Destaques Dia a Dia

Poema enjoadinho

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

12 de janeiro de 2021

Esse é o título de um poema de Vinícius de Moraes, publicado em 1992, muito citado apenas por seus versos iniciais, que dizem o seguinte: “Filhos… Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos, / como sabê-lo?”… E se encerra assim: “Porém, que coisa/ Que coisa louca/ Que coisa linda / Que os filhos são”! O poema de Vinícius, fora do seu contexto, assusta-nos porque todos os casais, por amor, por tradição, ou pelo instinto de preservação da espécie, sonham em ter um filho.

Conhecer os sentimentos e a forma de agir dos pais modernos é um dos desafios da relação moderna entre as duas gerações. A maneira como os filhos veem seus pais também tem sido modificada no decorrer do tempo e merece, portanto, uma reflexão. Da mesma forma, podemos questionar o papel da família frente à sociedade atual: será que ela tem a mesma importância, a mesma função e o mesmo ‘peso’ da época de nossos pais e avós?

Em diversos cursos, simpósios e congressos que participamos, pudemos aprofundar sobre todos os assuntos pertinentes à educação, ou seja, profissionais do mais alto gabarito, em sua maioria mestres e doutores, apresentaram subsídios e atualização sobre Psicologia, Pedagogia e Administração, entre outros. Em um deles, o tema abordado foi: “Família e Escola: uma relação possível e necessária” e é sobre isso que queremos refletir no artigo de hoje.

A família contemporânea, sob o olhar das ciências, tem três aspectos. No primeiro, que é analisado pelo ramo da ‘Sociologia’, a família tem um perfil ‘patriarcal’, onde o comportamento da mulher é dócil e passivo; tem como característica um ‘disciplinamento’ e um ‘controle social’ rígido sobre os filhos.

Sob o aspecto ‘Antropológico’, constatamos a família ‘nuclear’, atual, em que já se percebe a presença de uma mulher moderna, atuando como o suporte do homem. Nesse aspecto, encontramos o positivismo moral-social. Quanto ao estudo ‘Filosófico’, temos a ‘socialização da família’, com indivíduos inseridos em um meio de convivência, apresentando identidade e estado sociais. A presença da Mãe no seio familiar apresenta a linguagem da sociedade onde vivem, onde estão inseridos todos os membros da família.

Poderíamos refletir a família contemporânea também por outros três aspectos: Inicialmente, o ‘Pedagógico’, com ênfase nos ‘limites’, como sendo a entidade responsável, tanto legal quanto moralmente por seus membros. Em segundo lugar, o ‘Psicológico’, onde a função paterna e materna é exercida sem o rigor do ‘papel de educadores’ de cada um, como era antes. Finalmente, encontramos o do ‘Direito’, de sua ‘constituição legal’, uma entidade considerada como ‘legítima’, ‘natural’, como a base da sociedade. Podemos perceber, claramente, que “a mudança contínua da estrutura familiar moderna impossibilita sua identificação como modelo único ou ideal”, como tínhamos tempos atrás.

Quanto aos pais, na família contemporânea, encontramos figuras diferentes, como a de ‘pais e mães problemáticos’, traduzidos como ‘perseguidores’, que vivem apontando defeitos e corrigindo os filhos. Há os ‘salvadores’, que superprotegem os filhos e impedem sua capacidade e autonomia. E, finalmente, os classificados como ‘vítimas’ do destino, que não conseguiram se realizar no âmbito profissional e emocional, e que ensinam aos filhos que a realização pessoal é um sonho impossível.

Há outros tipos clínicos de pais e mães e o assunto é extenso, mas queremos destacar hoje que existem possibilidades viáveis na ‘educação familiar’ e na integração família-escola. Os profissionais da educação, em sua relação de diálogo com a família, podem contribuir para que muitos problemas sejam solucionados, ou pelo menos, amenizados.

É um ‘processo’ que deverá ser acompanhado, passo a passo. Faz-se necessária uma postura positiva, de diálogo, em prol dos alunos e dos filhos, para transformá-los em cidadãos responsáveis, participativos e comprometidos com o bem comum, criando para isso uma ‘ética relacional’, que busque uma educação a ‘seis mãos’, ou seja, com a participação de todos os envolvidos.