Destaques Dia a Dia

Pitoco

13 de junho de 2020

Tudo bem que ele seja o Doutor Manoel Toledo dentro de sua roupa branca e no consultório, mas quando entra nas botinas e assume sua mineiridade matuta não há como não encará-lo como o Mané ou, como favor, Mané da Lúcia. Os assuntos da roda passam obrigatoriamente por uma história sua, seja na turma de cavalgada do Paulo Calixto, João Dimas, Gilmar, dos Lopes e cia., seja em volta de qualquer rabo de fogão ou das brasas de churrasqueira.

Eu, às vezes, sou meio passado em determinadas narrações e acredito inteiramente na veracidade do narrador, ainda mais quando ele entoa uma voz alta, segura, olha gente nos olhos etc. No entanto, depois de acreditar inicialmente, visto que na história não tinha mula sem cabeça nem saci pererê, tive um rasguinho de dúvida e, num desencargo de consciência, submeto-a ao julgamento dos meus queridos leitores que decidirão por mim. O negócio é o seguinte:

Durante uma festa de confraternização destas de final de ano, mais para seus finalmentes, quando já amainara o berreiro dos jogadores de truco e os cantadores desistiram de cantar uma música afinada, o Mané perante meia dúzia de testemunhas, cruza as pernas, toma um gole de cerveja e monopoliza a atenção:

– Lá na roça, eu tinha um cachorrinho, assim mistura de bassê com fila (de aposentado), que parecia ensinado em circo. Dois quilômetros antes de eu apontar com o carro na estrada, o bichinho já se inquietava esticando o focinho em direção à porteira de entrada. Na hora de tocar o gado, podia deixar as reses apartadeiras por conta dele que trazia no latido e mordendo-lhes o rabo. Mas o que mais me impressionava no cachorro era sua capacidade de desentocar tatu. Cavucava tão depressa que pegava o tatu antes dele aflorar na outra saída. Mais eficiente que o método do gás!

– Cumé esse tal de método do gás, Mané?
Uma conversa puxa a outra.

– Lá no Mato Grosso, a gente levava um botijão, enfiava a mangueira na toca e vedava a entrada, soltando o gás. Ou o tatu saía tontinho pela frente ou, se não, a gente tacava fogo e explodia tatu prá todo lado. Nos anos seguintes, a mesma coisa até que uma vez alguém gritou lá de fora: “Olha o gás!” e a tatuzada saiu toda. Ano que vem vamos experimentar levar só aquela musiquinha ranheta de alto-falante dos caminhões de gás.

– Não se esqueça de me avisar o resultado.

Eu acredito e até sugeri que eles patenteiem a idéia prá ganhar dinheiro.

– Bão. Voltando ao Pitoco. Numa ocasião ao encantoar uma vaca parida recente, levou um pisão na perna direita da frente, quebrando-a. O Ivair, meu funcionário, condoeu-se do animalzinho e improvisou uma tala de tabuinhas e uma faixa de gaze cobrindo-a com gesso. Um mês depois, na desingessadura notei que o Ivair, apesar da boa vontade, havia colocado a pata do Pitoco virada para diante, numa posição esquisita como esquisito ficou o jeito dele andar. Quebrar de novo para um conserto nem pensar, que seria judiação demais.

Aí, uma tarde… Você se lembra, Valídio (Dr. Valídio Rossi, seu vizinho de cerca, gema e clara!) que a gente estava até tomando uma cervejinha lá em casa?

– Lógico que sim, Mané. Daquele redemoinho?

– Exatamente. Notamos um poeirão subindo a uns duzentos metros de onde estávamos, parecendo um redemoinho, só que parado. Levados pela curiosidade, corremos até lá e quase caimos de costas com o que encontramos. Você nem imagina!

– Não mesmo.

– O Pitoco encontrou um buraco de tatu e partiu instintivamente para cima. Só que, coitado, na mesma enorme velocidade com a qual cavucava com a pata a esquerda, a direita empurrava a terra para o local de origem tampando o buraco. Aquilo foi enervando o cachorro que tentava compensar aumentando o ritmo. Parecia poeira de jipe na estrada em tempo de seca!!!
Qualquer dia, ele prometeu me apresentar o Pitoco.

Até lá, a opinião dos meus leitores me é extremamente importante para tirar essa dúvida injusta contra meu amigo Mané a respeito da veracidade do caso!