depois que ele saiu. Viu que tinha razão e refez a escultura no local indicado pelo sapateiro. No outro dia, o mesmo sapateiro, vendo que sua observação foi acatada, resolveu dar palpites em outras partes do corpo da estátua. Nisso, o escultor, que também estava atrás da obra, saiu, observou que ele não tinha razão e lhe disse: “Não vá o sapateiro além da chinela.” Foi uma lição para que o sapateiro entendesse que sua função era importante, séria e necessária para as pessoas, mas, que ele não se arvorasse a dar palpites em assuntos que não conhecia. Deveria ser o que realmente ele é!

O provérbio pode parecer desanimador, como se não pudéssemos crescer na vida. Mas ele não é contra o crescimento verdadeiro. É contra a falsidade, contra a aparência de crescimento. – Não se trata de desanimar ou diminuir ninguém, dando a impressão que não podemos ter desenvolvimento em nossa vida. Muito pelo contrário, ele é um alerta para que tenhamos os pés no chão e entendamos a importância de nossa vida terrena.

Significa que devemos crescer sim, em todos os sentidos de nossa vida e principalmente no sentido moral, psicológico e espiritual. Mas, que não sejamos falsos, que não queiramos apenas manter aparências que não são verdadeiras e não expressam o que realmente somos.

Precisamos ter e desenvolver todas as boas qualidades que um ser humano precisa ter e procurarmos ser cada vez melhores, sem pensar que estamos acima dos outros. Mesmo que tenhamos cargos ou postos de liderança, de mando, temos de ter a “cabeça no lugar”. Aparência apenas, não resolve, é preciso autenticidade cheia de humanismo sério.

O teatro grego, quando alguém precisava representar outra personagem, usava uma máscara. Quem usava a máscara era hipócrita. Até hoje os que aparentam ser o que não são se chamam hipócritas. – O teatro grego, talvez o mais antigo ou conhecido do mundo, foi muito famoso e fez escola em muitos países. Como diz o frei, atores que representavam outras personagens, outras figuras, usavam máscaras.

Por uma tradição do teatro, eu acredito que aqueles que insistem ser o que na verdade não são, aparentam ser mascarados. A falsidade é chocante! O que importa é ser sincero, usar o bom senso. Até Jesus Cristo insistia na sinceridade como um bom comportamento, segundo me disse frei Clarêncio Neotti, OFM. Aqui, nada a ver com as máscaras que usamos por conta da atual pandemia.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino técnico comercial formado no Curso Normal Superior pela Unipac.