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Pitito

11 de julho de 2020

O Pitito não regulava bem da cabeça. Desde pequeno, o corpo disforme lhe vetara o mundo, a escola, um serviço bão ou qualquer. Crescia sob as tacanhas da mãe, igualmente fraca, sem jamais ter conhecido o pai que a própria mãe também não “haverá” de saber.

Viviam à base de esmola, por moradia as sobras da casa em ruínas, de favor, nas beiradas da Lagoa de Trás de onde saíam toda madrugadinha para a pedição nas redondezas. Estranheza de par! Ela, pontas de cabelo esvoaçante e duro, cortado em casa mesmo na tesourona cega, andrajos de cor misturada entre areia suja e pó de estrada, os pés grossos de bater caminho. Ele, torto, pendendo de banda, desde o pescoço aos tornozêlos finos, sobressaídos da calça de brim, única, cuja perna direita era constantemente arregaçada, que nem os olhos da cara, um aberto, o outro descaído, seguindo a linha do esgar pregado na boca.

A mãe, doidinha, judiava do Pitito. O Pitito, doidinho, era obrigado a acompanhá-la nas carreiras desenfreadas pelos cafundós de mato e ruas de Piumhi, Perobas, vilas e povoados da região. Ele suava, corria, xingava coisas sem sentido, manquitolava, corria e, se não, apanhava de vara, de corda, do que ela tivesse mais próximo à mão, igual a um cachorrinho. Revoltava-se impotente, mas acostumara, sem opção, escorado nela. Até um dia, homem já feito, que lhe deram a notícia da morte dela no hospital de Formiga, adonde a levaram com os pulmões enfraquecidos de tuberculose, teve a reação mais esquisita:

– Foi tarde. Graças a Deus. Foi pôr os capetas prá correr nos inferno.

E o Pitito nunca mais correu na vida. A pedição agora transcorria devagar, não rejeitava oferecimento de pouso, descompromissado da obrigação de voltar sempre para casa.. só lá de vez em quando. Se alguém lhe oferecia trabalho, nem que fôsse apenas de brincadeira, careteava, escorregava, desfeiteva. Assim, certa tarde, aportou na fazenda dos Tomé, ganhou o pratão de comida, a canecona dágua e pediu arranchamento no paiol entre a sede e os currais.

– Pode sim, Pitito. Bamo arranjá um corchão de paia e jogá lá procê. Ah! E se ocê tivé vontade pode pagá o pouso discascano umas espiga e tratá das galinha amanhã.

Agradeceu e tomou rumo do paiol depois de ir no fundo da horta aliviar a barriga e a bexiga. No dia seguinte, terminada a tiração de leite e sôlta a vacada, surge o Pitito, preguicento, a alça da canequinha firme nos dedos a cata duns goles de café e “se num atrapaiá, uns pedaço de bolo ou um punhado de quitanda mode assossegá o estame”.

Saciado e já nas despedidas, alguém cobrou:

– Discascou o mio de tratá as galinha?

A resposta veio arrastada:
– Uai, sô! Ocê ispiculô se ieu tinha vontade de fazê a tarefa, num foi?

– Foi.

– Puisintão! Bem qu’ieu fiz fôrça de tê, sô. Mais num tive não. Fica prá quando ieu vortá. Na próchima.

E sumiu pros lados de Penedos. Aliás, ali no arraial dos Penedos, coincidiu dele chegar numa das festas do padroeiro, barracas armadas, leilão concorrido, carrinho de picolé. Escutou o pessoal falar do sucesso da festa, da renda, do bom dinheiro apurado e não teve dúvidas:
– Quem qui toma conta dos cobre do santo?

– O vigário de Piumhi.

– E cadê ele?

– Tá rezano novena na capela.

Em dois minutos estava o Pitito chacoalhando a ponta da batina do padre:

– Ô sô padre. Ô sô padre.

Este, interrompido, mirou bravo o insolente. Não adiantou:

– Que cara feia é essa, sô? Tá nadano nos cobre! Prigunta pro santo aí, ó, se num tá sobrano uns cobrinho mode ajudá ieu tamém, sô, qui tô numa percisão danada!

Ainda bem que uns congregados marianos o afastaram rapidamente dali, mas ele saiu no esperneio:

– Quequié, gente. Pó sortá. Se num quisé dá é só falá e pronto. Num carece mi carregá!
Teve uma ocasião na qual ele surgiu na Rua das Flores, local que abrigava a famosa zona de prostituição, no centro de Piumhi. Rodou para um lado e outro, assuntando o ambiente, até topar com uma aglomeração de curiosos no meio da rua. Se escarafunchou por entre a confusão e viu um homem metendo o couro na mulher, já entregue no chão.

– Vagabunda! Vadia! Muié à tôa!

E pá! A sova comia sôlta.

O Pitito não aguentou e meteu o nariz.

– Mode que tá bateno nela, sô?

Respondendo na raiva, mais para o pessoal em volta, do que ao Pitito:

– Tirei essa muié da zona e levei prá casa. E ela quis? Ela quis? Não se deu ao respeito de muié dereita. Se ofiricia a quarqué um. Safada!

E pá, de tapa e pescoção. Coisa comum por ali, rotina que atraía somente pelo circo armado. Menos pro Pitito:

– Peraí, peraí, sô!

– Peraí, o que?

O trem engrossou pro lado dele.

– Pru que qui ocê num larga dela?

– Vô largá.

– Pronto intão, sô! Se procê num tá bão, prá mim ela tem bastante sirvintia.

E foi se encaminhando para os lados da vítima. A conta de levar um tapaço na orelha e um pé na bunda que o pôs a catar cavaco vinte metros adiante, adonde aprendeu para sempre a nunca mais entrar em briga de marido e mulher!

De outra feita, o Pitito… adespois ieu conto.