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Por que é importante praticar uma linguagem consciente?

Por Prof. Anderson Jacob Rocha

30 de janeiro de 2021

Recebi, nesta semana, este pedido: “estou procurando melhorar meu vocabulário para ter uma conversação melhor. E o que eu poderia fazer para melhorar isso?”. Respondi o seguinte: faça boas e atentas leituras, grifando e fazendo anotações. Consulte o dicionário. Essa ação tem duas funções: conhecer os significados de palavras que não conhece e para saber sinônimos de palavras que já conhece.

Não há nada milagroso, concorda? Se fizermos isso, com certeza, teremos um aprendizado constante da língua portuguesa, tanto na questão da estrutura dela, quanto em suas questões que ultrapassam os aspectos ortográficos e gramaticais. Para melhorar isso, precisamos de um bom curso, daqueles englobantes, que nos fazem pensar, analisar e entender o porquê da existência de regra isso ou aquilo.

Estou abordando isso para replicar um fato que vi em um vídeo que está circulando na internet. Trata-se de uma cena que mostra participantes de um “reality show”, o Big Brother de Portugal, onde o participante Hélder fez gestos nazistas com o braço e marchando como se fosse um soldado nazista.

A direção do programa, após análise, o expulsou com os seguintes dizeres: “há temas com os quais nunca podemos brincar, correndo o risco de os desvalorizar ou banalizar . O gesto que você fez simboliza milhões de mortos. O Hélder sabe melhor que ninguém a importância das palavras e os gestos no Big Brother. Por tudo isso, Hélder, deixou de ser bem-vindo na minha casa. Está expulso do programa”. Por que trouxe isso aqui? Justamente para falar de que somos construídos pela nossa linguagem. Portanto, precisamos ir além do estudo gramatical porque somos fruto da língua, da linguagem e do discurso que aprendemos.

Sempre abordo a questão de como é necessário estudar as condições nas quais um enunciado foi proferido. Ao analisarmos como algo foi dito, em quais circunstâncias, para quem e em qual momento histórico, percebemos a nossa humanidade a partir da vontade de melhorar o mundo. Já estou cansado de ver pessoas que replicam um discurso raso dizendo que hoje não se pode falar nada, que tudo é “mimimi” e que tudo virou algo do politicamente correto etc. É interessante notar que não sabem exatamente o que estão dizendo, haja vista a apresentação de exemplos distorcidos. Isso é resultado de falta de profundidade no estudo da história e da construção linguística e discursiva do ser humano.

Vou dar apenas dois exemplos: como pode um cristão dizer que é necessário matar pessoas? Qual Cristo conhecem? Como pode um pedagogo ensinar aos pais que bater em criança faz bem? Baseado em qual estudo diz isso? Como pessoas inteligentes não conseguem propor algo melhor para evitar as mazelas do mundo? Precisamos ficar atentos aos discursos que ecoam na sociedade. Muitos são velados por não termos a consciência deles.

Dessa maneira, faz-se tão importante uma educação libertadora, daquela que ensina a criticidade, a reflexão científica que nos mostra, no caso linguístico/discursivo, que o estudo da língua e do discurso proporciona o direito de nos conhecer e fazer inferências pelo conhecimento do outro. É enxergar a cultura e os costumes de uma sociedade a fim de transformá-la para o bem.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: @prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob