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Por que é tão difícil mudar o Brasil?

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

22 de agosto de 2020

Na verdade, o título para esta análise é: “Por que as mudanças sociais no Brasil são tão lentas e incompletas?”. Só há uma maneira de explicar ou analisar esta questão tão crucial para o povo brasileiro. Recorrer às raízes ou origens da nossa formação cultural, política, econômica e social. Processo este iniciado no período Colonial que durou 322 anos. A herança colonial é responsável por grande parte dos entraves para o nosso progresso principalmente na área social. Também das deformações políticas que carregamos até ao presente século como nação.

Isto porque após a independência não foi possível romper de imediato com a estrutura econômica e social do Brasil Colônia. Daí, permanecemos até aos tempos atuais uma nação com dificuldades de aprimoramento da democracia e, sobretudo na manutenção integral das práticas republicanas. A herança colonial marcou indelevelmente a cultura política brasileira porque não houve a real e imediata libertação do Brasil na transposição do “Brasil Colonial” para o “Brasil independente”. Em 1822 a independência do Brasil foi feita por um príncipe português por sugestão do próprio rei de Portugal, seu pai D. João VI. Em uma carta enviada ao filho D. Pedro ele disse: “Se o Brasil vier a se separar de Portugal, põe a coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela”.

E assim, começou a história do Brasil livre, o filho do rei de Portugal lançou mão da colônia e fez dela um império pessoal e hereditário. A pergunta a se fazer é, por que a elite brasileira formada pelas oligarquias agrárias já bem fortes naquela época não fez o que a elite de 1889 veio a fazer? Ou seja, destituiu a monarquia e expulsou a família real para a Europa. Mas, como em história acontecida não tem “se” ou deveria ter acontecido de outra maneira, então vamos tentar entender porque somos o que somos!

O que realmente herdamos de tão pernicioso do passado colonial e imperial do Brasil e que nos afetam até hoje? Para começo de conversa a profunda desigualdade social que foi repassada da Colônia para o Império como, por exemplo, a escravidão. A vida social e econômica brasileira não mudou com a independência. A produção econômica da monocultura de exportação com mão de obra escrava permaneceu pelos 1º. e 2º. Reinados até o ano de 1888.

E com a abolição da escravidão nada foi feito para inclusão dos negros, tanto na sociedade quanto no mercado de trabalho, gerando aí as origens tanto do racismo quanto dos preconceitos sociais para com os pobres, uma vez que tais foram segregados a viverem em favelas, cortiços e outros arremedos periféricos urbanos. A escravidão além de estigmatizar negativamente toda uma etnia, eternizou também a desvalorização do trabalho e do trabalhador brasileiro, veja que o Brasil até hoje tem uma das políticas salariais de mais baixo poder aquisitivo do mundo. Esta é a mentalidade herdada, tacanha e ridícula de tratamento dado às relações entre o capital e o trabalho, como se o segundo tenha que ser subalterno e explorado até a mesquinhez pelo primeiro. E esta pratica de espoliação dos trabalhadores foi também repassada das elites do passado para as do presente. Este é o primado da fase selvagem do capitalismo e da qual fase não há o menor esforço para superá-la.

Outro problema do passado colonial e que veio também se agregar na República, este de cunho estrutural são as promíscuas práticas do patrimonialismo aliado ao clientelismo. Segundo conceito do sociólogo Max Weber, patrimonialismo é o uso sem limites do Estado pelo privado. Práticas estas que fizeram e continuam fazendo do Estado brasileiro, na maior parte de sua história ser privatizado e abusado em benefício dos mais ricos e poderosos. Este fenômeno político e sócio-econômico do patrimonialismo/clientelista é o caminho mais curto a permitir os graves problemas da corrupção praticada entre Estado e o privado, que se alastrou pelo país e se enganam completamente quem pensar que isto está no fim no atual governo.

Então, todo este processo político se encaixa para explicar porque é tão difícil mudar este país para melhor sempre evitando a introdução de um processo eficaz e sustentável para a ascensão social das classes pobres. Apesar das dificuldades para mudanças e dos fracassos das lutas populares contra as elites é sempre bom acreditar que tal destino não será para sempre. E a receita para a mudança é a história quem nos oferece, ou seja, cabe ao povo e não às elites como sempre foi no passado fazer acontecer. Mas, há que aprender como fazer a hora de tomar a grande decisão. Até porque a lição nos leva a rever o velho refrão em outra forma, “povo unido e consciente jamais será vencido”!

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História