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PL que autoriza plantio de cannabis repercute

Gabriella Alux/ Especial

11 de junho de 2021

Em Passos, a demanda pelo medicamento em farmácia dobrou com a pandemia do coronavírus:/ Reprodução

PASSOS – A comissão especial da Câmara aprovou na terça-feira a proposta que libera o cultivo da maconha (cannabis sativa) para uso medicinal e industrial. A aprovação, após vários adiamentos, ainda deverá ser levada ao plenário da Câmara e, se aprovada, vai para o Senado e poderá viabilizar a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta cannabis sativa em sua formulação. Em Passos, segundo o farmacêutico Geraldo Marcos Antônio Silva, a demanda do medicamento dobrou com a pandemia do coronavírus e a sua regulamentação seria um passo importante, pois, por ser um remédio controlado, não é todo mundo que tem acesso.

“A demanda por esse medicamento aumentou muito, praticamente dobrou com o que era antes. Com a pandemia, as pessoas estão ficando mais em casa, se movimentando menos. Consequentemente, vejo que os clientes buscam uma forma de controlar a ansiedade e, principalmente aqueles que já têm alguma predisposição para dores, para diminuir a constância de dores locais. No entanto, temos à pronta-entrega apenas comprimidos, que poder variar o preço de R$12,50 a R$90, e a regulamentação seria ideal para tornar viável a produção e comercialização do óleo também, que é o que não temos”, declarou o farmacêutico.

De acordo com a responsável técnica pelo setor de enfermagem da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), a enfermeira Wilsiane Calixo Rossi de Souza, o tratamento com medicamento à base de canibidiol é promissor em casos onde o uso de demais medicamentos não fazem mais efeitos.

“Temos cerca de quatro usuários que fazem tratamento com canabinoides, sendo a maioria por conta da epilepsia de difícil controle, além daqueles que também fazem a terapia, mas de forma particular e sem vínculo com a Apae. Todo esse tratamento aqui é feito com respaldo médico, mediante laudo, após vários exames comprovatórios. Assim que o medicamento é liberado, é entrado com um processo de aprovação e então o remédio é recebido e tratado à domicílio, com monitoramento do médico neurológico”, conta.

Segundo a enfermeira, a aprovação do PL seria ideal justamente por conta da dificuldade e demora para que o paciente tenha o medicamento.

“É um longo processo. Já teve casos de demorar cerca de seis meses para chegar o canabinoide. O projeto seria muito bom para esses pacientes, pois eles poderiam até mesmo plantar em suas casas, de forma monitorada, o que seria benéfico para todo o tratamento”, declarou Weilsiane.

O passense Youssef Antônio Oliveira Cherain, médico veterinário e vice-presidente da Associação Terapêutica Cannabis Medicinal Flor da Vida, explica que a aprovação do projeto permitiria uma maior qualidade do medicamento, uma vez que o óleo fitoterápico contém todos os canabinoides. Segundo ele, o óleo seria mais eficiente, ao contrário do que é disponibilizado em farmácia, pois é um medicamento sintético.

“Os comprimidos das farmácias apenas contém Tetra-Hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CDB) de forma sintetizada. Na nossa associação, por exemplo, fazemos o óleo full spectrum, que é o óleo feito da planta toda, com 512 canabinoides diferentes, vários terpenos e flavonoides. Isso significa que o canabinoide é o princípio ativo medicinal e que temos uma farmacopeia dentro de uma única planta como antibióticos, analgésicos e anti-inflamatórios”, explicou Cherain.

A Flor da Vida, com sede em Franca-SP, tem mais de mil pacientes de, 23 estados brasileiros, que fazem tratamento à base de canabis. Segundo Youssef, sempre tem pessoas que entram em contato querendo fazer uso recreativo, por isso é preciso ter um controle rigoroso, onde o paciente precisa ir ao médico para avaliar sua patologia e emitir uma receita para poder ser fornecido o fitoterápico.

Médica explica

De acordo com a especialista em medicina canabinoide, a médica Yasmim dos Santos Bittencourt, o uso da cannabis medicinal é, atualmente, no tratamento de epilepsias refratárias, esclerose múltipla, dor crônica e fibromialgia, doença de Parkinson, demência ,autismo, distúrbios do humor, insônia e transtornos do sono, distúrbios dermatológicos, como adjuvante nos tratamentos oncológicos e paliativos.

Segundo Yasmim, o principal aspecto positivo do uso da cannabis medicinal é a boa resposta em pacientes que já não respondiam aos tratamentos convencionais. Os principais benefícios são suas ações anti-inflamatória, analgésicas, ansiolíticas e anticonvulsivante.

“As pesquisas sobre reações adversas no uso de cannabis medicinal ainda são inconclusivas. Primeiro, pelo fato das reações serem dose dependente (quanto maior a dose, maior a probabilidade) e, segundo, pelo fato de que o uso medicinal envolve dosagens baixas e controladas dos fitocanabinoides”, relatou. Os efeitos mais comuns são sonolência, fome e ganho de peso, comprometimento da memória, psicose e dependência.

No entanto, Yasmim ainda conta que, apesar da maioria das pessoas que consomem cannabis, seja para uso recreativo ou medicinal, não ficar dependente, é possível desenvolver um vício.

“No caso do uso medicinal da cannabis, onde se é usado em maior proporção o CDB que o THC, o risco de dependência é mínimo, já que o CDB não possui potencial de vício. Inclusive, há vários estudos em andamento com o uso de óleos ricos em CDB para tratamentos de transtornos associados a dependência química secundária ao uso recreativo da maconha. Ainda assim, os estudos evidenciam que a cannabis apresenta menor risco de dependência e menor dano físico, psíquico e social que o álcool, tabaco, opioides e outras substancias ilícitas”, finalizou.